Publicado 20 de Outubro de 2021 - 9h34

Por Cibele Vieira / Caderno C

O cenário, que traduz o cárcere com gaiolas humanas, foi concebido pelo diretor em conjunto David Schumaker. O figurino criado por Rosângela Ribeiro faz alusão aos uniformes de presidiários, reforçando a imagem do encarceramento

Priscila Prade

O cenário, que traduz o cárcere com gaiolas humanas, foi concebido pelo diretor em conjunto David Schumaker. O figurino criado por Rosângela Ribeiro faz alusão aos uniformes de presidiários, reforçando a imagem do encarceramento

Já se passaram 52 anos desde que Hilda Hilst escreveu o drama teatral As Aves da Noite. Com direção de Hugo Coelho, o espetáculo ganhou nova montagem e volta aos palcos em uma turnê virtual que segue em exibição gratuita por canais do YouTube de teatros paulistas em outubro e novembro. O enredo parte da história real do padre franciscano Maximilian Kolbe em um campo de concentração nazista de Auschwitz e foi idealizado para ser apresentado presencialmente 80 anos após sua morte. Mas, diante da pandemia da covid-19, precisou ser gravado em vídeo “exatamente quando o mundo vive uma experiência de confinamento”, conta o produtor Fábio Hilst. Ele usou a linguagem cinematográfica para trazer ao público a máxima aproximação possível do teatro.

O diretor Hugo Coelho afirma que o propósito do espetáculo é trazer à cena o discurso artístico poderoso e contundente de Hilda Hilst. Ele é complementado pelo expressivo cenário, que traduz o cárcere com gaiolas humanas. "As Aves da Noite nos faz encarar toda a barbárie do poder, do domínio, do autoritarismo, das torturas nos porões das ditaduras. Auschwitz é uma ferida aberta na humanidade para a qual não há palavras que qualifique. Não podemos permitir que a violência e a barbárie sejam normatizadas ao longo da história. Por isso esta obra de extrema qualidade literária é tão importante para o momento que vivemos", declara o diretor. Maximilian Kolbe morreu em Auschwitz, em 1941, e foi canonizado em 1982, pelo Papa João Paulo II. São Maximiliano é considerado padroeiro dos jornalistas e radialistas e protetor da liberdade de expressão.

História real em versão contemporânea

O enredo parte da história real do padre franciscano Maximilian Kolbe que, em um campo de concentração nazista de Auschwitz, apresentou-se voluntariamente para ocupar o lugar de um judeu sorteado para morrer no chamado “porão da fome” em represália à fuga de um prisioneiro. Segundo o diretor Hugo Coelho, "essa é uma versão contemporânea do texto de Hilda. Não é uma peça sobre Auschwitz; partimos de Auschwitz, pois nosso lugar de fala não é o da reconstituição". Segundo ele, a proposta da concepção de Hilda Hilst coloca as personagens em estado de reflexão sobre suas próprias condições no confinamento.

No porão da fome, a autora coloca em conflito os prisioneiros condenados a morrer na cela: o Padre, o Carcereiro, o Poeta, o Estudante e o Joalheiro, que são visitados pelo Oficial da SS, pela Mulher que limpa os fornos e por Hans, o ajudante da SS. Na montagem, eles aparecem isolados, confinados em gaiolas como um signo, uma alusão à prisão onde a história se passa, mas também à nossa impossibilidade de contato físico, nesse momento de pandemia. "A primeira coisa que os governos totalitários fazem ao prender alguém é destituí-lo da dignidade humana e submetê-lo ao sofrimento extremado, e isso os nazistas fizeram com requintes inimagináveis de crueldade", comenta o diretor.

A leitura que a autora faz dos aspectos éticos e humanos passam por questionamentos sobre Deus, sobre o mal e sobre a crueldade. Nos diálogos estão o embate entre a vida e o que lhes resta, os devaneios entre o desespero e o delírio. A montagem de As Aves da Noite busca elucidar a humanidade e densidade contida no texto, mergulhando nas possibilidades inesgotáveis do drama para emergir na poética da tragédia. "O discurso racional não dá conta da realidade. A arte tem o papel de traduzir esse discurso como uma segunda realidade que passa pela razão, mas também pelo sensorial e pela emoção", reflete Hugo Coelho.

Encenação e montagem em sincronia

A encenação, que se passa em Auschwitz, traz os atores Marco Antônio Pâmio, Marat Descartes, Regina Maria Remencius, Rafael Losso, Davi Tápias, Marcos Suchara e Davi Tostes, além de participação especial de Genezio de Barros. A gravação foi feita no Teatro Arthur Azevedo (SP), em julho de 2021. O cenário, que traduz o cárcere com gaiolas humanas, foi concebido pelo diretor em conjunto David Schumaker. O figurino criado por Rosângela Ribeiro faz alusão aos uniformes de presidiários, reforçando a imagem do encarceramento.

A iluminação criada por Fran Barros dá foco a cada personagem, reforçando o clima denso e claustrofóbico do ambiente, o que ajuda a dar realismo à ideia de isolamento, inclusive sobre a impossibilidade do contato físico durante a produção da peça (na pandemia). A trilha sonora é de Ricardo Severo que a criou em sequências, a partir do material captado e da concepção das cenas. Severo, inclusive, musicou a letra de uma canção original do texto, que remete à tradição judaica, cantada pelas personagens.

Hilda Hilst (1930-2004) foi ficcionista, cronista, dramaturga e poeta, considerada uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX, com traduções em sete países. Morou desde 1965 em Campinas, onde construiu a Casa do Sol, espaço que a abrigou durante a realização de 80% de sua obra. Em cerca de 50 anos, ela escreveu mais de 40 títulos, incluindo poesia, teatro e ficção, que lhe renderam prêmios literários importantes.

As Aves da Noite

Temporada online com acesso gratuito

Duração: 75 minutos

Gênero: Drama

Classificação: 16 anos

Sexta e sábado, às 21 | Domingo, às 19h

Com tradução em Libras

Dias 22, 23 e 24 de outubro: Facebook/teatropopularjoaocaetano YouTube/TeatroJoãoCaetanoSãoPaulo

Dias 29, 30 e 31 de outubro: Facebook/teatropauloeiro

Dias 5, 6 e 7 de novembro: Facebook/teatroarthurazevedosp YouTube/TeatroArthurAzevedoSP

Escrito por:

Cibele Vieira / Caderno C