CONTENTE

Em outras águas de março

Antônio Contente
igpaulista@rac.com.br
14/06/2015 às 05:00.
Atualizado em 23/04/2022 às 10:46

Foi depois das águas de março de 1979 do século passado que a grande barreira de cimento e aço se fechou para o represamento do rio Tocantins, o que tornou possível a construção da Hidrelétrica de Tucuruí. Com isso desapareceram, cobertas pelas águas do grande lago, as corredeiras, ou cachoeiras, como os caboclos as chamavam, existentes entre a citada cidade e Marabá. Tal trecho, belíssimo, foi apontado pelo naturalista belga Henri Coindreau, que por ali navegou nas primeiras décadas do século passado, como uma das paisagens fluviais mais lindas do mundo. Então, para me despedir de cenário absolutamente marcante em minha vida de nativo da região, me enfiei num barco para fazer o que chamei de “roteiro do adeus”.Era bem cedo quando a embarcação iniciou a grande subida do rio, saindo de Belém. Sob o som da hélice rodando, fui tomado pela noção real de tantos anos vividos a olhar as beiradas verdes que conheço com intimidade maior do que um mar de memórias; pois, numa daquelas margens, eu nasci. Por um tempo, bom tempo, na vida, fui como as plantas da beira d’água, como os pássaros que ainda hoje continuam a voar sob os cinzentos céus da Estação das Chuvas; como os peixes fui, como os botos de bufar aveludado, mas que rompe silêncios. E o barquinho seguiu, vencendo correntezas. Não sei se vencendo ou se tornando parte delas, com uma integração de amor e de paz até hoje muito rara entre os seres humanos. No leme ia mestre João, um velho e experiente piloto, meu amigo de muitos anos. Ele tinha olhos de gaivota, conhecia cada curva do rio, cada ilha, cada desembocar de igarapé e, quase diria, cada árvore, milhões delas que a crueldade da civilização ainda não acabou de arrancar na Amazônia.Interessante esta intimidade que temos com os símbolos, todos eles benzidos pela magia dos tempos. Interessante como, flutuando naquelas margens, mais do que sentir vi antigos gestos meus nas folhas batidas pelas brisas, molhadas pelas águas do março de céu baixo, cinzento. Chovia sobre o rio, e a tarde lá estava, caindo, se desdobrando, se fazendo mais meiga no prenúncio da noite. Apreciando o gotejar do tempo sobre o rio me reencontrei com minha origem, deixando para bem longe as alternativas de vida.De repente, numa canoinha que passa ao lado do barco vai um menino, de uns 10 anos, sozinho, remando. Segue a favor da corrente; de repente, olha pra mim, ele que era parte integrante da tarde, da floresta, da chuva, do vento, do tempo. Aquele moleque era eu, ou o que poderia ter renascido de mim. Eu nas águas ao redor da Ilha de Santana, flutuando com meu remo branco no qual a avó mandou pintar flores azuis. Há um tempo, na vida das pessoas, em que as flores precisam ser necessariamente azuis. Há um sonho que resta na vida das pessoas, reaprendizado que então tive nos gestos daquela criança solitária em sua canoa; mais do que isso, dentro do seu mundo.Intermitente chuva, chuva fina, o barco a gemer contra a brisa mansa. O céu, aos poucos, foi ficando vermelho, sangue de misterioso universo que se derretia lá fora sobre as matas, crescendo dentro de mim como força acariciante, branda, como as flores azuis do meu antigo remo.Olhei para trás, no rumo das espumas que o barco deixava e percebo que o menino e sua canoinha sumiam numa curva do rio. Tornei para dentro de mim, mirei o céu rubro a fim de melhor captar a sensação. Saí da selva, busquei um dia a civilização. E até hoje, tanto tempo depois, não consegui me adaptar a ela. E no rio onde naquele fim de tarde vagava, tudo, num instante, ficou distante, pois eu, menino, também sumi numa curva do rio. Para, tanto tempo depois, me perceber homem solto entre o céu e a terra. Nunca mais fui do Tocantins, e também não me sinto como sendo das cidades. Isso, naturalmente, não tem nenhuma importância, nem para o rio nem pras cidades nem pra ninguém. Porém abre em mim um grande, eterno vazio, cujo preenchimento deixou de ser procurado. Afinal, é isto que fortalece o sentido das lembranças.No outro dia, de manhã, paramos em São Benedito, lugar que recua no tempo. A chuva diminuíra, não parara. Protegido, sob o toldo do barco, fiquei a olhar, longamente, a única rua no alto da ladeira. Coloquei toalha sobre a cabeça e desci pelo trapiche com tábuas velhas, tortas. Alcanço o chão de barro esburacado, desvio das poças. Avisto, sob o pingo das mangueiras, uma birosca. Entro; peço ao homem, que me olha com curiosidade, uma garrafa de Martini. Ele faz um gesto, entra na casa; logo volta.— Ela não está — me diz.— Quem não está?— O senhor não perguntou pela Martinha?Desfeito o equívoco, tomei uma talagada d’outra bebida. Mas tudo, como se verá no próximo domingo, estava apenas começando.

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