Corria o primeiro ano do século 21. No dia em que completava Bodas de Prata, Nagra saiu cedo de casa. Nem tinha nada importante pra fazer na rua, mas os preparativos para a festa acabaram por mexer, digamos, com seus neurônios. Vagou, simplesmente, por várias ruas. De repente, na Lusitana, ao passar em frente à Barbearia Astúrias, uma das mais antigas da cidade, teve o ímpeto. Entrou e se dirigiu ao Alfeu, com quem cortava os cabelos há anos. Foi seco, ao sentar na cadeira do saudoso profissional: --- Raspa tudo. --- Tudo? – Há o espanto. --- Não, desculpa, tudo não. Só a barba. Miguel, o outro barbeiro, ao lado, ainda tentou ponderar: --- Mas o senhor usa esse barbão faz mais de trinta anos, doutor Nagra. --- É isso mesmo – Walter, o terceiro membro da equipe concordou. Só que a ordem foi novamente dada. Peremptória: --- Arranca essa coisa da minha fuça, Alfeu. Com todos os pelos. Feito o serviço, o próprio barbeado foi o primeiro a se espantar: --- Meu Deus, trinta anos sem ver minha própria cara! Levantou, pagou e saiu direto para o café Regina, onde às vezes se reunia com os amigos. Entrou e logo na primeira mesa estavam sentados os empresários Pedro Porto e Norberto Velasco, amigos íntimos de Nagra. Que, contudo, por não o reconhecerem, sequer olharam para ele. O escanhoado fulano se aproxima: --- Olá, tudo bem? --- Tudo bem... – Os dois responderam ao mesmo tempo – Em que podemos ajudá-lo? --- Não estão me reconhecendo? Sou o Nagra! O espanto se espalhou entre outras pessoas que estavam no local e que o conheciam sempre a envergar a impressionante e compacta barba . Bom, isso foi o começo. Pois ao chegar em casa, Nicinha, a esposa do camarada, armou-se de uma vassoura e berrou pela empregada a afirmar que um estranho tinha pulado a janela. --- Mas sou eu, amor, o teu marido! – O fulano abre os braços. --- Você? – Ela aponta com o indicador trêmulo – Você? Minha Nossa Senhora, isso é uma loucura. Nunca te vi sem aquela barba. E hoje é o dia das Bodas de Prata! Pra resumir houve a festa, todos ficaram surpresos com a nova cara do nosso herói e não falaram mais nisso. Porém, foi quando o casal se recolheu a seu quarto que todo realmente começou. Pois Nicinha praticamente atacou o marido, desenrolando-se entre as quatro paredes uma noite d’amor como não ocorrera nem na lua de mel. Depois, se a ainda bela mulher de 50 anos dormiu com um sorriso nos lábios, Nagra escorregou para fora da cama com muito cuidado; desceu, preparou uma dose de uísque com os restos da festa, para murmurar: --- Minha mulher acaba de me trair comigo mesmo. Não foi com o marido aquela exuberância toda. Foi com outro que, na realidade, ela nunca tinha visto. Nos dias que se seguiram instalou-se o talvez tormento na cabeça do rapaz. Isso enquanto Nicinha vivia a cantarolar pela casa após as noites de transbordantes carinhos. Assim, dez dias depois, a se olhar no espelho, ele até gostou do que viu, mas solidificou a certeza de que sua esposa o vinha traindo. No décimo quinto dia, ao passar por conhecido prédio na Glicério subiu para bater papo com um advogado seu amigo. Sentou dizendo: --- Doutor Makan, tenho um motivo forte pra separar de minha esposa... --- Espero que tenha mesmo, pois gosto muito da Nicinha. --- Bom, então me deixa ir logo ao ponto: descobri que ela tem um amante. Makan serviu-se de um copo d’água e tamborilou na mesa. Arfa, meio contrafeito: --- Fala francamente, você acha que eu posso tratar de uma separação nessas condições? --- Mas quem disse que eu quero separar? Apenas te contei isso para que fique registrado que eu sei que minha mulher tem um amante. --- Tem? E quem é? --- Eu. Daí, Nagra contou a história da barba. Acabando de ouvir, Makan suspira ter sido uma boa coincidência acontecer no dia das Bodas de Prata. Ergue o indicador, ao dizer: --- Tomara que vocês estejam bem, nas Bodas de Ouro. --- Nada disso – Nagra contesta – com a Nicinha não haverá Bodas de Ouro. Poderá haver, no máximo, outra de Prata, com o novo homem com quem ela está casada e com a nova mulher que resultou disso. Daí, os dois desceram. Para a fresca manhã que clamava por um belo cafezinho.