CADERNO C

A rica cultura da periferia

O Festival Criativa, que acontece no feriado (21) no espaço externo da histórica Fazenda Roseira, celebra a musicalidade, a criatividade e a inovação das comunidades locais

Cibele Vieira/[email protected]
19/04/2026 às 15:09.
Atualizado em 19/04/2026 às 15:09
Os caribenhos Ras Jammy e Jah Bami fazem a apresentação internacional do evento, enquanto o coletivo local “Ruffneck Sound System” amplia o som para o público (Festival CriaAtiva)

Os caribenhos Ras Jammy e Jah Bami fazem a apresentação internacional do evento, enquanto o coletivo local “Ruffneck Sound System” amplia o som para o público (Festival CriaAtiva)

O Dia Municipal da Criatividade, criado em 2022, é celebrado em 21 de abril, data que será comemorada com um grande evento realizado gratuitamente, das 10h às 21h, na Casa de Cultura Fazenda Roseira. A programação musical reforça o diálogo entre a periferia local e a circulação internacional, marcado pela inovação sonora e a ancestralidade, ressalta Celso Niger, da produtora NaViela. A organização do evento espera receber entre 1500 a 2 mil pessoas e, como a casa sede da fazenda passa por obras de restauração, todas as atividades serão realizadas na parte externa. 

“Promover a cultura da quebrada é essencial, é mostrar para todos que nossa voz importa. Quando valorizamos os artistas, os manos, as minas e as monas da perifa, é como um grito de resistência contra a injustiça. Precisamos de mais oportunidades, mais respeito pelas tradições, porque a cultura periférica é nossa força. É hora de nos unirmos, fazer parcerias e mostrar que a quebrada tem muito talento para oferecer ao mundo. É isso, fortalecer a base, porque a cultura periférica é nosso trabalho e nossa identidade”, declara Niger. 

A programação musical é um dos destaques do Festival Criativa, com a presença do coletivo campineiro Ruffneck Sound System, o multiartista ManoELtu Marreta, o coletivo internacional Suns of Dub, e o artista campineiro e pesquisador da música preta DJ Mandra. Além da programação musical, ao longo do dia, o público poderá acompanhar outras atividades culturais – como a oficina de Jongo -, e palestras sobre temas como bem-estar, tecnologia, sustentabilidade, gastronomia e os novos caminhos da economia criativa. 

Esta é a quarta edição do Festival Criativa realizado em Campinas e foi planejado para ser um espaço de encontro, troca e visibilidade para iniciativas que mostram a força inventiva dos territórios periféricos, explica o produtor cultural. O evento celebra a criatividade e a inovação das periferias com uma programação articulada pelo movimento Campinas Criativa. Niger reafirma “a importância de reconhecer as periferias como territórios de produção de conhecimento, inovação, cultura e soluções concretas, valorizando saberes e práticas que muitas vezes não ocupam o centro das narrativas sobre criatividade, mas que transformam realidades todos os dias”. 

PROJETO INTERNACIONAL 

Uma das atrações culturais bastante aguardada é o coletivo de dub e reggae, “Suns of Dub”, que tem plataforma de performance ao vivo enraizado na cultura sound system caribenha. Fundado por volta de 2010, o projeto foi criado para explorar as origens do dub (gênero derivado do reggae), ao mesmo tempo em que amplia sua linguagem por meio de instrumentação ao vivo, produção contemporânea e colaboração global. Sua atuação se dá principalmente na Jamaica, em Trinidad e Tobago, na Europa e em outros territórios. 

Liderado por Ras Jammy, selector, produtor e curador cultural nascido em Trinidad, o “Suns of Dub” funciona como um ecossistema flexível (selo, coletivo, circulação) e a formação principal das apresentações tem incluído Ras Jammy ao lado de uma comunidade rotativa de músicos, DJs e artistas, com performances ao vivo que incorporam seleção em vinil, live dubbing, steel pan, percussão, melódica e a energia característica dos sound systems. 

COLETIVO LOCAL 

Fundado em 2017 em Campinas pelos DJs e pesquisadores Flávio Rude e Raquel Ruff - composto também pela DJ Clandestina e a cantora/singjay Sammy Bee - o “Ruffneck Sound System” traduz a cultura pioneira dos sistemas de som, apresentando uma seleção de sua pesquisa da música jamaicana em um passeio por todos os períodos e ritmos do reggae, além de outros gêneros da música Negra como o rap, soul e rnb. 

O coletivo atua principalmente na região de Campinas e capital, com projetos em parceria com movimentos sociais e espaços culturais da periferia. Eles tocam, produzem e amplificam suas produções através de um sistema de som próprio: uma parede de caixas que pode passar de 14 mil watts de potência. Além do uso de vinil e toca-discos, o núcleo incorpora as novas tecnologias como controladoras e mesas digitais para apresentar produções próprias, versões exclusivas, live mix e lançamentos que recebem de artistas e produtores (as) musicais. 

O trabalho do DJ Mandra, artista campineiro e pesquisador da música preta, será mostrado com sets que transitam por funk, dancehall, jungle e reggae, conectando pista, identidade e experiência sonora. 

NA TRILHA DOS TAMBORES 

Outra participação bastante aguardada no festival é a do multiartista, compositor, brincante, documentarista das manifestações populares, rabequeiro e artivista de rua ManoELtu Marreta. Na trilha dos tambores e torés ancestrais, o artista mistura sonoridades rurais com elementos afro-latino-americanos contemporâneos, o que tem feito o sucesso de seu primeiro disco “ALBooM!”, com letras recheadas de crítica social, sob o tema “o mundo é ancestral”, reafirmando a pluralidade da música que chama de ‘améfrikana’. 

Como músico itinerante, ManoELtu viajou por vários estados brasileiros e países latino-vizinhos, sempre de forma autônoma e levando suas canções de forma acessível, por meio de parcerias com grupos e artistas locais. Nessa caminhada desenvolveu seu trabalho musical, uma colagem de ritmos, inspirações e sons, na busca da síntese entre o popular e o moderno, misturando elementos do bumba-meu-boi ao rock, da salsa ao forró, entre outros. “Desorganizando para organizar”, diz. 

OFICINA DE JONGO 

A programação também inclui a Oficina de Jongo com a Comunidade Jongo Dito Ribeiro, que propõe vivências de toque, canto e dança a partir dessa tradição afrobrasileira, valorizando saberes de matriz africana, memória, resistência e fortalecimento coletivo. Com atuação ativa desde 2002, a comunidade realiza a atividade que integra arte, história e ancestralidade em uma experiência viva e participativa.

PROGRAME-SE 

Festival Criativa 

Quando: terça, dia 21, das 10h às 21h 

Onde: Casa de Cultura Fazenda Roseira –R. Domingos Haddad, 1 - Residencial Parque da Fazenda, em Campinas 

Entrada gratuita 

Informações: Instagram @na.viela

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