Publicado 15 de Setembro de 2021 - 8h54

Por Cibele Vieira / Caderno C

Donga, músico que gravou o primeiro samba no Brasil – Pelo Telefone

Divulgação

Donga, músico que gravou o primeiro samba no Brasil – Pelo Telefone

Dorival Caymmi já dizia que “quem não gosta do samba, bom sujeito não é”. E ele tinha razão, pois o ritmo que melhor simboliza a música nacional, se tornou objeto de estudo e sua árvore genealógica já se divide em 51 vertentes catalogadas pelo Brasil afora. É justamente essa genealogia que será o tema do 5º Congresso Nacional do Samba, que está com inscrições abertas para trabalhos como artigos acadêmicos, crônicas e performance em vídeo (teatro, dança e música), desde que afinados com a reflexão sobre a genealogia, a cartografia e a cronologia dessa manifestação cultural.

Realizado de maneira virtual no dia 2 de dezembro (Dia Nacional do Samba), das 8h às 20h, o evento terá quatro temas principais, com debates e apresentações: Samba (Batuques, Congadas e Músicas Sacras Afro-Brasileiras); Sambas Rurais; Sambas Urbanos Tradicionais; e Sambas Urbanos Contemporâneos. Cada um se subdivide em ritmos e gêneros regionais compondo a Árvore Genealógica do Samba, que se ramifica em ritmos regionais. O objetivo é reunir estudiosos, pesquisadores, mestres e praticantes dos diferentes gêneros do ritmo de matriz africana encontrado em todas as regiões do país, explica o professor Jair Martins de Miranda, um dos coordenadores do evento pela UniRio,

Para criar uma memória social do samba, envolvendo os sambistas e suas obras, os organizadores abriram também uma enquete virtual afetiva chamada Família do Samba, destinada a alimentar essa Árvore Genealógica. A enquete tem uma única pergunta: Da grande família do samba no Brasil, quais sambas, sambistas e gêneros são mais familiares a você? Para responder, qualquer interessado pode acessar o site www.even3.com.br/5cns2021/ e participar até 2 de novembro, quando a enquete será encerrada. Nesse mesmo site podem ser feitas as inscrições de trabalhos (até 20 de setembro) e dos participantes do evento (até 2 de dezembro).

Este ano o Congresso - que nas edições anteriores aceitava apenas artigos acadêmicos – abriu duas novas modalidades de inscrição: crônicas e vídeos. O professor Jair Miranda diz que a ideia é trazer para o debate pessoas que fazem samba de verdade, por isso os vídeos de 5 minutos serão aceitos. O evento quer, também, conhecer cronistas e escritores que contem histórias e tenham personagens interessantes no contexto do samba. “O samba não é localizado, ele se ramificou para todas as regiões do país e o ritmo de raiz africana recebeu influências regionais, por isso temos tantos estilos dentro do mesmo ritmo”, relata.

Revendo a história

Em 1962, quando se comemorava os 46 da gravação do primeiro samba no Brasil – Pelo Telefone, gravado por Donga em 1916 – o etnólogo especializado em temas afro-brasileiros brasileiros, Edison Carneiro, coordenou a primeira edição do Congresso Nacional do Samba. Durante o evento foi aprovada a Carta do Samba, um documento que pretendia preservar as tradições do samba e garantir a evolução do gênero no futuro, com proteção aos direitos dos autores e sua divulgação no exterior. Em 2012 professores da Unirio decidiram resgatar o evento e realizaram o segundo Congresso, comemorando o centenário de Edison Carneiro e o cinquentenário da Carta do Samba.

Depois foram realizadas mais duas edições, em 2014 e 2020. Essa última, em função da pandemia, foi realizada no formato online, como a deste ano. Jair Miranda, envolvido no evento desde a segunda edição, lembra a riqueza da família do samba no Brasil: “temos o samba rock em SP, a bossa nova no RJ, o samba reggae na BA, o samba côco no Norte, o samba lenço no PR, o carimbó – com influência indígena - no PA e AM, o cabula – que toca nos candomblés - da BA, PE e RJ, entre muitos outros ritmos. A enquete virtual ajudará a aprimorar essa árvore genealógica do samba e suas vertentes regionais”.

Campinas presente

Para a sambista e historiadora campineira Ilcéi Miriam, esse tipo de evento é de grande importância para a preservação da memória cultural e musical do samba. “Principalmente em tempos atuais, quando parece haver um esforço no sentido de querer apagar a história e memória do povo negro, precisamos usar todas as oportunidades para valorizar esse ritmo tão nosso”. Para ela, “o samba deveria ser matéria de escola, para que todos aprendam a respeitar e reverenciar os que vieram antes de nós, a nossa ancestralidade”.

O evento

A quinta edição do Congresso Nacional do Samba será virtual e aberta aos interessados em geral e organizada pelo Laboratório de Preservação e Gestão de Acervos Digitais da UNIRIO, por meio do programa de extensão Memorável Samba, e o Centro de Referência e Informação em Artes e Cultura Brasileira (CRIAR). Com transmissão pelo YouTube, o evento vai abrir inscrições no sistema de doação solidária no valor de R$ 30,00, com o objetivo de cobrir os custos mínimos da iniciativa.

Todos os trabalhos selecionados serão apresentados durante o 5º Congresso e, posteriormente, abertos para conhecimento público. A transmissão será pelo Youtube, no canal Memorável Samba. Nesse canal está disponível o vídeo com a transmissão da mesa redonda e debate com especialistas participantes do 4º Congresso, realizado em 2020.

Escrito por:

Cibele Vieira / Caderno C