GUSTAVO MAZZOLA

De volta ao ninho

Gustavo Mazzola
14/03/2013 às 05:00.
Atualizado em 26/04/2022 às 00:53

Voltava ali para tratar de assuntos do meu plano de previdência. Formalidades satisfeitas, crachá de visitantes no peito e, agora, eu ia caminhando pelas estreitas ruelas que me levariam ao prédio da administração. O coração meio apertado, pois revia aquilo tudo depois de muito tempo. Quase não acreditava... dez anos.Cada passo, uma lembrança: a caixa d’água, a agência do banco, o grande pavilhão industrial à direita. Mais adiante, o refeitório... Ah!, o refeitório, os almoços com os companheiros de seção, nós todos sempre descontraídos, alegres, os bate papos sobre qualquer coisa... menos trabalho. Então, me veio à mente um acontecimento singular, ainda na memória dos primeiros tempos de casa: percebia-se um rumor na grande fila do almoço (nos anos 60 era uma fila só para todos os escritórios), tudo por que uma funcionária da Expedição surpreendia usando calça comprida. Era um fato inédito, pois, ou vestiam o uniforme saia e blusa padrão, ou um vestido comum mesmo. Calça comprida era a primeira vez.Mais alguns metros de caminhada, e estava no andar térreo, um abaixo do pavimento da recepção que, num patamar mais alto, dava para a principal saída do prédio. Subi até ele, entrei no amplo salão, parando por um momento bem em frente ao impressionante mural de Hansen Bahia: era o meu caminho de todas as manhãs em direção ao escritório. Parece que ainda via o Aníbal sorrindo de sua mesa de recepção e me acenando com um bom dia, os colegas chegando silenciosos, correndo para os elevadores. Detalhes banais, mas importantes na minha pequena história de vida.Lembrava-me da grande festa dos 25 anos, em 1979, quando tudo precisou ser transferido, às pressas e na última hora, àquelas dependências, cancelando-se a recepção tão bem preparada durante semanas para acontecer no terraço de cobertura: meu chefe previa chuvas, que realmente vieram naquela tarde, impiedosas. Bem de manhã, o curioso foi o grande homem dos espetáculos no Brasil, Abelardo Figueiredo — encarregado do show da festa — e eu, os dois correndo a 13 de Maio, de loja em loja, em busca de alguns metros de tecido para envolver o palco. Abelardo ia comigo — um simples funcionário — descontraído, brincalhão, contando coisas da sua vida, como se nos conhecêssemos fazia muitos anos.Outra lembrança foi, num sábado de sol, a espera angustiosa por visitas de Campinas, convidadas para um almoço e um roteiro pela fábrica. Camarões prontos para serem servidos, vinhos da melhor qualidade, e ninguém chegava. Quase duas horas, nós já “roxos” de fome, e ninguém chegava. De repente, aponta no portão de entrada o carro de um jornal. Corremos para receber o primeiro (talvez, o único!) dos nossos convidados. Mas, surpresa: era somente um fotógrafo, pautado para registrar o acontecimento. E o resultado é que o jovem profissional, pouco mais que um garoto, que viera apenas para alguns minutos de trabalho, foi cercado por gerentes, chefes e comissão de recepção, e teve a experiência de provar o melhor almoço da sua ainda iniciante carreira jornalística.Continuei minha caminhada naquela manhã: subi ao andar onde seria atendido, resolvi o que tinha que resolver. Mas não resisti à tentação de dar uma passadinha no meu antigo lugar de trabalho. Entrei pela grande porta que dá acesso aos departamentos, andei por entre as mesas... não reconhecia mais nada: somente funcionários compenetrados e sorridentes à minha passagem, preocupados com suas tarefas, imersos em computadores de aplicações variadas, nada que remetesse ao meu tempo.De repente, não é que, no fundo do corredor, avisto Denílson, atarefado a examinar algumas pastas e de olhos pregados num monitor de tela grande? Mas que danado, o Denílson! Ainda estava lá: depois de tantos anos, absorto na sua função de sempre. Fui depressa até ele, chamei-o pelo apelido, “Fogaça”. Ele estava um pouco diferente, mais magro.— Como vai? — disse-me sério, sem rodeios.— Ué, esqueceu-se do amigo? Você continua firme aí, não?— O senhor deve estar me confundindo com meu pai. Ele morreu já faz oito anos. Eu vim para cá para fazer o que ele fazia, aliás, com muito gosto. Mas, sente, quer um cafezinho, uma água?Despedi-me, andei rápido para a saída. Desci pelo elevador, já em direção ao estacionamento de visitantes: tantos anos haviam ficado naqueles espaços, quase não cabiam mais nos meus arquivos de recordações. Dei uma última olhada para trás. A grande estrutura monolítica, com o seu chapeuzinho vermelho em cima, parecia me dizer adeus. Definitivamente.

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