Publicado 17 de Novembro de 2021 - 9h44

Por Cibele Vieira / Caderno C

Escrevendo poemas desde os 12 anos de idade, inicialmente musicando pop rock e na adolescência se tornando assíduo do rap, LVTZ diz que não considerava seus escritos poesia, mas gostava de poemas em forma de música

Diogo Zacarias

Escrevendo poemas desde os 12 anos de idade, inicialmente musicando pop rock e na adolescência se tornando assíduo do rap, LVTZ diz que não considerava seus escritos poesia, mas gostava de poemas em forma de música

Quem faz um poema abre uma janela, respira! Foi fazendo seus poemas musicais que LVTZ (redução de Levantesz), um jovem poeta do rap campineiro, saiu da depressão e lançou no dia 31 de outubro seu o EP, chamado O Disco Que Escrevi Da Janela. A história da solidão que viveu por um período recente foi um aprendizado, conta. "Eu estava sem rumo, triste e tive que amadurecer fazendo da depressão um processo de encontro comigo mesmo. Pela janela do meu pequeno apartamento eu sentia a vida que vinha de fora, mas estava imerso em mim, para dentro da janela. Então eu fazia café e escrevia a minha angústia, transformando esse processo de autoconhecimento em música", lembra.

O resultado, definido por ele, foi uma coletânea consistente, que envolve uma parada triste, mas também sexy e bonita, com uma batida que tem um pé no rap com uma pegada puxada para música eletrônica em algumas faixas. "Conseguimos transformar um grito de socorro em algo bonito, desde a capa até as músicas, com uma produção bem cuidadosa", descreve. Ele recomenda ouvir o disco na sequência, "porque ele é bem conceitual; eu procurei construir uma história conectada entre as faixas, as músicas têm transição, interlúdio, poema, então ouvindo na sequência a pessoa vai entender o que se passou", explica.

Para dar a batida certa ele contou com arranjos de Deekapz em nove das onze faixas. Formado por Paulo Vitor e Matheus, Deekapz é uma dupla de produtores de Campinas que trabalha com produções e remixes criativos misturando os elementos do rap, da house, da percussão brasileira com a música eletrônica, explorando batidas globais de uma maneira gostosa de ouvir. Para LVTZ é importante falar desse processo de uma maneira séria, mas também artística, porque encontra ressonância em quem ouve. "Principalmente agora que estamos saindo da pandemia, quando muitas pessoas ficaram solitárias e passaram pelos mesmos medos que eu."

Logo na primeira faixa do disco, o refrão da música Fumê dá seu recado: "Eu quero te dar o mundo meu bem, mas deixa eu me cuidar. E eu preciso de mim também, mas deixa eu me curar". Minha reflexão, salienta, é para as pessoas que estão no mesmo caos que eu passei, vendo o mundo da janela, entendam que até nos piores momentos a gente pode evoluir, fazer uma reflexão positiva, pois eu tive que viver um pesadelo para transformar a solidão no melhor trabalho da minha vida até agora.

Carreira em construção

Escrevendo poemas desde os 12 anos de idade, inicialmente musicando pop rock e na adolescência se tornando assíduo do rap, LVTZ diz que não considerava seus escritos poesia, mas gostava de poemas em forma de música. Emicida é sua principal referência no estilo, embora admire vários outros rappers. E embora circule por diferentes estilos musicais, hoje se considera completamente imerso na cultura do Rap.

Com 27 anos de idade e dez dedicados à música, este é o seu terceiro EP (o primeiro foi em 2012) e tem vários singles circulando pela Internet. Uma das músicas, Cédula Remix (a última faixa do álbum) teve a participação do DaLua - artista de Campinas que mora em São Paulo - está disponível na Internet e chegou a alcançar 131 mil visualizações.

Morador de Hortolândia, na divisa com Campinas, Bruno Levanteze Volochyno usa o nome artístico LVTZ e já atuou como fotógrafo do grupo Zero19 (que já se desfez) e depois de ser incentivado a investir em suas músicas, começou a cantar. Fez vários shows em São Paulo, Rio, Campinas, Santos e outras cidades. Por um bom tempo participou da abertura de shows de grupos de maior destaque e ganhou público, participando de vários eventos privados junto com outros grupos de rap.

Seu último show presencial em Campinas aconteceu em 2019, na Cocha Acústica do Taquaral, durante a seletiva para o Circuito Paulista de Batalha de MCs. Nesse mesmo local ele já havia participado, por quatro anos, do movimento de retomada local com as batalhas de rap e hip hop, conhecido como Batalha da Concha. Depois ele se mudou para São Paulo, onde pretendia investir em contatos musicais. Mas para sobreviver nessa primeira experiência fora de casa, foi trabalhar como cozinheiro e, nos intervalos de descanso, se refugiava na janela do apartamento onde morava, no bairro do Bom Retiro.

Desta janela escreveu a maioria das letras do novo disco. "No começo eu só extravasava escrevendo, mas depois de seis músicas novas, comecei a vislumbrar possibilidades e senti necessidade de ter uma produção, contando esse processo", diz. "Sempre quis criar coisas novas, sou até meio chato porque quero coisas diferentes, então quando comecei a pensar no álbum, aumentou a vontade de contar uma história onde muitas pessoas podem se encontrar". Até um poema de Cecília Meireles (O que vejo da minha janela?) entrou na produção, gravado pela mãe, Kely Cristina Levanteze. Mas não foi usada no disco, por conta dos direitos autorais e permanece disponível apenas na Internet, com o título Interlúdio.

O Disco que escrevi da janela já tem clipe de lançamento disponível na Internet, pelo YouTube e algumas faixas podem ser ouvidas nas plataformas de música. Nas próximas semanas, o artista lançará um minidocumentário sobre esta produção. O trabalho pode ser acompanhado pelo Instagram: @levanteze.

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Cibele Vieira / Caderno C