Publicado 05 de Novembro de 2021 - 9h12

Por Karina Fusco/ Caderno C

Ir para o Atacama sobre duas rodas era um sonho de Paulo Franchetti

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Ir para o Atacama sobre duas rodas era um sonho de Paulo Franchetti

Uma orientação médica que levaria a uma restrição de atividades foi o empurrão que o escritor Paulo Franchetti, de 67 anos, precisava para realizar o sonho de viajar sozinho de moto até o Atacama, projeto que resultou em um novo livro intitulado A Mão do Deserto.

Paulo, que é professor aposentado do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, se submeteu a uma cirurgia para corrigir um problema cardíaco em 2017. Dois anos depois, foi a mais uma consulta médica e ouviu do cardiologista que, embora estivesse totalmente recuperado, precisaria tomar dois remédios pelo resto da vida, um anticoagulante e outro para normalizar o ritmo do coração, e não poderia andar de moto nem fazer esportes, ou seja, tudo o que pudesse gerar um acidente e causar sangramento deveria ser evitado. "Ao caminhar do consultório para casa pensei "O que? Não quero saber de nada disso! Estou curado e vou para o Atacama de moto, sozinho!", conta. Então, se desvencilhou do eletrocardiograma que carregava nas mãos e logo que chegou em casa começou seu planejamento.

Ir para o Atacama sobre duas rodas era um sonho do escritor que fora adiado inúmeras vezes, ora por compromissos profissionais, pessoais e familiares, e depois pela cirurgia. Naquele retorno para casa ele pensou: "é agora ou nunca!" e, como tinha trabalhado muitos anos com haicai, decidiu que sua viagem seria voltada para a reflexão e a meditação, algo diferente de outras andanças de moto que fizera pelo Brasil.

Diálogos interiores

Quem espera um relato detalhado da viagem com muitas fotos do trajeto de 11 mil quilômetros, se surpreende com a leitura de A Mão do Deserto. Como define o próprio escritor: "não é uma publicação de motociclismo, não tem um diário". É baseado na viagem, mas vai contando passagens da vida, trazendo à tona experiências. "Numa viagem sozinho para uma região considerada a mais inóspita do mundo, que é o Deserto do Atacama, você está dependendo de você e da sua moto. A solidão, a vulnerabilidade e o transitório da vida se tornam presentes a cada minuto. É uma sensação de completa impermanência. Eu trago isso no livro. Vou dialogando com o meu passado, com meus pais, mulheres, filhos. Um diálogo silencioso", explica.

Paulo considera que sua nova obra é uma busca do encontro consigo mesmo. "É uma vontade de pedir perdão e de perdoar, mesmo que eu não saiba exatamente o quê", completa. O projeto nasceu de forma diferente. De volta a Campinas, numa conversa com Alcir Pécora, com quem já escreveu outros livros, contou sobre a experiência. Ao ver o relato na viagem no papel, Pécora sugeriu que Paulo transformasse aquele material em livro. Com o incentivo do amigo, que ele considera um editor muito perspicaz e exigente, foi aprimorando o conteúdo e encarou a escrita como um reencontro com a viagem e um registro mais amplo.

Constatações na estrada

Transformar aquela sonhada viagem em um material que poderia ser lido por outras pessoas, permitiu que Paulo pudesse trazer à tona emoções, sensações e constatações mais subjetivas e outras objetivas. "Quando você está totalmente sozinho - foram 25 dias -, você consegue ser muito mais permeável às pessoas, às histórias delas e também à beleza em geral, porque não está se distraindo com nada. As coisas te penetram mais profundamente. Essa foi uma constatação mais objetiva", afirma.

Do ponto de vista subjetivo, ele percebeu que todos nós temos histórias e nem sempre é possível entendê-las. "A gente acha que para perdoar alguma coisa ou se perdoar, tem que haver um movimento racional para entender onde foi o erro, o que aconteceu e quem errou, mas, andando de moto pelo deserto, fui percebendo que você não tem que saber o que aconteceu e o porquê. Só é preciso ter uma atitude de aceitação, de perdão e humildade perante a grandeza das coisas", diz.

Envolto em pensamentos profundos, que incluíram questões difíceis de serem trabalhadas internamente, quando voltava para casa, ele sofreu um acidente no trecho entre Santiago e Mendoza, e precisou ficar uns dias na capital chilena. Ali, enquanto se convalescia, pesquisou muito sobre o monumento A Mão do Deserto, de 12 metros, localizado à beira da Rodovia Pan-americana e inaugurado dois anos após a democratização do Chile, e sobre o escultor Mario Irarrázabal. "É uma mão esquerda que remete a algo enterrado e está para aparecer. Quando passei por lá, essa mão acenava os meus mortos: meu pai, minha mãe, uma namorada, amigos. Depois, na pesquisa, vi que o escultor frisava que era necessário compreender para perdoar, o que acho um engano. Tem coisas que a gente não consegue entender. Não precisamos entender algo por ser verdadeiro", frisa.

O autor, que já foi colunista do Correio Popular, define que, embora seja um livro que fale muito objetivamente das coisas da vida, ele tem um certo sabor especulativo e metafísico. "Já publiquei livros de contos, estudos literários e poesias, mas este foi bem diferente. Posso estar sendo injusto, mas acho que A Mão do Deserto é o livro que de fato valeu a pena ter escrito", completa.

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Karina Fusco/ Caderno C