'Caverna dos Sonhos Esquecidos', de Werner Herzog, está em cartaz em Campinas
Cena do filme 'Caverna dos Sonhos Esquecidos', com direção e atuação de Werner Herzog (Divulgação)
'Caverna dos Sonhos Esquecidos' (Cave of Forgotten Dreams, França, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, 2010), do alemão Werner Herzog, tem tido uma carreira meio errática, pois passou na TV paga, está em DVD, pode-se baixar e, ao chegar aos cinemas no começo do ano, atraiu a atenção de muita gente. Talvez por conta do 3D que, sim, faz enorme diferença.
Apesar de certos incômodos, como o escurecimento da tela, assistir ao filme de Herzog em 3D (o primeiro dele) e na tela grande torna-se fundamental, pois ele foi concebido para tal suporte. Além disso, o foco do documentário, a caverna do título, se revela grandioso logo na primeira imagem — que se faz deslumbrante quando atentamos para os significados dela.
Estamos 32 mil anos antes no Sul da França onde foi descoberto em 1994, na caverna de Chauvet, um dos mais importantes sítios de arte pré-histórica do mundo e que reúne as mais antigas criações pictóricas da humanidade. São centenas de pinturas rupestres intocadas que retratam 13 espécies de animais, incluindo cavalos, bois, leões, ursos e rinocerontes.
A primeira questão que salta é como só agora tão recentemente elas foram descobertas. Em outras palavras: como tamanho tesouro artístico, histórico e filosófico ficou tanto tempo escondido.
Filosófico porque, além do documento em si mesmo e seus valores históricos e artísticos, ver o filme significa mergulhar em algo para muito além dos traços esculpidos nas paredes da caverna. Somos levados a refletir sobre a própria existência e de como não passamos de pequena sequência de uma história tão antiga. Essa reflexão talvez cause impressão mais aguda que a própria descoberta.
Torna-se, portanto, um exercício de reencontro com o primitivo em nós mesmos apesar do conhecimento anterior de que o universo tem milhões de anos e que o ser humano está na terra há alguns milhares. Porém, tais desenhos impressos na caverna nos fazem pensar nas marcas indeléveis deixadas pelo homem primitivo e nas relações que se estabelecem com o contemporâneo. Questões “como por que pintaram? (e com qualidade artística)” e “qual necessidade os impulsionava?” se sobrepõem à própria pintura.
O documentário ouve pesquisadores em visita ao lugar e percebe-se certa reverência ante a grandiosidade que eles contemplam. E deve haver mesmo. Pois não há, da parte dos artistas, apenas a pretensão de documentar animais (existem alguns traços humanos, como mãos). Ao contrário, alguns são verdadeiros painéis cheios de detalhes que fogem ao imaginário da figura retratada e com traços sobrepostos que extrapolam o realismo.
Mais do que informativo, o filme nos transporta de modo concreto a um passado longínquo e revela de maneira inequívoca a presença do ser humano há tanto tempo na terra e, desde então, voltado para a sobrevivência, mas também para o artístico.
Chega a ser perturbadora e, ao mesmo tempo, fascinante tal experiência. Afinal, a arte expressa naquelas paredes expõe, apesar de todas as imperfeições e limites, nosso ancestral desejo de perpetuação.