A coisa é comum e, certamente, por ser comum, aconteceu com Ney. Ele sentou ao lado de linda moça num avião que ia de Campinas para Brasília. Puxou conversa e, sejamos honestos, cantou. E tanto, tão bem, que entoou. No instante em que o aparelho tocou o solo, já estava resolvido que se hospedariam no mesmo hotel. Lá, após drinques, optaram por um só apartamento.No dia seguinte, bem no fim da tarde, Tarília, a belíssima passageira, voltaria para Viracopos, enquanto Ney partiria para Salvador. E justamente no aeroporto, na hora da despedida, ela entregou um número para o rapaz, escrito no guardanapinho da lanchonete:— Tornando pra sua casa em Jundiaí, me liga pra Campinas.— Claro — ele balançou o papelzinho — é tudo que farei.O típico final de um encontro fortuito, coisa nada incomum, como disse. Mesmo porque Ney só foi rever novamente o papelucho com os números que a guria lhe dera, uns cinco meses depois. Ao revistar os bolsos de um paletó que mandaria para a lavanderia.Não pensou nem duas vezes, ligou logo. Quando atendem do outro lado, voz de mulher, o camarada pergunta:— Tarília?— Tarília? Você deve estar brincando...— Por que brincando? Nunca falei tão sério. Aí não mora uma moça chamada Tarília?— Mora sim, meu senhor, mas hoje é o dia do casamento, né?— Casamento? Dela?Recebeu todas as informações. Ao desligar, estava resolvido que iria à festa. Afinal, rolava um sábado belíssimo de Verão.Vamos e venhamos, Ney tinha mais era que estar curioso. Afinal de contas, poderia passar tudo pela cabeça dele menos que a criatura fosse noiva. Não, claro, que estivesse apaixonado. Apenas achou maravilhoso ter estado com ela em Brasília, nada além. Mais tarde, ao chegar diante do casarão da festa, Ney pensou.— Só quero sacar a cara dela...Entrou e, sejamos justos, não via há tempos uma recepção do tipo. Para princípio de conversa a casa era imensa. E a festança, como nos Anos Dourados, se espalhava por um gramado verdíssimo, ao lado de cinematográfica piscina digna de Ester Williams.O, se podemos chamar assim, intruso, passou a observar atentamente os copiosos convidados. Por fim, após vasculhar com olhos atentos o que era possível vasculhar, avista Tarília a um canto recebendo abraços e beijos de todos os lados. Junto, o marido. Ney caminha para eles.Quando a moça o avistou, precisou se apoiar aos ombros da pessoa que a cumprimentava, para não cair. Recompondo-se, encara o rapaz e o apresenta ao esposo:— Este é Adalberto, um primo de Santa Rita do Passa Quatro.— Cheguei agorinha — Ney mantém a calma — quase não deu tempo...— E o titio e a titia, vieram?...— Ah, você sabe, aqueles problemas de gota num e osteoporose na outra...Ao se afastar, o sujeito começa a viver uma rala dúvida: fora, realmente, confundido com um primo ou ela dissera aquilo para disfarçar? Pegou uma dose de uísque na bandeja de um garçom que ia passando. De outro, capturou uma empadinha.Ney rodou a festa por quase uma hora, resolvido a só sair dali depois de descobrir se fora reconhecido ou não. De resto, isso não demorou muito a acontecer, pois Tarília se aproximou dele:— Por tudo quanto é mais sagrado, nunca imaginei que fosse te rever; ainda mais hoje.— Primo de Santa Rita de Passa Quatro, não é?— Fiquei nervosíssima, achando que você poderia falar que me conheceu num vôo daqui para Brasília.— Mas por que diabo eu falaria isso?— Ah, sei lá... Olha, você sabe aquela tarde em que voltei para Campinas, quando nos despedimos no aeroporto? Foi a bordo da viagem pra cá que conheci meu marido.— OK, tô voltando pra Jundiaí — Ney levanta a mão — mas me diz mais uma coisa: por que me chamou de Adalberto?— Puxa, desculpa, mas não faço a menor ideia de como é o seu nome...Nosso amigo foi para a saída e, no caminho, tomou mais um uísque. Depois, no bar de sempre em sua cidade, reviu como a recém-casada era lindíssima. Suspirando pediu, como fazem no Mercadão da Capital, “um chops e dois pastel”...