ENTREVISTA

Fotógrafo cubano registra Campinas para exposição

Mario Diazé um convidado do Festival Hercule Florence: ex-diretor da Fototeca de Cuba e discípulo do autor do icônico retrato de Che Guevara

Marita Siqueira
22/10/2015 às 16:19.
Atualizado em 23/04/2022 às 03:47
O fotógrafo cubano Mario Diaz expõe seus trabalhos em Campinas (Dominique Torquato/AAN)

O fotógrafo cubano Mario Diaz expõe seus trabalhos em Campinas (Dominique Torquato/AAN)

O fotógrafo cubano Mario Diaz, principal nome do 9º Festival Hercule Florence, que ocorre durante este mês em Campinas, está bem adaptado à cidade e curtindo a estada de 31 dias em terras brasileiras. Isso porque, para ele, Brasil e Cuba “são muito parecidos culturalmente” e a fotografia, apesar das singularidades regionais, “é a mesma em todo o mundo”. Não é sua primeira visita ao País, tampouco a mais longa — se diz até “pontepretano” —, mas a única em que realizará uma exposição com imagens capturadas nas ruas da cidade. A produção desse conteúdo começou no fim de semana passado e se estenderá até o dia 30 de outubro, quando ele retorna a Cuba. Portanto, os campineiros poderão encontrar Diaz por aí, transitando nas vias urbanas com sua Leica M8, câmera preferida pelos “fotógrafos-artistas” e cuja qualidade se aproxima, segundo ele, à de uma pintura. Ele a carrega por onde quer que vá, desde o primeiro clique, há 10 anos — foi com ela que ingressou na era digital. O resultado poderá ser visto a partir do dia 15 de novembro, nas janelas do Museu da Cidade (sem data definida para encerrar). Antes disso, no entanto, o fotógrafo fará uma palestra sobre o 115 anos da fotografia cubana no Sindicato dos Químicos Unificados, em 27 de outubro. Aos 65 anos, Diaz tem muito a contar. Foi fotógrafo oficial do Departamento de Fotografia do Ministério da Cultura de Cuba entre os anos de 1979 e 1985, diretor da Fototeca de Cuba, de 1994 e 2000, e realizou exposições por diversos países, sendo que a estreia brasileira ocorreu em 1988, com Fotografías Imágenes y Sonido, no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Sobre os trilhos da desativada Estação Ferroviária de Campinas, hoje Estação Cultura, Diaz concedeu entrevista ao Caderno C. Caderno C - Há diferença entre a fotografia de Cuba, a europeia e a latino-americana? Mario Diaz - Cada lugar tem sua particularidade, mas a fotografia é uma só: é boa ou não é boa. Assim como a arte, a literatura. Em Cuba tivemos o mestre Alberto Korda (1928-2001), que ficou conhecido no mundo todo por aquela foto do Che (o retrato mais famoso de Che Guevara), e de quem fui muito amigo. Aliás, viemos ao Brasil em duas ocasiões, ele gostava muito daqui e da fotografia brasileira principalmente. Korda era um homem que adorava seu país e nunca o abandonou. Fui influenciado pela obra e pela pessoa dele. Se um dia eu tiver que me refugiar, ir embora de Cuba, virei para o Brasil, essa é minha segunda pátria. Amo o Brasil, nós somos irmãos, aqui sempre fui muito bem acolhido pelos brasileiros. O que lhe encanta no Brasil? Nós temos uma cultura muito parecida. A música brasileira é extraordinária, como em Cuba. Há uma mistura interessantíssima de pessoas: brancos, pretos, asiáticos... Adoro a comida também. México e Bolívia também são parecidos, mas o Brasil é muito mais. Somos próximos. O que nos diferencia é a língua, português e espanhol, mas se você falar o portunhol dá para se comunicar perfeitamente. Quando foi a primeira vez que veio ao Brasil? Foi em 1988. Já vim várias vezes, tenho amigos aqui. Para mim, o Brasil é o país mais importante para a fotografia da América. Fui muitas vezes ao México, que tem uma história de fotografia bem interessante, assim como o Brasil. Mas quando conheci a história de Florence fiquei muito interessado em saber mais sobre ele. Na fotografia, os europeus dizem que criaram tudo e poucos sabem que, aqui no Brasil, Hercule Florence também foi um dos pioneiros da fotografia. Você sempre teve acesso fácil à literatura sobre o tema? Sim. Eu trabalhei como fotógrafo no Ministério da Cultura de Cuba muitos anos. Lá tive acesso a muita literatura, conheci a América Latina, a cultura dos países, nomes como Sebastião Salgado, que é um dos maiores fotógrafos do mundo atualmente. Você realizou exposições por diversos países, inclusive os Estados Unidos. O fato de ser cubano causou alguma dificuldade? Não. Nunca tive problema em lugar algum, já viajei o mundo todo e acabei de voltar do Japão. Qual foi seu primeiro contato com a fotografia? Meu pai tinha uma câmera russa, com a qual fazia fotos da família e eu sempre por perto, observando. Um dia peguei a máquina, fui ao parque, bati algumas fotos, voltei, fui para o laboratório, revelei e me apaixonei pela fotografia. Não queria ser mais nada da vida, nem cientista, nem esportista, nem médico, nem astronauta, só queria ser fotógrafo. Como transitou da fotografia analógica para a digital? Teve uma época em que, quando os amigos iam para Cuba, eu pedia que levassem um pacote de filme. Era bem mais complicado. Um dia, em 2005, eu dei um workshop em Cuba, e ao final ficamos batendo papo eu, um amigo brasileiro, da Bahia, um cara dos Estados Unidos e outro da Alemanha. Conversa vai, o alemão me mostrou a Leica M8 digital que ele tinha. Pedi para trocar com uma boa que eu tinha, ele topou. Quando comecei a bater as fotos, adorei! Me apaixonei por ela. Tem algum campo que você gosta mais ou que busca focar no seu trabalho? A fotografia tem muitas especialidades. Como trabalhei no Ministério da Cultura, tive muito contato com cineastas, escritores, dramaturgos, dançarinos... Me agradava muito fotografar tudo relacionado às artes, assim como retratos sociais, pessoas nas ruas, cenas urbanas, o cotidiano. Durante o tempo em que trabalhou no Ministério da Cultura teve a oportunidade de fotografar Fidel Castro? Em uma ocasião apenas, há muitos anos, e foi uma experiência bem legal. Está nos arquivos históricos. Fidel é um dos grandes heróis da América Latina e do mundo. Fez pelo seu país o que os outros governantes não fizeram em 500 anos. Com ele, Cuba se desenvolveu incrivelmente na cultura, na saúde, na educação e nos esportes. Fidel é amado pelos cubanos. Claro que tem gente que não gosta dele, mas a maioria está de acordo e o adora. Está temeroso com a saúde dele? Não tem o porquê de estar temeroso, ele já tem 88 anos, está velho. É normal, o ciclo de vida precisa terminar um dia. Mas ele ainda está escrevendo, está lúcido, acabou de receber o papa Francisco, muitos chefes de Estado ainda vão a Cuba e conversam com ele. Com a abertura da economia, a provável chegada de novas tecnologia, o que muda para os fotógrafos cubanos? Vai melhorar, sem dúvida. Mas, veja, Cuba e Estados Unidos estão restabelecendo as relações diplomáticas, mas isso não significa que acabou o embargo econômico, que eu chamo de bloqueio. Aliás, um bloqueio muito feroz, que trouxe muitos prejuízos ao meu país. Se Cuba negocia qualquer produto com o Brasil, por exemplo, os EUA podem multar o Brasil em milhões de dólares. Porém, algumas coisas estão melhorando. Em relação às viagens internacionais, estão dando mais vistos aos cubanos. Além disso, os americanos estão podendo vir a Cuba legalmente agora. Antes, se o governo americano descobrisse que um americano veio a Cuba, ele poderia ser multado ou mesmo ir para a cadeia. Só agora, depois de 54 anos, estão se dando conta de que essa situação é absurda. Na ONU, sempre se vota pelo fim do bloqueio, mais de 160 países a favor e apenas dois contra: EUA e Israel. É inacreditável que apenas dois países tenham o poder de continuar impondo uma medida tão desumana a uma ilha que não oferece nenhum perigo ao mundo e a eles.

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