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A hora e a vez da literatura compartilhada

Clubes de livros são apostas certas para quem busca incentivo para ler mais

Aline Guevara
15/07/2022 às 20:24.
Atualizado em 16/07/2022 às 09:09
Alessandra de Moura participa de diversos clubes de leitura e até comanda um voltado aos romances: possibilidades de ricas discussões literárias e de fazer novas amizades (Kamá Ribeiro)

Alessandra de Moura participa de diversos clubes de leitura e até comanda um voltado aos romances: possibilidades de ricas discussões literárias e de fazer novas amizades (Kamá Ribeiro)

A leitura é uma atividade muito íntima e individual, mas ela não precisa ser solitária. É o que nos provam os clubes de leitura que em pleno 2022 seguem mais fortes do que nunca graças aos diversos tipos de encontros possibilitados pela internet, aplicativos e redes sociais. "Uma das coisas que eu mais ouço nos clubes em que participo é como as pessoas se sentiam sozinhas porque não conheciam ninguém que também gostava de ler, ou porque não têm livraria nas cidades delas e o quanto o clube as acolheu", explica a terapeuta ocupacional e influenciadora digital de Campinas, Alessandra de Moura, de 29 anos.

Alessandra faz parte de vários projetos, alguns somente como leitora e outros como organizadora das leituras e dos debates. Em seu próprio clube literário destinado a romances, o "No Calor do Amor", ela mantém leituras mensais desde 2020. O projeto partiu do seu "Bookstagram", o perfil literário no Instagram da terapeuta, o "Talvez 1 Livro", onde reúne mais de 10 mil seguidores. A pandemia e a pressão do isolamento foram alguns dos fatores motivadores para a criação do grupo virtual. Só neste clube, que mantém ao lado de outras duas colegas, participam mais de 200 pessoas. "A gente debate sobre muita coisa, como luto, amor-próprio e violência. Cada livro traz temas diferentes e alguns são pesados, mas tornam-se mais leves quando podemos trazer isso para o grupo. Às vezes, algo que pode ter me feito sofrer, quando eu compartilho também sou acolhida ou posso acolher o outro", reflete ela, que acredita que algumas das melhores coisas que o clube lhe traz são perspectivas diferentes e as várias amizades.

Para a professora do curso de especialização em Formação de Escritores no Instituto Superior de Educação Vera Cruz, Maria José Nóbrega, a leitura é uma atividade que se dá na relação de troca. "Os clubes permitem justamente esse diálogo, essa vontade de compartilhar o que você leu", aponta a educadora. Outro papel importante dos grupos, segundo ela, é o de curadoria: "Nós queremos ler aquilo que um amigo indica, e o clube de leitura ainda proporciona a experiência de descobrir algo que você jamais escolheria e leria sozinho, saindo da sua bolha de preferências para ampliar seus horizontes de expectativas".

Essas vantagens ficam evidentes nos clubes literários em que Alessandra participa. "Algumas pessoas do meu clube de romance entraram no clube de suspense da minha amiga, outras vão nos eventos falar de títulos de gêneros diversificados e trocamos dicas panfletando os nossos favoritos", declara a terapeuta, que já organizou debates do clássico distópico "1984", de George Orwell, ao romance "Persuasão" de Jane Austen. A terapeuta elenca alguns de seus títulos favoritos: "A guerra que salvou a minha vida", de Kimberly Brubaker Bradley, e a série Harry Potter, responsável pelo nome de sua cachorrinha Mione.

Presencial X Virtual

A maior parte dos clubes de leitura de Alessandra são virtuais e os formatos variam. Ela participa de encontros de vídeo, mas também organiza debates por texto no WhatsApp com o "No Calor do Amor". "Em nosso clube, tínhamos muitas pessoas tímidas que não se sentiam à vontade falando, mesmo em uma câmera para um encontro em vídeo. Através das discussões por texto no WhatsApp, os integrantes ficam mais relaxados para conversar". A escolha pelo formato veio através de pesquisa entre os próprios participantes. Além de conseguir agregar muito mais pessoas, os clubes virtuais permitem a troca entre leitores de vários locais e culturas diferentes. Mas Alessandra ainda faz eventos presenciais em livrarias da cidade e também gosta do formato. "Podemos ficar mais focados na discussão, sem distrações no celular ou no computador, e também fazemos amizades muito fortes quando estamos todos juntos fisicamente", revela a terapeuta, que garante que também tem grandes amizades feitas no ambiente virtual.

Incentivo à leitura 

Outro aspecto fundamental do clube de leitura é justamente o incentivo para que a pessoa leia mais. Pode ser alguém que está começando ou então que está um pouco "enferrujado". "Se eu tenho um grupo e combinamos de ler juntos, isso é um estímulo para ler, o que talvez eu não faria se não fosse pelo compromisso", afirma Maria José. De acordo com ela, os clubes de assinaturas de livros, nos quais a mensalidade dá direito que o assinante receba um título - geralmente surpresa - que passou por uma curadoria especializada, podem também ser uma boa opção para quem busca esse estímulo. 

A professora sugere ainda que para as crianças, - sim, há assinaturas específicas para os pequenos - essa iniciativa pode ser ainda mais acertada para criar futuros leitores. Alguns deles têm a curadoria de educadores infantis, como o "A Taba" e até de renomados escritores, como Ana Maria Machado, que participa do clube "Quindim". "Muitas vezes as crianças só leem livros que estão atrelados ao ambiente escolar, às tarefas, coisas que não necessariamente são prazerosas. Os livros que chegam com o clube saem deste lugar do 'ter que fazer' para um espaço social de entretenimento, algo que ele pode dividir com a família e se divertir", observa Maria José. 

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