Publicado 28 de Julho de 2021 - 18h01

Por Cibele Vieira / Caderno C

Caso Evandro nasceu como um podcast do grupo AntiCast, se tornou uma série documental e um livro

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Caso Evandro nasceu como um podcast do grupo AntiCast, se tornou uma série documental e um livro

Macabros, violentos, instigantes e populares. Esses são ingredientes das séries baseadas em crimes reais que despertam cada vez mais a curiosidade dos brasileiros, sendo sucesso garantido nas grandes plataformas de streamings. Casos policiais novos e antigos ganham versões modernas no formato de documentário, com grande riqueza de detalhes sobre as investigações. Várias séries brasileiras fazem sucesso atualmente seguindo essa tendência.

A curiosidade em acompanhar em capítulos o desenrolar de crimes – a maioria sem uma solução convincente – começa bem antes, com a cobertura da mídia quando o fato acontece. O jornalismo acaba alimentando o tema, afinal falar de assassinatos em série aumenta a audiência. A repercussão pelas redes sociais ganha corpo, criando uma enorme demanda por informações. Mas com a mesma velocidade que um tema ganha visibilidade ele também sai do radar para dar espaço a novas histórias.

É nesse momento que entram em cena alguns programas específicos e podcasts que se dedicam a investigações paralelas, trazendo informações novas que não estavam no noticiário factual e instigando ainda mais a curiosidade popular. Os podcasts são programas de áudio sob demanda, que ficam disponíveis para serem ouvidos em qualquer horário.

Quando esses programas alcançam um número significativo de seguidores, eles despertam o interesse das grandes plataformas em produzir uma série sobre o tema. O doutorando em Multimeios da Unicamp, Gustavo Padovani, explica que essa tendência de séries que abordam grandes crimes reais é internacional e tem crescido bastante no Brasil. E se tornou um bom negócio para as plataformas. “Quando existe uma audiência já consolidada, os canais compram o direito de produção. E a escolha vem da observação de demanda que cada tema desperta nas redes sociais.”

A psicologia explica. Será?

A professora de Psicologia Social da PUC-Campinas, Rita Khater, comenta que o interesse por esse tipo de produção é um comportamento social muito comum. “As pessoas gostam de séries verídicas e se interessam por assuntos de crimes e violência”. Os motivos são vários, explica. A questão da empatia – por sentir a dor do outro – e da solidariedade com a vítima é uma delas. Entender a violência como forma de prevenção é outra razão: ‘me interesso pela desgraça para me prevenir da desgraça’”.

De modo geral, existe um comportamento do ser humano de se interessar mais por tragédias do que por coisas boas, comenta Rita. Ela lembra que isso é bastante usado nas novelas, que aumentam suas audiências com o clima de tragédia e deixam para o final os beijos, abraços e conciliações, que prendem menos a atenção. Outro fato lembrado pela psicóloga é a chamada Síndrome do Urubu, ou seja, a tragédia gera o alívio do “ufa, ainda bem que não foi comigo!”.

Mas, sem dúvida, a prática das redes sociais em naturalizar as tragédias tem uma grande influência no interesse popular pelos crimes, afirma Rita. As redes tiram a sensibilidade das pessoas, porque existe uma superexposição de toda intimidade e eventuais crueldades da sociedade, o que justifica de certa forma o interesse maior pelas séries verídicas mais do que pela ficção.

Maratonando 

As indicações do especialista Gustavo Padovani (www.instagram.com/guspado) procuram abordar diferentes plataformas, pagas e gratuitas, com séries que têm conquistado audiência. O gênero true crime (crime verdadeiro) já existe no Brasil há alguns anos, mas está sendo cada vez mais explorado em diversos formatos: podcast, séries e livros. Confira cinco indicações imperdíveis:

O Caso Evandro

O projeto Caso Evandro nasceu como um podcast do grupo AntiCast, se tornou uma série documental e um livro. Ocorrido em 92, o caso aborda o assassinato brutal de uma criança. Ele desperta um interesse enorme até hoje por seus mistérios e complexidades: a investigação envolve tortura em grupo, provas falsas, incêndios criminosos, injustiças criminais, crianças desaparecidas e conspirações políticas.

Onde encontrar: Globoplay, livrarias virtuais e Spotify / Spreaker

Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime

Série conta a história de Elize Matsunaga que, em 2012, matou o marido, o empresário Marcos Kitano Matsuna, dono da marca de alimentos Yoki. O crime ganhou grande repercussão pela crueldade. Elize deu um tiro na cabeça do marido, cortou o corpo e distribuiu as partes em vários pontos de uma estrada próxima à cidade de São Paulo. A série traz longo depoimento de Elize, posição dos advogados e amigos próximos. São quatro episódios de 50 minutos cada.

Onde encontrar: Netflix

Praia dos Ossos

Praia dos Ossos é um podcast do grupo Radio Novelo e aborda o assassinato da socialite Angela Diniz em 1976. Assassinada por Doca Street, o crime ganhou notoriedade por, em um primeiro momento, inocentar o seu algoz. A mudança dos rumos do caso em seu segundo julgamento influenciou os rumos jurídicos da criação do feminicídio no Brasil. Extremamente bem-produzido, seus direitos já foram comprados para virar uma ficção.

Onde encontrar: Spotify / Spreaker

Bandidos na TV

Bandidos na TV é a primeira série de true crime brasileira da Netflix e seu roteiro parece uma ficção – mas não é. Wallace Souza era um apresentador de um programa amazonense do começo dos anos 2000 chamado Canal Livre e encomendava assassinatos para poder criar matérias e subir a audiência. O sucesso do seu programa por quase uma década, o levou a ser eleito como deputado estadual.

Onde encontrar: Netflix

Vampiro de Niterói

Produzindo pela Mov.doc e Terra Bruta, Vampiro de Niterói é uma série documental que aborda a história do serial killer, Marcelo Andrade. Ele confessou o assassinato de 13 meninos em 1991 e bebia o sangue de suas vítimas. O conteúdo aborda a infância de Marcelo, a investigação ao redor dos assassinatos e explora os aspectos psicológicos que o levaram a cometer esses crimes.

Onde Encontrar: Canal da Uol no YouTube - https://bit.ly/vampironiteroi

 

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Cibele Vieira / Caderno C