'Paulo Bruscky', do cineasta Walter Carvalho, foi apresentado no Cine PE: cinebiografia do inusitado artista plástico pernambucano: experimental, mas compreensível
O fotógrafo e diretor Walter Carvalho durante entrevista coletiva na 20º edição do Cine PE, em Recifer (Daniela Nader/Divulgação)
Paraibano de João Pessoa e radicado no Rio de Janeiro, o fotógrafo Walter Carvalho, aos 68 anos, se transformou em unanimidade: é, seguramente, um dos (ou o) mais respeitados e importantes fotógrafos do cinema brasileiro. Mas, nos últimos anos, ele enveredou de vez na direção — mesmo mantendo a relevância como fotógrafo. Ouvi-lo falar sobre a técnica desse ofício é um grande prazer. E, depois de várias direções, entre elas a cinebiografia de Raul Seixas ('Raul, o Início, o Fim e o Meio', 2012) e o inédito 'Filme de Cinema' (com alguns dos mais significativos cineastas do mundo), Walter chegou ao 20º Cine PE, que termina domingo (8), com o surpreendente curta-metragem 'Paulo Bruscky', sobre o inusitado artista plástico pernambucano. É comum o formato curta passar batido nos festivais, ignorado pela imprensa por causa do difícil acesso do público a eles. Mas em tempos de internet, em que se oferta de tudo, tal acesso se tornou mais fácil. Daí se dar importância a um curta como 'Paulo Bruscky'. Mas não só. O filme experimental, mas absolutamente compreensível, faz o que poderia parecer impossível: falar sobre um artista plástico sem os vícios e clichês desse gênero audiovisual. Até porque Paulo não tem telas propriamente, mas performances — na falta de melhor palavra — e ações artísticas ou multimídia. Walter diz que seu filme tenta superar um artista tão criativo e faz um mergulho igualmente radical sobre o personagem. No pequeno ateliê, sua câmera estática ora flagra Paulo sentado de frente, ora de costas — em off se ouve as perguntas do diretor; as respostas são princípios teóricos sobre a obra. A obra mesma, Walter encena com o próprio Paulo, que insiste em furar uma tela e, ao conseguir, pinta-a com as mãos e sem enxergar o que faz. Pode parecer tudo muito hermético. E não é. Pois de maneira simples escutamos o artista e vemos o cineasta exercitar com vigor e criatividade seu ofício. E o resultado é muito bom. [INTERTITULO]Longa [/INTERTITULO]O Prefeito, de Bruno Assadi, não chega a ser hermético — tudo é muito simples, aliás; porém, não de fácil assimilação; se faz necessário estar disponível para acompanhá-lo e curtir a sessão. Um homem (Nizo Netto) se elege prefeito do Rio de Janeiro e decide separá-la do restante do Brasil — cria um País. É óbvia a sátira social sobre a capital fluminense e ao Brasil — seu maior problema, por ser explícita demais. E é complexa a estrutura narrativa. Ele aproveitou a derrubada de um elevado no Rio (parte das obras de infra para as Olimpíadas) e usa as ruínas como cenário (apropriado, diga-se). O problema é confiar nesse cenário caótico durante todo o filme e, pior, usar praticamente um ator em cena (Djin Sganzerla e Gustavo Novaes aparecem em pontas) durante 70 minutos. Sim, tem boas sacadas, Nizo Netto se sai bem e se candidata ao prêmio de ator, mas a reiteração do cenário caótico e das falas críticas do prefeito em dado momento saturam — lembrando que ele se utiliza também do branco-e-preto como alternativa (até justificada), mas igualmente complexa no sentido de chegar ao espectador. *O JORNALISTA VIAJOU A CONVITE DO FESTIVAL