Publicado 07 de Setembro de 2021 - 10h37

Por Delfin

A cantora Fabianna Miranda inicia crianças musicalmente em um dos vídeos do Sinfônica Abraça Campinas

Sinfônica Abraça Campinas / Divulgação

A cantora Fabianna Miranda inicia crianças musicalmente em um dos vídeos do Sinfônica Abraça Campinas

Nos primeiros meses após o início da quarentena, o futuro era uma incógnita para os artistas do Brasil inteiro. Em Campinas não foi diferente: presos em casa como a maioria dos cidadãos, de repente não havia mais uma cena cultural pulsante em bares, restaurantes, teatros e casas de espetáculo na cidade. Individualmente ou em pequenos grupamentos, diversos destes artistas partiram para uma enxurrada de apresentações virtuais. Mas as lives rapidamente cansaram o público.

Em meio a esse cenário, antes mesmo de haver leis nacionais de ajuda à classe artística aprovadas, como a Lei Aldir Blanc, a Prefeitura de Campinas realizou um chamamento para que mil artistas registrassem em vídeo sua produção autoral durante o período de quarentena. Nessa primeira chamada, nem todas as cotas foram preenchidas, o que motivou um segundo chamamento para completá-las. Cada artista inscrito recebeu cerca de 500 reais a título de remuneração.

Rafa Carvalho, escritor e um dos principais agentes culturais da cidade, resume bem a importância do chamamento: “A conversa sobre o projeto como um todo é complexa e, por isso, extensa. Mas, sucintamente: ajudou a botar feijão na mesa de pessoas. Em casa foi assim. Já o caminho até a dignidade é mais longo que isso; o mesmo quanto a uma abordagem cuidadosa e sensível para com artistas e suas obras. Que a gente possa seguir, pois comida na mesa é só uma das coisas devidas.”

É importante notar que a característica emergencial desse chamamento acabou implicando em uma saudável ausência de julgamentos ou curadoria em todo o material enviado. Isso quer dizer, em outras palavras, que havia total liberdade de escolha e execução por parte dos artistas, para que eles realizassem seus vídeos da maneira como bem entendessem, inclusive tecnicamente. Desde pessoas sem nenhuma intimidade com a câmera até profissionais com experiência no formato, todas as propostas executadas eram válidas e aceitas. De certa forma, é a protorrealização de um mapeamento cultural em formato audiovisual da produção cultural atual da cidade, de forma muito solta, sem amarras.

Essa imensa produção começou a ser disponibilizada gratuitamente à população da cidade (e do mundo, por que não?) no canal de YouTube Cultura Abraça Campinas, transformando-se no projeto Sinfônica Abraça Campinas. Desde o dia 20 de outubro do ano passado, são disponibilizados vídeos de segunda a sexta-feira, sempre apresentados por um músico da Orquestra Sinfônica.

Dar visibilidade por meio de um canal oficial do governo municipal é, de fato, algo digno de nota. Em teoria, isso pode representar um primeiro passo em direção a ações mais assertivas para que os agentes culturais de Campinas não apenas sejam melhor ouvidos ou representados, mas que também haja possibilidades reais de um fluxo constante e ininterrupto de produtos artísticos, algo de que a cidade carece terrivelmente há pelo menos quinze anos.

O acervo do projeto é tão grande que ele continuará alimentando o canal pelo menos por mais um ano. Porém, de nada adianta uma grande oferta cultural, totalmente gratuita e plenamente acessível se não há grande divulgação deste material. O que acontece então é que, mesmo com o projeto em atividade há mais de dez meses, ainda há pouca visitação aos vídeos que o compõem. Eles contêm grande qualidade e diversidade, destacando-se apresentações muito heterogêneas entre si: Bonfim (trailer), apresenta bastidores de um curta do cineasta Ramiro Rodrigues; Passando a cena, em que o pedagogo e artista circense Christian Mathias ensina a jogar bolas de malabares; ou Iniciação Musical Infantil, em que a cantora Fabianna Miranda ensina crianças a tocar violão.

Fabianna, que também é doutora em Cinema pela Unicamp, explica que a pandemia obrigou as pessoas a dominarem novas linguagens via internet: “Mesmo para mim, que domino a técnica de edição de vídeos, foi uma experiência nova, pois me incentivou a produzir outros vídeos para um futuro curso online.”

O projeto Sinfônica Abraça Campinas, por vocação, é a maior vitrine de artistas campineiros já exibidas à população por meio de canais oficiais. Rafa Carvalho concorda com isso e reforça: “Agora, este acervo reunido pode ser muito precioso à cidade e à nossa população. Que a divulgação de cada vídeo seja feita com a atenção aos detalhes, que a cultura merece.”

Resta agora que o público faça a sua parte e complete o ciclo de criação desses artistas, assistindo às apresentações e valorizando a riquíssima cultura campineira

ALGUNS DESTAQUES DO CANAL

Um Sertão de Poesia, de Samuel de Monteiro

Mundo Dividido, de Cauê Lopes Garcia

A Técnica da Xilogravura, de Luciana Bertareli (Xilomóvel)

Pelé na Tela, de Júlia [/TEXTO_COLUNA]Conterno

Tríade do Equilíbrio: Corpo, Mente e Alma, de Alícia Muneiro Alves

Iniciação Musical Infantil, de Fabianna Miranda

Do Desenho à Tela, de João Folharini e Marcos Carvalho

Pequenos Estudos para Duo de gaita Cromática I e II, de Rodrigo Eisenger

Batucada Virtual, de Bruno Sotil

Fazendo Obra, com Fabiano Carriero

Eu Sou Sinhá, com Rosária Antônia

Mi Casa, Su Casa, de Joana de Toledo Piza

Contando Contas de Mar, de Rafa Carvalho

Passando a Cena, de Christian Mathias

Escrito por:

Delfin