— Estou lhe dizendo e tenho como provar. Fui o personal trainer do Dorival Caymmi de 1976 até o dia do desencarne. Ele fazia a vida toda o marketing da preguiça baiana, essa é que é a verdade. Ninguém chegaria aos 94 se entupindo de vatapá, espraiado na rede e só saindo dela para ficar se lamentando de saudade da Bahia.— Mas nenhum baiano fez isso tão bem quanto ele.— Lógico. Quem sou eu pra questionar? Mas se tinha tanta saudade assim da terra dele, porque não voltava logo de uma vez pra lá? Podia morar onde bem entendesse, o homem era mito, monstro sagrado. Ele não queria era sair do Rio de Janeiro, da academia de ginástica particular que tinha em casa, das doses cavalares de Mega Mass.— Você é um caluniador, está chutando cachorro morto. Cometa suas infâmias com quem é vivo e pode se defender. O que você quer é difamar o bom nome do ícone da letargia soteropolitana. A malemolência malandra do brasileiro deve muito ao sábio sedentarismo de Dorival.— Pois eu lhe digo que o homem puxava ferro como ninguém, meu amigo, das quatro às sete e meia da manhã, inclusive aos domingos. E depois dos aparelhos de musculação vinham as sessões infindáveis de abdominais e bicicleta ergométrica na carga máxima. Aí quando chegava a imprensa ele escondia tudo, me dispensava mais cedo e vinha com aquela conversa que não fazia esforço pra não gastar o corpo, que esse era o segredo da longevidade, a baboseira toda que você já conhece e que a mídia só foi ajudando a espalhar. Baiano esperto, espertíssimo. Aquele andar moroso era cansaço físico. Era fadiga muscular, ligamento estirado e outros transtornos de quem pega pesado demais na malhação. E o Brasil inteiro pensando que o homem ficava ensaiando três dias antes de se levantar pra fazer xixi...— Mas e a barriga? Quem faz tanto exercício assim fica lisinho de abdômen.— Já viu alguma foto dele de barriga de fora?— Não.— Pois então. O que parecia ser barriga debaixo da camisa era enchimento, e enchimento de chumbo — o que ajudava ainda mais a manter a forma enquanto ele ia pras gravações, programas de auditório e coletivas de imprensa. Uma vez, quase que um paparazzo deu um flagra. A cortina da sala tinha ficado um pouco aberta e ele estava em pleno trabalho de tríceps, com a toalha em volta do pescoço e mamando isotônico de canudinho. Foi depois disso que eu disse a ele pra trocar o squeeze por um coco verde de plástico com revestimento térmico.— Sei, sei. Você quer é ganhar holofote e dinheiro com essa história. Aposto que já tem um livro pronto, coisa de jornalista decadente e endividado que aparece do nada com biografia caluniosa não autorizada, feita pra criar polêmica e arrumar encrenca judicial com a família do morto.— Olha, esse desaforo eu vou fingir que não escutei, tá certo? Outra falácia foi o que alegaram como sendo a causa mortis do Dorival: um câncer renal. Faz-me rir, se soubessem o quanto eu alertei o Caymmi pra pegar leve... mas ele era teimoso e dizia que ia fazer só mais um pouquinho de exercício. E aí era mais uma série de 100 flexões, no outro dia mais 200, depois 500 a mais do que o recomendado pra idade dele. Não demorou muito para o dia fatal. Ele tinha terminado o step e foi direto pro halteres, começando com 150 quilos. Fez 22 levantamentos consecutivos, depois 40 minutos de esteira a 25 km por hora. Quando ia sair para se abastecer de anabolizante, a máquina finalmente entrou em pane irreversível e o maior atleta baiano de todos os tempos foi encontrar Mãe Menininha.— Sei... aquela que todo ano vencia a maratona de Nova York, né?