Publicado 12 de Outubro de 2021 - 9h21

Por Karina Fusco/ Caderno C

Marisa Orth:

Divulgação

Marisa Orth: "No Brasil, o consumo de álcool é estimulado; 98% das músicas sertanejas falam de bebida"

Campinas foi palco no último final de semana da estreia nacional da peça Bárbara, que tem Marisa Orth em um novo desafio profissional. É o primeiro espetáculo solo de sua carreira, inspirado no livro autobiográfico A Saideira, de Barbara Gancia. O texto aborda o alcoolismo e a briga que a jornalista e escritora trava contra a doença. Assim, a encenação traz humor, emoção e reflexão sobre um assunto espinhoso, mas necessário.

Em quase uma hora no palco, a atriz esbanja talento, como já fez em seus inúmeros outros trabalhos na televisão, no cinema, no teatro e em shows musicais. Dessa vez, Marisa demonstra que a aposta na simplicidade e na relevância de um tema emocionante a inspirou a criar uma outra história. Deu muito certo.

O Correio Popular aproveitou a visita e conversou com a atriz não apenas sobre este novo momento, mas também sobre sua vida e carreira, a importância de voltar à ativa e de estar perto do público após dois anos de pandemia.

Como você se preparou para esse espetáculo?

Estamos ensaiando há mais de dois meses e como só sou eu atuando, é um ensaio que rende bastante. Partindo do livro A Saideira, nós fomos desenvolvendo o texto. À medida em que fomos experimentando e transformando o livro da Barbara Gancia em teatro, a dramaturga Michele Ferreira acabou por rescrever o texto e ficou muito bacana. Tem o Fabricio Licursi, que é um preparador corporal que está no palco comigo. Em alguns momentos tem teatro físico, no mais é papo, texto pra decorar, tem conversa com a plateia, causos da minha vida, como o meu primeiro porre.

O livro da Barbara Gancia deu origem ao texto, mas vocês também tiveram liberdade para trazer novidades?

Sim. Tivemos essa liberdade. Inclusive, fundimos os personagens da Barbara em um só, mudamos um pouco a ordem para que fosse mais abrangente. Quando a gente lê o livro, ele nos faz lembrar que o alcoolismo e as compulsões em geral estão muito mais próximos do que a gente imagina. Então, organizamos o texto, tirando da especificidade da história dela para que a gente pudesse abranger mais pessoas.

Para você, como tem sido interpretar esse personagem que traz à tona um tema social tão importante?

Foi bem divertido no começo porque a Barbara é uma mulher divertida, eu sou divertida e o livro é um sucesso. A Barbara tem uma prosa leve, apesar do tema espinhoso, mas tem uma passagem que fica triste, pois o tema é alcoolismo, uma doença. O spoiler é: ela tem sido vitoriosa. Eu estou aprendendo que cura não há, mas tem como controlar essa dependência. Há várias experiências bem-sucedidas. Tem momentos alegres, mas outros complicados, de ir para casa e ficar triste, pensando em amigos que perdi por causa disso. É uma questão muito séria no Brasil e se fala pouco. Aqui é estimulado o consumo da bebida. Se você pegar 98% das músicas sertaneja falam de bebida. O preço da cachaça ainda é muito baixo. Vários fatores contribuem.

Qual é o ponto alto da peça?

Tem uma cena de recaída, que é algo muito triste, mas ficou muito interessante. É como se fosse uma festa, com pessoas oferecendo bebida. Como é difícil para uma pessoa que está parando vivenciar tudo isso. Ela recebe estímulo o tempo todo. Eu faço vários personagens oferecendo bebida pra ela, que é engraçado, mas começa a ficar meio pavoroso e nos faz pensar quantas vezes podemos ter oferecido bebida para alguém que estava parando, que não podia beber.

Você está completando 40 anos de carreira, como é chegar a essa marca com um novo desafio, que é fazer um solo?

É revigorante. Eu fico me perguntando onde fui me meter! Eu já deveria estar tranquila. Mas é isso que afina o meu sangue, que me deixa com pique e eu treino muito, o corpo fica flexível. Além disso, meus familiares precisam de uma trégua, ninguém me aguenta mais em casa.

Como é a retomada nesse cenário de melhora da pandemia, que tanto afetou o meio artístico?

É emoção pura. Não quero parecer clichê, mas é muito emocionante. É o que eu sei fazer, o que as pessoas esperam de mim. Tenho mais vontade ainda de me comunicar. E também os anos de carreira trazem isso: humildade e calma. Mas também estou muito triste com a perda do meu amigo, Luiz Gustavo (ator morto em 19 de setembro, vítima de câncer). Uma vez em Campinas, ele era o meu primeiro convidado, pois morava em Itatiba. A Cris, viúva dele, foi minha convidada de honra.

Por que a decisão de estrear a peça em Campinas?

Foi uma escolha da produção. Brincaram que eu estava fazendo vocês de cobaia, mas é ao contrário, estão me fazendo de cobaia. A verdade é que o tamanho do teatro nos atraiu, assim como os cuidados com os protocolos. Agora prosseguimos para São Paulo e talvez até o final do ano para Belo Horizonte. Mas saiba que Campinas é uma praça mais interessante. Parabéns, Campinas!

Escrito por:

Karina Fusco/ Caderno C