Publicado 03 de Agosto de 2021 - 20h07

Por Cibele Vieira / Caderno C

Peça Exilius ficará disponível por dois dias no canal do Grupo no YouTube

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Peça Exilius ficará disponível por dois dias no canal do Grupo no YouTube

“Tirei minha matula para saciar minha fome.” Essa frase faz parte de um poema de Antonio, um poeta morador de rua de Campinas e se refere a matula - uma bolsa com comida para viagem. A ideia de saciar todas as fomes – a da subsistência e a artística – levou um grupo de jovens artistas a adotar esse nome para iniciar sua companhia de teatro, no início dos anos 2000, quando conheceram o poeta. Já se passaram 21 anos que isso ocorreu e, hoje, o Grupo Matula comemora sua maioridade com um espetáculo audiovisual que será apresentado nesta quarta-feira, dia 4, no Cole (Congresso de Leitura da Unicamp), organizado pela Associação de Leitura do Brasil.

Resistência, adaptação e coletividade são palavras que identificam bem a personalidade que o Grupo Matula Teatro imprimiu em Campinas nas últimas duas décadas. Suas criações sempre focam em problemas sociais e questões inquietas do cotidiano. É o caso do espetáculo que marcará sua primeira participação no Cole, uma nova versão audiovisual de Exilius. O espetáculo, que completa dez anos desde sua estreia em 2011, ganhou uma versão em linguagem híbrida, transitando entre o teatro e as técnicas audiovisuais. Ficará disponível por dois dias no canal do Grupo no YouTube: das 13h30 desta quarta-feira até à meia-noite de sexta (dia 6).

Experiência coletiva

Atuando desde 2000 de maneira independente, o coletivo de artistas se dedica a pesquisas para fundamentar seus espetáculos, a cursos e oficinas técnicas para formação de atores e trabalhadores em teatro, além da circulação de projetos em conjunto com outros grupos, formando uma rede de colaboração. Carolina Baraglio, produtora executiva, lembra que a sede do grupo - Espaço Cultural Rosa dos Ventos, em Barão Geraldo -, é referência quando se pensa em trabalho colaborativo, luta social e capacidade de sobrevivência enquanto coletivo teatral. Com 21 anos talvez seja a hora de reconhecer que experiência é nosso maior diferencial nesse momento, pondera Carolina.

O grupo já teve diferentes formações, atualmente somente a atriz Alice Possani é parte de sua formação original. A equipe é integrada também pela atriz Erika Cunha (desde 2011), o coordenador de produção e músico Dudu Ferraz (2018) e a produtora executiva Carolina Baraglio (2021). Para o pós-pandemia uma nova pesquisa já está em curso, para montagem em 2022. É um novo trabalho de rua, com o nome provisório Tá na Mesa, que pretende abordar a comida e tudo o que se coloca (ou não) na mesa.

Pelas ruas, palcos e universidades

Quando decidiu se estabelecer em Campinas, o Matula teve apoio de vários outros coletivos já estruturados na época. “Pudemos contar com a orientação, parceria e apoio logístico desses grupos mais experientes, fundamentais na nossa origem”, lembra Alice. Por isso, hoje que já tem mais experiência e estrutura, acolhe e apoia grupos iniciantes, além de envolver coletivos de outras regiões em parcerias e trocas artísticas na circulação de trabalhos.

A diversidade temática fez com que o Matula ficasse conhecido não por uma determinada técnica, mas pelas temáticas. As inspirações nascem do contato com população de rua, mulheres que vivem em assentamentos rurais, famílias de pequenos circos, refugiados e outras situações inspiram temáticas para palco e intervenções urbanas. A interface com a literatura também é referência em criações que tiveram como ponto de partida a adaptação de contos de Hilda Hilst, Mia Couto e Julio Cortázar.

Exílius em nova versão

A nova versão audiovisual de Exilius, exibida no Congresso de Leitura da Unicamp amanhã, às 13h30), foi feita em parceria com o cineasta Diego da Costa e o jornalista Ericson Cunha. A nova versão do espetáculo é feita de maneira híbrida, entre palco e espaços alternativos, entre a linguagem teatral e a audiovisual. Essa versão foi gravada na cidade de Campinas em espaços internos (teatro Útero de Vênus, em Barão Geraldo) e em espaços externos (Casarão do Jambeiro e Ponto de Cultura Quintal Garatuja).

A peça é fruto de um trabalho de pesquisa e envolvimento com o povo saharaui, que originalmente habitava a região do Saara Ocidental e hoje encontra-se dividido, com parte da sua população no território original (ocupado por Marrocos) e parte exilada desde 1976 em terras da Argélia. O deserto e a situação de exílio são tratados como metáforas da indisponibilidade do corpo com o espaço e do corpo em si mesmo, e tem como ponto de partida (e chegada!) o conflito desse povo que luta por reconhecimento de sua pátria.

Congresso de leitura

O 22º Congresso de Leitura do Brasil (COLE) acontece virtualmente por conta da pandemia. De 2 a 6 de agosto, reúne trabalhos e apresentações de todo País para aprofundar temas contemporâneos relativos à educação, à leitura e à escrita com a participação de um público heterogêneo (professores, pesquisadores, bibliotecários, estudantes, artistas e escritores) de várias regiões, sob a coordenação da Associação de Leitura do Brasil. A programação envolve conferências, oficinas, mesas redondas, apresentações culturais, conversas com autor e trabalhos inéditos. A programação pode ser acompanhada em: https://cole.alb.org.br/course/view.php?id=3

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Cibele Vieira / Caderno C