Livros, filmes e até série de televisão exploram o assunto e fazem sucesso

Cena do seriado 'Os Bórgias' (Divulgação)
Crise política, lavagem de dinheiro, pornografia. As intrigas em voga no Vaticano, que algumas correntes relacionam diretamente com a polêmica renúncia ao pontificado do alemão Joseph Ratzinger, estão longe de ser novidades. Elas, há séculos, são motivos de discussão por muitos que tentam — e sonham — em, um dia, conhecer realmente o que ronda nos bastidores da sede da Igreja Católica. A obra 'Sua Santidade - As Cartas Secretas de Bento XVI' (LeYa Brasil, 320 páginas, R$ 39,90), lançada em maio do ano passado, antes do então papa anunciar que deixaria o posto, e escrita pelo italiano Gianluigi Nuzzi (autor do best-seller 'Vaticano S/A', sobre as finanças da Santa Sé), traz uma série de cartas confidenciais de Bento XVI, que fundamenta denúncias graves sobre os assuntos citados. Um verdadeiro escândalo.
O que acontece no Vaticano é tão sigiloso que, na primeira reunião preparatória para a escolha do novo papa, realizada no começo da semana, os cardeais fizeram pressão para ter acesso ao dossiê secreto entregue a Bento XVI pouco antes da renúncia. Todo o colégio cardinalício vai tentar identificar os potenciais candidatos a papa, mas só 115 eleitores poderão votar. Ou seja, é tanta coisa envolvida, com todo o planeta interessado em saber o que vai acontecer, que foi disparada uma corrida editorial pelas obras que envolvem a figura considerada pelos clérigos como o “papa mais lido da história”.
A Editora Universo dos Livros, por exemplo, acaba de lançar uma biografia sobre o legado e a renúncia de Bento XVI. O correspondente alemão no Vaticano, Andreas Englisch, quis revelar em 'O Homem que não Queria Ser Papa' (Universo dos Livros, 560 págs., R$ 49,90) as peculiaridades do pontificado, os encontros secretos, os casos de mortes e muitos conflitos internos, mesclados a debates de cunho teológico, um universo que o autor considera digno de romance de suspense.
Tanto que não é só Englisch que considera a residência oficial do papa digna de ótimas histórias. O escritor Dan Brown e Hollywood não só veem o Vaticano como uma riquíssima fonte para elaboradas tramas como fizeram muito sucesso e dinheiro com a obra 'Anjos e Demônios', que arrecadou, em 2009, US$ 485 milhões nos cinemas de todo o mundo. Aliás, o enredo do longa estrelado por Tom Hanks desenrola-se durante o conclave, diante de uma Roma que acompanha de perto a eleição papal e os misteriosos assassinatos de cardeais.
Mas o melhor exemplo nessa mistura de realidade do Vaticano com ficção, nessa altura do campeonato, é o filme 'Habemus Papam'. A produção italiana narra — pois é — a renúncia de um papa fictício com problemas existenciais. “Não parecia crível, mas era a história que queria contar”, afirmou o diretor Nanni Moretti recentemente, ao ser questionado sobre as coincidências, obviamente, diante do fato do momento. Assumidamente ateu desde a juventude, o diretor não expõe somente os bastidores e contradições da religião — os percalços da psicanálise também são objeto de sua ácida ironia —, alegando que queria que o filme fosse um retrato de um Vaticano “mais humano” e, ao mesmo tempo, uma crítica à Igreja católica. “Queria contar a História, com H maiúsculo, de um homem que não quer dar prioridade a seu papel, apesar de ser sagrado e poderoso”, declarou Moretti em uma entrevista ao jornal La Repubblica.
Profecias
O thriller policial 'Crimes no Mosteiro' (Órion Editora, 308 páginas, R$ 29,90), do blogueiro brasileiro e semioticista Tagil Oliveira Ramos, mergulha nos bastidores da política do Vaticano e prevê um sucessor negro e progressista à vaga deixada pelo papa emérito. O autor baseou-se em duas profecias para escrever a obra. A primeira é a 'Profecia dos Papas', de São Malaquias, que diz que a instituição teria 112 papas — ou seja, o próximo escolhido será o último. E, a segunda, feita por Nostradamus, afirma que, no entendimento de Ramos, o papa será negro. “Tudo aquilo que é muito proibido vira objeto de desejo. A sociedade funciona assim. Justamente porque a Igreja esconde, é justamente porque queremos saber. Sem contar que existe um lado místico nessa história, até porque a Igreja Católica, falando da instituição, é a primeira multinacional da história, com presidente, gerentes, e tudo. Ou seja, envolve poder, e tudo que envolve poder, envolve muita coisa underground.”
E se temos o Vaticano no cinema e na literatura, a TV não tinha como ficar de fora. Indicado ao Globo de Ouro, o seriado 'Os Bórgias', que está na terceira temporada, baseia-se em fatos históricos reais para reconstruir um universo de intrigas, sexo e disputa por poder — como dito, as polêmicas não são exclusividades na Igreja do nosso tempo. Concebida pelo cineasta Neil Jordan, diretor de 'Michael Collins - O Preço da Liberdade', a trama se passa na Itália do século 15, quando a família Bórgia, uma dinastia italiana de origem espanhola que geralmente é lembrada pelo governo corrupto e pela acusação de ter cometido vários crimes, incluindo adultério, simonia, roubo, estupro, corrupção, incesto e assassinato, tornou-se proeminente durante o Renascimento com a chegada do patriarca ao papado com o título de Alexandre VI. Como disse Nanni Moretti, “às vezes, o cinema pode antecipar a realidade”. Talvez outros indústrias culturais também.