ig-antonio-contente (AAN)
Conforme contava no domingo passado, continua o barco a subir o rio Tocantins, no Pará, em 1979, quando a barreira de cimento e aço para formar o lago de Tucuruí estava prestes a ser fechada. Agora mais uma vez reparo como as águas de março tornam grandes as marés, e como o sol, a surgir entre buracos nas nuvens de chuva, é tão mais apaziguante, tão mais dono da vida.São Benedito, Vila do Carmo e, lá longe, avisto Mocajuba. A cidadezinha plantada, imutável, no alto da velha ladeira como era no meu tempo de menino e como será, espero, quando eu ficar muito, muito velho; se é que os homens d’hoje conseguem ficar muito, muito velhos...O barco atraca, desço pela mesma ponte que ultrapassou a idade das eras. Revejo as mangueiras, as ruas de terra; de novidade, apenas um enorme cruzeiro em frente à igreja, quem sabe ali posto para antecipação de preces pelo triste destino que esperava o Brasil na virada do século 20 para o 21... E observo os idosos, que idosos já eram no meu tempo, e que continuarão idosos enquanto as brisas das manhãs correrem embebidas pela fragrância das seivas. Eles permaneciam plantados no solo como os grandes troncos. Como as sumaúmas, mognos, mangueiras. Resistem mais do que as pedras, são atemporais como o céu, como o piscar constante das estrelas, como os sonhos infatigáveis dos que não desistem.Na rua da frente me abre os braços a figura de Santino Taracanga. Cinquenta anos, cem, duzentos; simplesmente não sei. O que redescubro, espantado, é que seus dedos ainda tocam violão, e que é voz solitária em serenatas aos botos, na cabeça da ponte. Convida, olhando nos meus olhos: “Vamos hoje?”. Diante do meu “vamos sim... Mas aonde?”, responde: “À festa do Pedro Maravilha”. Claro, fui, para ouvir Eldonor no banjo, Cauby na clarineta, Lúcio na sanfona. E, madrugada alta, ante danças sem fim, busco a beira do barracão para, apenas, olhar o tempo. As flores, por molhadas estarem, soltavam mais perfumes. Penso em comentar isso com alguém, mas me contenho. Eles jamais desaprenderam. Eu é que estava em tempos de redescobertas.Mais dois dias e, enfim, encostamos em Tucuruí onde o Tocantins lutava contra a barragem da futura hidrelétrica. Os homens, as máquinas, milhares de homens, milhares de máquinas brigavam por estrangular o rio. Soube que operavam com tranquilidade; porém, tinham noção que a tranquilidade não seria a mesma com as águas de março.Ancorado o barquinho no porto andei pelo entorno. Numa birosca, velho piloto me contou que, no dia anterior, a força das correntezas levara um dos aterros. Imediatamente senti fantástica alegria, pois na luta entre o rio e os homens para a construção da hidrelétrica, eu torcia, sem dúvida, pelo amado curso d’água. Fiquei ansioso:— Me conte como foi.— Fizeram o aterro ali — ele começa — na margem esquerda; só que de noite a força da corrente, que aumentou com as chuvas, levou tudo, até máquinas...Voltando ao barco peço para irmos ao local da barragem caída. Ao ver o aterro arrasado, sou tomado por intensa alegria, como se aquilo pudesse fazer com que as obras parassem para salvar as cachoeiras.Depois, na volta, foi a vez de mestre João, o piloto com olhos de gaivota, lutar contra o enorme fluxo líquido que os engenheiros criaram com o estreitamento das margens. O barco resfolega e, a custo, avança. Por fim, soltando fumaça negra pela pequena chaminé, a embarcação vence. Mestre João enxuga o suor na testa:— Estão acabando com o rio...Olho para a margem, onde imensa escavadeira fazia seu terrível trabalho: cavar, cavar... Tenho impressão que, abaixo, as águas gemem. Talvez chorem. Tenho um sonho com os olhos abertos, o Tocantins a vencer as máquinas e os engenheiros. Vejo uma festa de peixes. Num canto, sorriso luminoso de alegria, Santino Taracanga a tocar seu impecável violão.Naquela mesma tarde fui ver o paredão da barragem que logo seria fechado para a formação do lago. Nas árvores que ainda restavam, pulava um bando de macacos que, se não fugiram a tempo, morreram afogados. Vou a mestre João, o piloto com olhos de gaivota, e digo-lhe que minha despedida das cachoeiras terminara. Pergunta quando quero voltar e respondo com um sucinto “já”. Ele empurra o leme e o barco torna. A pequena tripulação, de quatro homens, ajeita as cordas sobre o pequeno convés de proa. Vivíamos as águas de março de 1979. Alguns meses depois, as comportas foram fechadas. Na redação da Folha de S. Paulo, onde eu trabalhava, chegou às minhas mãos a notícia de que o general presidente, em pessoa, fora encerrar os trabalhos. Formou-se o lago, atualmente a energia jorra. Hoje os passarinhos de Mocajuba, muitos quilômetros rio abaixo, às vezes deixam os galhos das árvores. E pousam nas antenas de TV...