a viabilidade de espetáculos desCom espetáculos cada vez mais sofisticados, formação técnica de alto nível e salas lotadas, grupos e escolas de Campinas transformam o teatro musical em uma potência cultural da região

Bravo Cia Teatro Musical já reuniu mais de 20 mil espectadores com montagens como “A Família Addams” e “Ópera do Malandro”, enquanto o Estúdio Broadway Campinas também investe em produções do gênero (Thais Mazzoco)
Campinas descobriu que não precisa atravessar a Marginal Tietê para ouvir grandes vozes, ver coreografias elaboradas e se emocionar com histórias cantadas. O brilho da Broadway encontrou seu espaço nos palcos da cidade. Nos últimos anos, grupos e escolas de teatro musical campineiros passaram por um intenso processo de profissionalização, elevando o nível artístico das montagens, formando novos talentos e criando um público cada vez mais fiel e exigente.
O fenômeno acompanha o crescimento do teatro musical no Brasil, especialmente no eixo Rio-São Paulo, mas ganha em Campinas características próprias: artistas multifacetados, escolas especializadas, produções independentes ambiciosas e uma cena que sobrevive muito mais por paixão e resistência do que por apoio institucional e governamental.
Entre os principais nomes desse movimento estão a Cia Bravo Teatro Musical (@bravo. teatromusical) e o Estúdio Broadway Campinas (@estudiobroadwaydecampinas), duas escolas que ajudaram a consolidar a linguagem na cidade e que hoje formam artistas, movimentam plateias e produzem espetáculos cada vez maiores e mais complexos.
Criada em 2015, a Bravo Cia Teatro Musical já levou mais de 20 mil pessoas aos teatros com montagens como “Godspell”, “A Família Addams”, “O Mágico de Oz”, “Witches”, inspirado em “Wicked” e o mais recente “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque, que lotou teatros em Campinas e Jundiaí, em 2025 e no começo de 2026.
Para a diretora Juliana Hilal, o sucesso do gênero passa pela capacidade do musical de ampliar emoções. “Quando a emoção é tão intensa numa cena, ela não cabe na palavra falada. O ator transborda em forma de música. Quando isso fica ainda mais intenso, ele coloca o corpo inteiro a serviço daquela emoção, através da dança, da coreografia. Quando isso é feito com excelência e na medida certa, fica muito bonito”, define.
Segundo ela, Campinas acompanha uma tendência nacional. “A cena do teatro musical na cidade acompanha, numa escala menor, a evolução do teatro musical no Brasil. Nos últimos anos surgiram novas produtoras, grandes montagens e os teatros passaram a lotar. O público brasileiro tomou gosto pelo teatro musical”, afirma.
A proximidade com São Paulo também impulsionou o mercado regional. “Os artistas daqui passaram a enxergar no teatro musical uma oportunidade de carreira”, diz Juliana.
Essa profissionalização aparece diretamente na formação dos alunos. Hoje, cantar, dançar e interpretar deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico. “Teatro musical é cantar, dançar e interpretar tudo ao mesmo tempo. Não é fácil. Por isso buscamos excelência tanto para quem procura realização pessoal quanto para quem quer se profissionalizar”, explica a diretora da Bravo, que criou também um curso específico de formação técnica em teatro musical.
No Estúdio Broadway Campinas, o caminho é semelhante. Há dez anos na cidade, a escola vê crescer o interesse pela linguagem e o nível de exigência dos próprios estudantes. “O teatro musical está tão popular que hoje até escolas de dança da cidade estão montando espetáculos musicais”, observa a diretora artística Maria Paula Ortolan. Ela conta que os alunos passam o ano inteiro em preparação técnica. “Eles têm aulas de canto, dança e interpretação e, no segundo semestre, desenvolvemos um espetáculo”, explica. A escola já começa a colher frutos profissionais desse processo. “Temos alunos que se profissionalizam, fazem audições em São Paulo e alguns já estão em cartaz em produções profissionais”, afirma.
Mas o avanço artístico vem acompanhado de desafios igualmente grandes. O teatro musical é uma das linguagens mais caras das artes cênicas. Figurinos, cenários, licenciamento, músicos, técnicos de som, iluminação, microfones e grandes elencos elevam os custos de produção.
“Trabalhar com teatro musical é um enorme desafio. São equipes grandes, muito qualificadas, e uma estrutura técnica complexa. A gente faz movido por paixão e correndo uma boa dose de risco”, resume Juliana Hilal.
Maria Paula destaca outro ponto crítico: a formação contínua dos artistas. “O grande desafio é fazer os alunos entenderem o quanto é importante estudar e se preparar. O artista de teatro musical precisa ser bom em canto, interpretação e dança”, diz. “Sem contar que é uma formação cara. Por isso é importante o apoio do poder público. O material humano nós temos.”
TALENTO DA CASA
Quem acompanha de perto a evolução da cena campineira percebe claramente a transformação. Ator, diretor, dublador e psicanalista, Caio Dias acredita que o teatro musical local nasceu da tradição dos espetáculos de academias de dança e foi se sofisticando ao longo do tempo. Ele mesmo acompanha a cena há 14 anos e já fez mais de uma dezena de personagens em musicais da cidade. “Percebi que, aos poucos, o público foi aprimorando o paladar para prestigiar histórias com texto, canções, transições de cena, cenários e figurinos mais elaborados”, analisa.
Segundo ele, essa evolução exigiu uma nova cadeia de profissionais especializados. “As montagens começaram a abrigar roteiristas, versionistas, preparadores vocais, diretores musicais e diretores cênicos. Os alunos passaram a entrar em contato com a multidisciplinaridade artística.” O resultado aparece em cena. “Ao longo dos últimos 15 anos temos visto mais bailarinos cantando, atores dançando e cantores atuando”, afirma.
Para ele, a cidade já possui artistas e companhias capazes de ocupar espaço nacional. O que ainda falta é estrutura para consolidar o setor. “Campinas tem excelentes artistas prontos para alçar voos. Mas ainda vejo o município tímido no suporte às produções locais”, afirma.
Ele faz questão de destacar o papel das mulheres que lideram escolas e companhias na cidade. “Se não fosse a bravura e a resiliência dessas diretoras e donas de escolas, a formação técnica e a viabilidade de espetáculos desse gênero em Campinas seriam praticamente inexistentes.” Enquanto o apoio estrutural ainda caminha lentamente, o público parece já ter tomado sua decisão. Em Campinas, os musicais deixaram de ser apenas apresentações escolares para se tornar um movimento cultural consolidado, com plateias cheias, artistas preparados e sonhos afinados no mesmo tom.
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