Moramos num País tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Daqui a pouco, tem Carnaval, e muitas negas chamadas Teresa vão rebolar para embevecimento de milhares de turistas. Poucos se lembrarão, no meio da fuzarca, que outra “festa”, ocorrida há duas semanas, tragara a vida de 237 pessoas, na segunda maior tragédia do País, a de Santa Maria (RS). Eis mais uma faceta do Brasil. Altos e baixos se revezam ininterruptamente.Há quem discorde dessa abordagem por observar que é natural a convivência dos contrários. Ademais, argumenta-se, quando se trata de catástrofes, que fatores incontroláveis precisam ser considerados. Eis o ponto central da questão que aqui se levanta. Causas imprevisíveis impulsionam eventos de alto impacto, como desastres naturais.O fato é que a corrente de acidentes/incidentes em nosso território costuma se ancorar na práxis de gestores públicos, descrita nessa coleção de preceitos erráticos: displicência, desleixo, preguiça, acomodação, protelação, compadrismo, inação. São traços de uma cultura política assentada no patrimonialismo e que, ao longo de nossa história, frutificou nos galhos do fisiologismo, do caciquismo, do coronelismo e do nepotismo, dentre outros.A faísca que provocou a tragédia de Santa Maria saiu do arsenal da administração pública e é chamada de falta de controle e fiscalização. O olho mais atento do gestor público teria coibido um espetáculo festivo para mais de mil pessoas num espaço para comportar menos de 700 e, pior, com apenas uma pequena porta de entrada e saída. Examine-se, neste exato momento, a condição dos estabelecimentos públicos em qualquer Estado brasileiro e se verá feia radiografia: equipamentos quebrados, falta de higiene, superlotação, ausência de profissionais etc.Jogando-se a argamassa das mazelas que corroem a sociedade na panela das transformações que ocorrem no bojo da modernidade, chega-se a um conceito que tem prosperado em nossos trópicos: a anomia social.Entenda-se por anomia a incapacidade da sociedade de atingir suas metas culturais por causa da insuficiência de meios que as instituições lhe proporcionam. Quanto maior for a incapacidade do poder institucional, maior a anomia social. Mais uma ênfase: a anomia leva em conta o sistema normativo-legal de um país.Nesse ponto, voltemos ao dia a dia nacional. A transgressão que se observa no comportamento social tem conexão com os desvios legais, éticos e morais que povoam o habitat de governantes e representantes. Resultado: o que é proibido acaba transferido para o departamento de coisas permitidas.Quando não se cumpre a lei, abre-se uma cratera entre as metas do indivíduo e as normas que o acolhem. A anomia nasce nesse berço.Por último, piada da criação do mundo: "Por que, Senhor Deus, o Brasil ganhou tantas belezas, tão belas condições naturais, enquanto nações como o Japão, uma pequena tira de terra, são agraciadas com terremotos e maremotos?". A pergunta feita ao Criador do Céu e da Terra seria hoje fora de propósito.