CAPOEIRA

Muito além das pernas

Hoje é o Dia Mundial da Capoeira e Campinas foi a primeira cidade brasileira a registrar a modalidade como patrimônio cultural e imaterial, resgatando histórias e valorizando sua prática

Cibele Viera/[email protected]
05/07/2024 às 08:15.
Atualizado em 05/07/2024 às 12:19
 (Fabiana Ribeiro)

(Fabiana Ribeiro)

Não são poucos os depoimentos de capoeiristas que afirmam: “a capoeira me salvou!”. E quem não conhece a multifuncionalidade dessa modalidade esportiva se pergunta como isso pode acontecer. A resposta vem do mestre David Sousa Rosa, que participou do movimento de salvaguarda desse patrimônio na cidade e experimentou – como uma criança pobre e sem perspectivas da periferia – o resgate que a prática da capoeira proporciona em todos os níveis, como social, mental, físico, cultural e muitos outros aspectos. Ele foi um dos envolvidos nas discussões sobre a criação de políticas públicas na cidade, em movimento que mapeou mais de 55 grupos atuantes e garantiu que a modalidade mantenha na Estação Cultura uma sala do Coletivo Salvaguarda da Capoeira de Campinas (@cscc), onde toda semana há atividades abertas e gratuitas.

Como ele, o mestre Marquinhos Simplício batalha para que as atividades em torno da capoeira no município avancem de maneira organizada, profissional, com constância e usando todas as ferramentas e espaços disponíveis. “Nós nos mantemos firmes na luta pela preservação desse legado dos antepassados e que tanto bem faz às pessoas”, diz. Ele vivenciou, desde a infância, a “tiririca” (conhecida como capoeira paulista), foi estudar, evoluiu e, em 1979, se formou em capoeira angola (a modalidade mais antiga), na qual se tornou mestre em 1985 e ensina até hoje, inclusive com aulas abertas na Estação Cultura às quartas e sextas-feiras à noite e sábados pela manhã.

Se por um lado, a prática da capoeira resgata importantes benefícios para a saúde física e mental, é inegável o quanto ela favorece também a socialização das comunidades e agrega história e cultura. David, que atua como mestre desde 1988 na Casa de Cultura e Memória Ibaô, costuma dizer que o jogo e o gingado vão muito além do movimento das pernas. “São várias artes em uma só, com muitos conhecimentos. A roda de capoeira é a volta ao mundo, onde você aprende a se relacionar com outras pessoas, respeitar diferenças, lidar com situações inesperadas e ainda resgatar o aprendizado histórico de resistência de nossos antepassados, trazendo sua identidade e cultura para a atualidade, além de descontruir preconceitos e mazelas racistas”, salienta.

Em junho de 2021, a vereadora Guida Calixto (PT) apresentou um projeto de lei para tornar a capoeira matéria obrigatória nas escolas municipais de Campinas. A proposta foi rejeitada em 2022 e, agora em 2024, a vereadora reapresentou o projeto por entender que ele está em sintonia com a educação antirracista que é o tema principal da Secretaria Municipal de Educação.

O professor Osvaldo Gelain Júnior, conhecido como ‘Ninja’, entende que a capoeira na escola é umrecurso que pode ajudar na formação tanto do atleta quanto do cidadão. Ele coordena, desde 2005, o projeto “Capoeira Arteira”, que leva a prática para instituições escolares e sociais. Atualmente, mantém também uma roda de capoeira aos sábados pela manhã na entrada da Pedreira do Chapadão.

HISTÓRIA E BELEZA

A capoeira foi criada no século XVII pelo povo escravizado da etnia banto e se difundiu por todo o Brasil. Sua prática teve origem quando 3 a 5 milhões de africanos foram escravizados para trabalhar no País. Estes, proibidos de praticar qualquer tipo de luta, disfarçavam os movimentos de combate com música e dança, criando assim a capoeira. Era, nessa época, uma forma de luta e resistência dos escravos. A palavra capoeira significa ‘o que foi mata’, uma referência às áreas de mata rasa do interior do Brasil, percorridas pelos fugitivos da escravidão. Esses foram os primeiros capoeiristas, dizem alguns historiadores. Mantida pelos descendentes, a capoeiragem é símbolo de liberdade e sobrevivência e, durante muito tempo, foi proibida no Brasil.

Jogar capoeira é, ao mesmo tempo, uma luta e uma arte, dizem os mestres. Dentro da formação de uma roda, o jogo depende do ritmo ditado pelo atabaque, pelo berimbau e pelo agogô, instrumentos que a caracterizam. Normalmente, eles são acompanhados por cantos e palmas. Dois parceiros, de acordo com o toque do berimbau, executam movimentos de ataque, defesa e esquiva, simulando uma luta. O gingado é a base da capoeira, um movimento ritmado que mantém o corpo relaxado, mas em constante deslocamento, permitindo os movimentos de ataque ou contraataque. É uma mostra de habilidade e força, além de integração e respeito entre os jogadores, que nunca ficam parados. Todo esse movimento cadenciado torna a capoeira muito bonita de se ver.

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