Publicado 24 de Novembro de 2021 - 9h58

Por Karina Fusco/ Caderno C

Keyla Ferrari apresenta textos de Cora Coralina, Clarice Lispector e Cecília Meireles em Libras

Mauro Machado

Keyla Ferrari apresenta textos de Cora Coralina, Clarice Lispector e Cecília Meireles em Libras

Que tal unir a Língua Brasileira de Sinais (Libras) com literatura? Com poesia? Com dança? Foi isso que fez Keyla Ferrari, de 46 anos, de Campinas. Ela, que atua como professora de dança inclusiva há mais de 20 anos e também como docente das disciplinas de Libras e de Educação Especial em três faculdades, aproveitou a experiência de ministrar aulas de forma remota para elaborar esse projeto que começou online, já está se desdobrando e ganhando novas dimensões.

Ela conta que foi nas aulas de Libras que aconteceram por videochamada durante a pandemia, que ela percebeu que familiares dos estudantes acompanhavam suas aulas e também se interessavam em aprender a língua oficial da comunidade surda brasileira, estabelecida por lei em 2002. Eram pais, namorados e até avós que apareciam ao lado dos alunos, quando eles abriam as câmeras.

Somou-se a isso o fato de que há muitos mitos em relação à Libras. Keyla cita que muitas pessoas ainda acham que a língua dos surdos é universal, o que não é verdade, pois cada país tem a sua língua de sinais, e que ela é limitada, outra falácia, já que ela permite falar de qualquer assunto, inclusive discutir ciência, inovação e política. Então, a professora, que é uma defensora da inclusão, começou a pensar em possibilidades para quebrar esses tabus.

Ao pesquisar tudo o que havia na internet para a comunidade surda e para pessoas que querem aprender Libras, ela se deparou com inúmeros materiais de qualidade, mas sentiu falta de poesia, de música e das artes em geral. Foi aí que ela idealizou um projeto em que elencou três textos de Cora Coralina, Clarice Lispector e Cecília Meireles para apresentá-los em Libras. "Eu Quis contar a vida dessas escritoras e trazer a poética delas para o universo dos surdos", justifica.

Para obter todo o conteúdo do projeto de forma fiel aos originais, ela contou com a ajuda de duas intérpretes de Libras, uma vez que, ao trabalhar com textos abstratos, se faz necessário adaptar o contexto para os surdos. Um texto de Clarice Lispector se fundiu à uma apresentação de dança. De Cecilia Meireles e Cora Coralina, ela uniu os textos em Libras com expressão corporal. O sucesso foi garantido entre seus alunos de Pedagogia e a todos que viram os vídeos gravados e disponibilizados em um canal do YouTube.

Multiplicação de projetos

Doutora em atividade física, adaptação e saúde, Keyla Ferrari é uma professora que sempre busca oferecer algo a mais para seus alunos. Por outro lado, ela também é uma dançarina e artista que batalha incansavelmente pela inclusão. Facilmente, essas duas vertentes se misturam e ela encanta o mundo afora com suas criações. Keyla, inclusive, foi reconhecida pelo seu trabalho de promoção da inclusão através da dança na Grécia e lá foi nomeada presidente regional do Conselho Internacional da Dança (CID) da Unesco, a agência para educação e cultura da Organização das Nações Unidas.

Depois dos textos das três grandes autoras brasileiras, a artista elaborou um espetáculo em que uniu a poesia de Federico García Lorca com movimentos da dança flamenca. E não parou mais. Seu novo projeto é voltado para o público infantil e engloba contar a história de compositores brasileiros e suas músicas, entrelaçando Libras com sapateado ou com dança clássica. Chico Buarque e Toquinho são os primeiros nomes a serem trabalhados. "No palco estarei eu, duas intérpretes de Libras, um mímico e o fotógrafo. O espetáculo será gravado para ser disponibilizado online, mas também pretendo fazer apresentações presencialmente em escolas, teatros e instituições", revela. Para isso, ela está tentando viabilizar o projeto pelo Programa de Ação Cultural (Proac).

A professora ressalta que sua intenção é que o ouvinte se apaixone pela Libras para que a gente tenha uma sociedade bilingue e também que os surdos tenham mais conteúdo à disposição, permitindo que eles se interessem por diferentes culturas. "Já existe a literatura surda. Não quero tomar esse lugar. A Libras é deles, mas temos o dever de aprender para que tenhamos uma sociedade mais justa. Quero passar a mensagem de inclusão, de aprendizado de outra língua e de uma sociedade empática", completa.

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Karina Fusco/ Caderno C