Cora Coralina (1889-1985), a pessoa mais famosa de Goiás - nas palavras de Carlos Drummond de Andrade na crônica que ele publicou no Jornal do Brasil em 1980 e que foi responsável por apresentar a poeta doceira para o grande público -, vai ganhar um ano só para ela. Nesta terça, quando serão festejados os 130 anos de seu nascimento, o governo de Goiás institui o Ano Cora Coralina, que começa hoje e prevê uma série de ações que devem envolver outras entidades culturais, universidades, escolas, museus e quem mais quiser participar. Saraus literários, oficinas, concursos de redação e literários, exposições e exibição de filmes são algumas dessas ações previstas pelos organizadores e que devem ser anunciadas na cerimônia de lançamento do Ano Cora Coralina, na Cidade de Goiás Velho, distante cerca de 140 km de Goiânia e que, desde 2001, é Patrimônio da Humanidade da Unesco. A cidade será despertada pela banda da Polícia Militar, que vai tocar Parabéns Para Você na frente da Casa Velha da Ponte, onde Cora viveu, que foi tema de seus escritos e que hoje abriga um museu sobre ela. Haverá, ao longo do dia, missa, bolo para todos, cerimônias oficiais, serenata e também o lançamento de um selo comemorativo dos Correios. A filha mais nova de Cora Coralina e guardiã de seus escritos - e seus inéditos -, Vicência Brêtas Tahan, de 90 anos, estará presente. Antes, ela lembra detalhes da vida da mãe e revela que têm textos inéditos. Na entrada do apartamento do bairro do Paraíso, em São Paulo, sobre a estante, vemos fotos da família de dona Vicência. No meio desses retratos coloridos de filhos e netos, há uma foto em preto e branco que destoa um pouco - uma imagem muito bonita, e bem conhecida, de Cora Coralina. Acima, alguns objetos de decoração que pertenceram à poeta goiana. Na mesinha de centro, uma das panelas de barro que ela usava para cozinhar em seu lendário fogão a lenha virou vaso para uma renda portuguesa. E, no caminho para os quartos, uma galeria com fotos da escritora - a mais antiga, tirada por volta de 1910; a mais nova, de abril de 1985, feita dois dias antes de ela morrer em decorrência de uma pneumonia. Vicência é possivelmente a fã número um de Cora Coralina, e guardiã de seus escritos. Única filha viva da poeta e doceira que estreou na literatura aos 75 anos, ficou conhecida do grande público aos 90, e cuja popularidade só aumenta com o passar dos anos, ela estava animada com a proximidade das comemorações pelos 130 anos do nascimento de sua mãe, que vai movimentar hoje, a cidade histórica de Goiás Velho, onde Cora nasceu e morreu. Antes de embarcar para lá, Vicência recebeu o Estado em sua casa, e falou com carinho sobre as lembranças que guarda da mãe, as lições aprendidas, a saudade - e mostrou a estante dos inéditos. E essa é a notícia boa para os leitores de Cora: há material (poemas, contos, cartas e discursos), ela diz, para mais cinco ou seis livros. Isso, sem contar os três que estão no prelo da Global. Dois deles - uma seleção de poemas para jovens e o infantil Lembranças de Aninha, com 12 textos já publicados - estão previstos para 2020. E um novo lote de inéditos chegou recentemente à editora, que está no processo de seleção. Cora Coralina só publicou três livros em vida - Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (1965), Meu Livro de Cordel (1976) e Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha (1983). Hoje, são encontrados 16 títulos nas livrarias, incluindo um livro de receita e 8 para crianças. "Minha mãe começou a escrever muito cedo, aos 14 anos, mas naquele tempo ninguém dava valor à escrita da mulher. E ela foi guardando, guardando. Depois, se casou e meu pai era daquela geração bem machista: não deixava ela mostrar os poemas que escrevia, e ela continuou guardando. Até que, aos 75 anos, já viúva, com os filhos criados e casados, ela voltou a se interessar por publicar e conseguiu", conta Vicência.