Publicado 22 de Outubro de 2021 - 9h40

Por Delfin / Caderno C

Quarta obra lançada pela autora Lia d'Assis

Foto: Ricardo Lima | Tratamento de imagem: Laert Silva | Edição de arte: Delfin

Quarta obra lançada pela autora Lia d'Assis

Cantar a morte não é tarefa simples, ainda mais quando a vida nos cobra tanto como atualmente. Do  mesmo modo, cantar o amor em tempos desesperados desperta um sentido de urgência que nem todos podem estar dispostos a sintetizar em palavras. Somos animais urbanos e, na urbe, o próprio cantar já soa perigoso e transgressor às polícias dos sentidos, prontas para podar os sons, os versos e a poesia de nosso cotidiano. Ousar cantar quando a truculência parece imperar não é apenas um desafio, é também a libertação. Uma viagem ao íntimo que, ao mesmo tempo, ultrapassa as fronteiras do hodierno e ruma em direção ao infinito. Mesmo que seja breve, o canto permanece, ressoa de modos inesperados nas mentes e nos sentidos, imprimindo no mundo seu desejo de persistir, de ficar mais um pouco, de ser eterno pelo tempo que ele durar. Lia d’Assis ousa cantar em uma época como a nossa, e é justamente por isso que devemos prestar atenção às suas melodias. 

Falso Infinito (Patuá) é o quarto livro de Lia. Na vida dela, os livros vieram na forma de sua avó, com histórias orais sob uma laranjeira no quintal. Depois, como fuga e moradia em uma biblioteca escolar. Estes recantos são bons refúgios, por exemplo, em situações como o isolamento por uma pandemia de proporções globais. No entanto, literatura não é um confinamento, mas sim um perder-se além de quaisquer confins. A experiência da leitura deste livro é justamente a de arrebatamento, através do rebentar de amarras que, muitas vezes, insistem em nos prender em nossas próprias cabeças. De um espaço finito, como um quarto em uma pensão, Lia resolve descobrir o mundo, mesmo que por vezes este mesmo mundo pareça querer apartá-la do convívio com o amor, a vida e o prazer.

Ela resiste, insiste e desbrava trilhas como quem descobre pequenos tesouros, escondidos à nossa vista, e nos apresenta sem aviso, maravilhando-nos. O amor, sem se ater a um sentimento pudico, é um de seus

temas em Falso Infinito. Assim como é a morte. São temas que se conectam e que conversam com o leitor com uma voz suave e bela. Não há o que temer, a não ser o próprio temor. Mesmo bonita, é uma voz que tem em si um chamamento voraz, uma necessidade intrínseca de se fazer ouvir. Mas não é preciso levantar o tom: quem chama a atenção para as mensagens é o encantamento, tão necessário, mas por vezes demais negligenciado. A autora não tenta educar pela dor, mas pelo afeto. Traz o leitor para perto de si com os desejos mais íntimos, ciente de que a voz que canta também penetra fundo no sentimento de quem a lê. Sim, o cantar é necessidade, o cantar urge, e assim busca materializar o impossível, alcançar a perfeição eterna que apenas o que é efêmero poderia almejar. Lia d’Assis canta o infinito. Essa é a canção que permanece.

Serviço

Lançamento de Falso infinito

Dia: 22 de outubro

Horário: 19h

Local: Vila Bambu, rua Eleutério Rodrigues, 308 - Vila Nova

Apresentação musical: cantora Helena Porto

Escrito por:

Delfin / Caderno C