entrevista

Carpinejar fala sobre a importância do estímulo à leitura e outros temas

O escritor, poeta e ator Fabrício Carpinejar falou com exclusividade ao Correio Popular

Karina Fusco/ [email protected]
12/09/2023 às 09:02.
Atualizado em 12/09/2023 às 09:02
O escritor, poeta e ator Fabrício Carpinejar: “poesia é para corações fortes (Guilherme Bezerra)

O escritor, poeta e ator Fabrício Carpinejar: “poesia é para corações fortes (Guilherme Bezerra)

Os temas do cotidiano são pra lá de inspiradores para o escritor, poeta e ator gaúcho Fabrício Carpinejar, que coloca em linhas, páginas e espetáculos verdades que demonstram que conhecimento, talento e espontaneidade não precisam agradar, mas podem cair como uma luva quando compartilhados em momentos em que o leitor/espectador interprete que aquilo foi feito especialmente para ele.

A relação entre felicidade e a vida a dois, mostrando como abrir espaço dentro de relacionamentos para a individualidade, para o tempo com amigos e a família, foram temas abordados no espetáculo que ele apresentou em Campinas no domingo, pouco depois da entrevista que começou com muita seriedade, pois abordava o tema - um tanto pesado - de seu novo livro: "Manual do Luto - Todas as Dores do Mundo”, que fala de forma sensível sobre como lidar com a perda.

Com a fala pausada, um ar tranquilo e trazendo reflexões em todas as suas afirmações, Carpinejar esbanjou simpatia, trouxe verdades que envolvem a perda de alguém querido, falou dos relacionamentos amorosos e sociais e defendeu que "poesia é para corações fortes", após revelar que seu poder é sua fragilidade.

Considerado um dos mais populares poetas contemporâneos, o premiado escritor que nasceu em Caxias do Sul, RS, e hoje mora em Belo Horizonte, MG, facilmente demonstra porque é tão querido Brasil afora. Ele também defende que o estímulo à leitura precisa ser criativo e que a gargalhada é uma forma de chorar.

Como você escolheu falar sobre o luto em seus livros?

Eu comecei com "Depois é nunca", que foi uma leitura panorâmica do luto, e me aprofundei em “cartas” direcionadas ao enlutado. O luto é uma invisibilidade. Você não enxerga quem teve uma perda, acredita até que é normal. Você não quer ver a tristeza respingando em você e exclui a pessoa de um modo inconsciente para evitar ficar consolando-a. Confortar é um longo trabalho, que exige uma audição atenta, escutar a mesma história, respeitar as lágrimas e elas são sabotadas. Onde você pode chorar? Quanto tempo você aguenta alguém chorando? A pessoa começa a chorar e a gente já fala 'não fique assim', 'não faça assim', como se fosse um atentado, uma violência. Eu quis normalizar o luto. É um processo difícil e inevitável. Não é uma fase na sua vida. É por toda a vida. O enlutado se sente desajustado, louco, doente porque todos querem que ele esqueça, mas ele mudou, não é mais a mesma pessoa, não pensa e nem sente do mesmo jeito. O livro pretende fazer esse resgate do valor de um adeus para que não seja tratado como um aborrecimento ou uma mágoa. Eu enfrentei esse tema.

O que te inspirou no processo de escrita?

Eu não queria falar sobre uma perda especificamente porque eu não estaria falando do luto e sim da minha dor e toda dor é pessoal. Eu não queria falar de quem eu perdi, mas de como tratamos o luto, como ele funciona, como reagimos mal. Ele é cíclico. Quando você pensa que vai acabar, ele volta com tudo. O enlutado não tem mais uma vida linear, a vida passa a ser em ciclos. A dor será menor em alguns momentos e maior em outros, principalmente em datas comemorativas, mas não desaparece.

Tudo isso veio à tona na escrita da obra?

O que eu tenho de poder é minha fragilidade. Eu me conecto facilmente com as pessoas. Todo dom é uma solidão, mas é uma solidão que me torna mais atento ao sofrimento, ao constrangimento, a quem é posto de lado. Eu vejo que talvez seja o caminho da poesia: não falar pelos outros, mas falar ao lado dos outros. Eu não quero traduzir a dor, quero mostrar o quanto ela é significativa. A obra aborda todas as dores possíveis, que são diferentes. A dor de perder o pai ou a mãe, a dor de perder um filho, um marido, um amigo. O luto vai doer de acordo com a proximidade e com a convivência. E o que dói mais: ter sido próximo ou ter sido ausente?

Você tem essa resposta?

Ter sido próximo porque quando você foi próximo, significa que foi presente. Isso não remedia o luto. Apesar de dizerem que a gratidão resolve, mas quando você foi próximo de alguém, dói até a alegria. Se você foi ausente, vem a culpa. É um egoísmo e dói o egoísmo. Se você foi próximo e constante, a sua alegria machuca. Quando você está feliz por um breve momento dentro do luto, a sua felicidade é engolida pela saudade e você pensa 'como meu ente querido gostaria de estar aqui'. Nós cultivamos essa panaceia de que é necessário valorizar tudo o que foi vivido como se isso fosse suficiente para combater a dor. Muitas mentiras são fabricadas em torno do luto, como a de que a dor diminui com o tempo. O luto depende de pessoa para pessoa, mas eu não conheço ninguém que tenha passado por isso sem sofrer, por mais presente que tenha sido.

O que a gente aprende com o luto?

Sinceridade. É como se todos os fingimentos caíssem por terra. Você se torna verdadeiro como nunca fora antes, você não vai aonde não deseja, não fica perto de pessoas que não merecem. Existe um enxugamento das suas necessidades. É como se a gente subisse um degrau na autenticidade. Você até pode ser desagradável para alguns, mas não mente mais. Quando você aceita o luto, você não mente mais porque você já recebeu a notícia mais difícil da sua vida e não terá mais nenhum constrangimento para comunicar uma decisão difícil da sua vida. Você terá uma desenvoltura da emoção. O mundo encolhe quando você passa por um luto porque você vê o quanto estava cercado por contatos efêmeros, que não valorizavam quem você é. Você perde muita gente ao perder alguém.

Você trata com imensa sensibilidade assuntos diferentes, mas que são comuns a todos. O que te inspira no dia a dia para definir os temas dos seus livros e espetáculos?

É estar do outro lado. É um exercício constante. Por exemplo, o quanto a gente pode carregar a crença de que ceder é favorável ao relacionamento. Como o sacrifício vai combinar com algo tão bonito como o amor? Deixar de ser como era ou de fazer algo como uma jura romântica é um contrassenso. Se a outra pessoa não quer ir com você em um lugar, você deixa de ir? Isso é ceder, se anular porque você não consegue exercer a sua potência de sensibilidade. Você não pode deixar de ser quem você era. Parece que as pessoas se casam para ter um apagão da sua personalidade.

Carpinejar fala sobre a importância do estímulo à leitura, a intensidade da poesia e a escolha dos temas de seus trabalhos (Guilherme Bezerra)

Carpinejar fala sobre a importância do estímulo à leitura, a intensidade da poesia e a escolha dos temas de seus trabalhos (Guilherme Bezerra)

Qual é o caminho que você propõe?

Amizade. Não existe nada mais sensual do que a amizade e ela envolve admiração. Você não trai um confidente. Você pode trair quem você tem atração, mas dificilmente vai trair aquela pessoa com quem você divide a geografia do afeto. É muito diferente. Os casamentos são construídos na base das aparências, as pessoas não trocam mais cartas, nem segredos. A intimidade precisa ser séria porque você não a tem com todo mundo. Hoje parece que você é mais íntimo nas redes sociais do que em casa e isso é apavorante. Você volta para casa e não fala nada da sua vida para seus filhos. Eles ficam sabendo pelas redes sociais.

Isso vale para todos os tipos de relacionamentos?

Mas principalmente no relacionamento amoroso, onde a gente trata a amizade como um degrau abaixo do amor. E quando o casamento acaba ouvimos dizer ‘nos tornamos amigos’. Mas não, o casamento terminou porque vocês não conseguiram ser amigos. Amigo segura o casamento, a crise, a tempestade. O casamento acaba porque você se tornou incomunicável. Não houve amizade. Se eu consigo falar para minha esposa o que está me incomodando, aquilo deixa de me incomodar. Mas se você não consegue dizer para quem divide a vida com você, passa a ter um inimigo. Você tem que se defender, se explicar, dar satisfações. Com amigo não acontece isso. Nenhuma amizade termina pelo mau-humor. Quantos casamentos terminam por isso?

As redes sociais permitiram que mais pessoas se encantassem com a poesia, mas por outro lado ela também ficou mais superficial. O que você acha desse cenário?

A poesia é pesada, não importa onde. Quando o poema é bom, você pode ler alguns versos e aquilo decidir o seu destino. Às vezes eu não consigo terminar um livro de poesia: quando é bom, de tão pesado que é, preciso parar alguns anos para recapitular. Nós estamos confundindo poesia com digestão fácil. Poesia é para corações fortes. Não que seja complexa, a poesia mais límpida é mais simples, mais coloquial. As de Mario Quintana, por exemplo, às vezes nem parecem poesia. Isso porque a poesia é o encontro dos contrários, é a capacidade de comparar vidas e situações até aquele momento incomparáveis. Você faz com que palavras que nunca se conheceram dividam o mesmo espaço. Com a poesia você cumprimenta o invisível. A poesia é quando a linguagem mais se aproxima do invisível. É importante que as pessoas entendam que a poesia não é banalizável. Teremos poucos leitores? Sim, sempre tivemos porque é a poesia que escolhe você, não você que a escolhe. Ela faz você descobrir tudo o que você não aceita ser.

Ela também pode ser leve?

Falsamente leve. Se ela é leve é porque ela ainda não chegou ao fundo. A psicologia e a psiquiatria têm poetas dos seus fundadores. Freud se banhou nos poetas e Lacan também porque a poesia é organização emocional. É ordenar o pensamento.

Quais iniciativas podem fazer o brasileiro se aproximar mais dos livros e da cultura?

Os contadores de histórias são essenciais. Você fica querendo ler depois que ouviu uma boa história. A gente pensa na biblioteca e não pensa no leitor. Você só vai frequentar uma biblioteca quando for despertado por um leitor. O livro ainda é tratado como se fosse uma atividade solitária. O que devemos fazer é contar a história do livro que estamos lendo e explicar o que mais gostamos. Para isso não é preciso ser um crítico literário. É criar a curiosidade. Precisamos ler e partilhar. E temos o hábito de endeusar a posse do livro, sem emprestá-lo ou passá-lo adiante. O importante é o que você absorveu do livro. Não é só a existência física e ritualística. Eu incentivo meus filhos a lerem falando que li algo que me transtornou porque tem uma história sensacional, com tais personagens. Isso é o que verdadeiramente os incentiva e não dizer "você tem que ler!".

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