Publicado 09 de Agosto de 2021 - 20h02

Por Delfin / Caderno C

Isto não é uma legenda e, sim, um aviso: a partir da próxima quarta-feira, está de volta ao Correio Popular a coluna Gibi, com o melhor sobre o quadrinho nacional e mundial, escrita por Delfin. Publicada no Correio até 2005, Gibi vai ocupar agora as páginas do Caderno C

Delfin

Isto não é uma legenda e, sim, um aviso: a partir da próxima quarta-feira, está de volta ao Correio Popular a coluna Gibi, com o melhor sobre o quadrinho nacional e mundial, escrita por Delfin. Publicada no Correio até 2005, Gibi vai ocupar agora as páginas do Caderno C

Não existe cartunista como Laerte. Não existe mulher como Laerte. É comum que, hoje, se debata a transgeneridade em torno dessa personalidade única, além de sua carreira e sua obra. No entanto, são três coisas que estão mais conectadas do que se possa imaginar. Em suas trilhas pela vida, podemos perceber o inusitado, o inovador, o belo e o transgressor, caminhando em harmonia, mesmo nos momentos em que deveriam se chocar como um acidente entre trens. Mas não se engane em achar que tais choques não existem. A diferença é que, para Laerte Coutinho, eles desabrocham em algo novo, ao mesmo tempo delicado e bruto.

Laerte nos faz pensar. Ela já nos fez rir no passado, mas sempre nos fez pensar. Mesmo nos tempos das revistas Circo e Piratas do Tietê, para cada chiste praticamente ejaculado em obras como Los Três Amigos, O Condomínio e Fagundes (entre tantas outras), nos deparamos com histórias de pura poesia e profundidade, como Fadas e Bruxas e A Insustentável Leveza do Ser. Laerte flerta com nossa inteligência e com nossas certezas todo o tempo e, em 2004, sua lírica ganhou contornos além dos personagens fixos, das gags típicas das tiras de quadrinhos publicadas em jornais, da comédia de situações em que o humor brasileiro navega desde tempos imemoriais. Foi quando começou a jornada que, apesar de continuar em pleno prosseguimento, foi reunida no livro Manual do Minotauro (Quadrinhos na Cia.).

O que levou Laerte a se descolar do sucesso fácil e garantido, que lhe rendia premiações anuais e prestígio junto a seus pares, e enveredar por terreno incerto e movediço em que nada mais seria como antes? Não existe resposta simples para isso. Suas experiências iniciais como transgênero já podiam ser vistas em seu personagem alter ego nos quadrinhos, Hugo. O caminho da coragem em se assumir após três casamentos faz parte de tal resposta.

Também é peça-chave do labirinto em quadrinhos que continua a ser ampliado e construído a morte de um de seus filhos, Diogo, em um acidente de carro. Como ela mesma disse a Drauzio Varela em entrevista, esse fato foi decisivo para que Laerte chutasse o balde em sua carreira e teve ações diversas em sua vida profissional e pessoal.

Enquanto na vida real a velocidade e a dinâmica da internet e das redes sociais trabalhavam para tornar Laerte personagem de si mesma, armadilha na qual não caiu, em sua obra a cartunista praticamente abandonou o conceito dos personagens fixos. Quando ainda havia personagens, eles se tornaram recorrentes, nunca mais protagonistas dominantes em suas tiras, que permanecem sendo publicadas regularmente no jornal Folha de S. Paulo sob seu título original, Piratas do Tietê. Há mais de quinze anos, encontramos tipos bizarros, personagens míticos e fantásticos, objetos estranhos e pessoas comuns, de pensamento ordinário. Ou extraordinário.

As tiras de Manual do Minotauro, embora isso não esteja discriminado em lugar algum do álbum, aparentemente estão dispostas em ordem cronológica. Isso não tem tanta relevância, a não ser a técnica, para que acompanhemos a evolução do traço, da síntese narrativa e da arte da autora. O grande deleite, no entanto, é navegar pelo pensamento de Laerte. Suas dúvidas. Seus medos. Seu olhar em relação ao mundo. Cada tira pode trazer, sim, uma pequena piada, em geral agridoce. Quase certamente trará aquela proverbial pulga para colocar em nossas orelhas.

Filosofia, visão política, críticas sociais, referências culturais, metafísica, literatura em prosa e verso, tudo isso e muito mais faz parte do caldo de cultura no qual a produção atual de Laerte está disposta. Como já foi dito, não há resposta simples para este rumar da carreira, porém há, sim, uma série de outras questões, enfrentadas não apenas por Laerte, mas também por seus leitores, que abraçaram o enigma (alguns dirão poesia) de suas novas tiras.

Laerte nos faz pensar porque ela quer que pensemos. A reflexão é algo que podemos considerar um item em escassez em momentos históricos como os que vivemos hoje em dia, com pessoas apenas reagindo virtualmente a outras reações virtuais, num moto-contínuo que estupidifica as relações humanas, políticas e sociais, em ritmo frenético. Cada tira de Manual do Minotauro tem o poder de desacelerar essa torrente, de fazer o raciocínio sair do estado de letargia indo em busca de algo novo, inesperado, insólito, incrível e imparável.

Ou não.

Há muitos leitores que abandonaram a obra de Laerte quando essa fase de sua carreira foi sedimentada. É uma parte do público que se sentiu abandonada, porque era realmente apaixonada por personagens como Hugo (ou Muriel), Overman, Deus, Suriá, o Gato e a Gata, por exemplo. Talvez se lembrassem do riso bom que era dado ao se ler estas tiras, que de fato resistem ao tempo.

Talvez ainda tenham lembranças de quando Laerte ainda era reconhecido pelo gênero masculino e era roteirista de programas de sucesso, como TV Pirata, Sai de Baixo ou TV Colosso. Como todos nós somos em algum grau, tais leitores são resistentes a mudanças e não conseguem admitir o que Belchior um dia sabiamente colocou em palavras: o novo sempre vem.

Laerte, no entanto, hoje é outra pessoa. Assim como somos todos nós, mesmo que teimemos em não admitir. Olhar para o espelho do passado traz um reflexo distorcido da realidade e da vida. Em vez disso, a cartunista mais importante em atividade no Brasil prefere trazer reflexões reais, muitas vezes incômodas, mas que trazem uma marca indelével de verdade, sensatez e certeza. Ainda que sejam certezas sobre as dúvidas que tanto atormentam a psique humana.

Laerte é uma esfinge e nos desafia. Se e como a aceitamos, isso é apenas conosco.

Escrito por:

Delfin / Caderno C