ig-antonio-contente (AAN)
A coisa é comum e, certamente, por ser comum, aconteceu com Ney. Ele sentou ao lado de linda moça num avião que ia de Campinas para Brasília. Puxou conversa e, sejamos honestos, cantou. E tanto, tão bem, que entoou. No instante em que o aparelho tocou o solo, já estava resolvido que se hospedariam no mesmo hotel. Lá, após drinques, optaram por um só apartamento. No dia seguinte, bem no fim da tarde, Tarília, a belíssima passageira, voltaria para Viracopos, enquanto Ney partiria para Salvador. E justamente no aeroporto, na hora da despedida, ela entregou um número para o rapaz, escrito no guardanapinho da lanchonete: — Tornando pra sua casa em Jundiaí, me liga pra Campinas. — Claro — ele balançou o papelzinho — é tudo que farei. O típico final de um encontro fortuito, coisa nada incomum, como disse. Mesmo porque Ney só foi rever novamente o papelucho com os números que a guria lhe dera, uns cinco meses depois. Ao revistar os bolsos de um paletó que mandaria para a lavanderia. Não pensou nem duas vezes, ligou logo. Quando atendem do outro lado, voz de mulher, o camarada pergunta: — Tarília? — Tarília? Você deve estar brincando... — Por que brincando? Nunca falei tão sério. Aí não mora uma moça chamada Tarília? — Mora sim, meu senhor, mas hoje é o dia do casamento, né? — Casamento? Dela? Recebeu todas as informações. Ao desligar, estava resolvido que iria à festa. Afinal, rolava um sábado belíssimo de Verão. Vamos e venhamos, Ney tinha mais era que estar curioso. Afinal de contas, poderia passar tudo pela cabeça dele menos que a criatura fosse noiva. Não, claro, que estivesse apaixonado. Apenas achou maravilhoso ter estado com ela em Brasília, nada além. Mais tarde, ao chegar diante do casarão da festa, Ney pensou. — Só quero sacar a cara dela... Entrou e, sejamos justos, não via há tempos uma recepção do tipo. Para princípio de conversa a casa era imensa. E a festança, como nos Anos Dourados, se espalhava por um gramado verdíssimo, ao lado de cinematográfica piscina digna de Ester Williams. O, se podemos chamar assim, intruso, passou a observar atentamente os copiosos convidados. Por fim, após vasculhar com olhos atentos o que era possível vasculhar, avista Tarília a um canto recebendo abraços e beijos de todos os lados. Junto, o marido. Ney caminha para eles. Quando a moça o avistou, precisou se apoiar aos ombros da pessoa que a cumprimentava, para não cair. Recompondo-se, encara o rapaz e o apresenta ao esposo: — Este é Adalberto, um primo de Santa Rita do Passa Quatro. — Cheguei agorinha — Ney mantém a calma — quase não deu tempo... — E o titio e a titia, vieram?... — Ah, você sabe, aqueles problemas de gota num e osteoporose na outra... Ao se afastar, o sujeito começa a viver uma rala dúvida: fora, realmente, confundido com um primo ou ela dissera aquilo para disfarçar? Pegou uma dose de uísque na bandeja de um garçom que ia passando. De outro, capturou uma empadinha. Ney rodou a festa por quase uma hora, resolvido a só sair dali depois de descobrir se fora reconhecido ou não. De resto, isso não demorou muito a acontecer, pois Tarília se aproximou dele: — Por tudo quanto é mais sagrado, nunca imaginei que fosse te rever; ainda mais hoje. — Primo de Santa Rita de Passa Quatro, não é? — Fiquei nervosíssima, achando que você poderia falar que me conheceu num vôo daqui para Brasília. — Mas por que diabo eu falaria isso? — Ah, sei lá... Olha, você sabe aquela tarde em que voltei para Campinas, quando nos despedimos no aeroporto? Foi a bordo da viagem pra cá que conheci meu marido. — OK, tô voltando pra Jundiaí — Ney levanta a mão — mas me diz mais uma coisa: por que me chamou de Adalberto? — Puxa, desculpa, mas não faço a menor ideia de como é o seu nome... Nosso amigo foi para a saída e, no caminho, tomou mais um uísque. Depois, no bar de sempre em sua cidade, reviu como a recém-casada era lindíssima. Suspirando pediu, como fazem no Mercadão da Capital, “um chops e dois pastel”...