Publicado 09 de Agosto de 2021 - 19h43

Por Adriana Giachini / Caderno C

As pesquisas de Valéria Scornaienchi está relacionada com a escrita, o desenho e o espaço

Divulgação

As pesquisas de Valéria Scornaienchi está relacionada com a escrita, o desenho e o espaço

É provável que todo artista reconheça afeto em sua arte. Aliás, este é um “ingrediente” para ser usado sem moderação em quase tudo na vida. Mas afeto é também o termo que melhor define o trabalho da artista plástica campineira Valéria Scornaienchi. Especialmente quando o foco é seu mais recente projeto: Comentários sobre o Jardim.

O “jardim” do título é ponto conhecido de quem vive ou apenas transita por Campinas: o Largo do Pará. Ali, palco de partidas e chegadas, Valéria levou há alguns dias (desde 29 de julho) uma intervenção artística composta por dez plaquinhas de jardim, medindo 20x25 centímetros cada, espalhadas em meio a vegetação da praça.

São retratos de imagens coletadas pela artista em seus deslocamentos diários pela região, onde mora há 17 anos. E que não por coincidência foram “plantados” em meio às flores e folhagens do local. "A arte para mim é para todos, gosto de pensar espaços abertos os quais qualquer pessoa pode fruir o trabalho, democraticamente. Nesse projeto eu escolhi utilizar imagens nas quais eu apresento uma planta ou parte dela e uma parte do meu corpo - mãos ou pés. É um pensar na natureza como algo de muito valor, algo sagrado”, diz Valéria.

A conversa evidencia sua paixão pela natureza e a dedicação ao cuidado com as plantas e flores, ainda mais fortalecida em tempos de covid-19. “A pandemia, com certeza, mudou a relação de muita gente com o meio ambiente. A natureza não pode e não deve ser vista como recurso. Porque não é. É vida, igual a gente. Somos todos seres do Planeta”.

O discurso segue, assim como a arte de Valéria, provocador. Começando pelo fato das placas terem sido plantadas, de modo proposital, para requerer (não chamar) atenção. Dessa forma, os acostumados aos passos rápidos, imersos na agitação da vida moderna, poderão, propositadamente, não notar o trabalho - camuflado no jardim assim como a própria brevidade da vida humana, muitas vezes ofuscada em calendários repletos de ocupações.

E isso ela já observa nas tardes em que vai até o local, apenas como expectadora da relação do público com sua arte. “Muita gente passa e não vê. Há duas delas que podem ser vistas até por quem passa de carro. Mas precisa olhar para a praça. Acho que o trabalho é reflexão sobre a fruição da vida e sobre o tempo. A proposta é pensar no ritmo que a gente vive, na forma como a gente caminha pelo espaço público ou se descola pela cidade.”

“Nos centros das grandes cidades ainda nos restam as praças, algumas árvores, arbustos, pequenos recortes da vida que existe na floresta e que me faz lembrar que toda essa região, no passado, era mata. Considero importante essa tentativa de deslocar os olhares para a importância do verde", comenta Valéria para quem o vínculo afetivo com o local é ponto fundamental para o pensar na sua arte.

“Como moro aqui perto, além de frequentar o Largo do Pará, faço muita coisa a pé. Por isso, também tem uma relação afetiva com esse pedaço da cidade, tenho muitas memórias.”

Quem é Valéria

Valéria Scornaienchi é uma artista campineira que desenvolve seus projetos no seu próprio ateliê. Sua pesquisa está relacionada com a escrita, o desenho e o espaço. Mas outras mídias surgem como desdobramento do trabalho e ela, em tempos da comunicação virtual, costuma registrar o resultado nas redes sociais.

Com a mente e o coração, repletos de boas ideias, ela confidencia que pretende estender Comentários Sobre o Jardim para outras duas praças da cidade: o Largo São Benedito e a Praça Carlos Gomes. Ambas com uma justificativa pessoal: “Minha avó morava por ali e tenho memórias da minha infância.”

Ainda neste segundo semestre, Valéria pretende lançar outros dois projetos, também com temáticas relacionadas ao meio ambiente. Um deles é um livro baseado no Atlas Botânico Poético, iniciado no ano passado, pós-pandemia, que reunirá suas percepções sobre as diversidades de espécies e no qual ela reflete sobre vestígios e pós-vidas das plantas, assim como a relação com o tempo de vida e a capacidade humana de prestar atenção aos ciclos de vidas.

O segundo projeto é um herbário de histórias que é uma plataforma virtual que vai conter todas as imagens do atlas e áudios de pequenas histórias do cotidiano.

ANOTE

A artista criou um perfil do projeto no instagram (@comentariossobreojardim) no qual convida os expectadores a compartilharem comentários e impressões sobre o jardim e de memórias relacionadas a praça. Não há uma data para retirada das placas uma vez que, segundo a artista, o material ficará lá aquele quando as pessoas quiserem.

Escrito por:

Adriana Giachini / Caderno C