Publicado 19 de Julho de 2021 - 18h42

Por especial para o Estadão

Por Danilo Casaletti

 Certa vez, Luiz Melodia e a esposa foram rejeitados em uma pousada na Bahia por racismo

Divulgação

Certa vez, Luiz Melodia e a esposa foram rejeitados em uma pousada na Bahia por racismo

Logo nos primeiros minutos do documentário Todas as Melodias, que estreia nesta segunda, 19, na programação do canal por assinatura Curta!, o diretor Marco Abujamra coloca o compositor Jards Macalé e a cantora e atriz Zezé Motta lado a lado. Moradores do mesmo prédio no Rio, eles relembram Luiz Melodia (1951-2017). O encontro puxa uma das narrativas do filme, que trata das composições do homenageado.

Como a letra de Juventude Transviada em mãos, eles parecem, mesmo em contato com uma das canções mais conhecidas do cantor e compositor carioca, se surpreender com a genialidade do amigo em comum. Macalé - a quem Abujamra já havia dedicado o doc Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal (2008) - chama atenção para os versos "uma mulher não deve vacilar". "Que conselho maravilhoso!", exclama Macalé, para, logo em seguida, cometer uma indiscrição.

Zezé, que em 2011 gravou o álbum Negra Melodia, só com canções de Macalé e Melodia, diz que, às vezes, não entende muito bem o que Melodia quer dizer nas letras. "Mas eu gosto!", completa. Aliás, ele e Zezé aparecem juntos no palco, em uma imagem de arquivo dos anos 1970, em uma performance de total catarse em Negro Gato.

O poeta Waly Salomão (1943-2003), em outro importante resgate do filme, surge em uma entrevista do fim dos anos 1970, concedida nas dependências do Circo Voador, no Rio, explicando a obra de Melodia. Em referência aos versos fragmentados das músicas do compositor ele diz: são as quebradas do morro, as saídas inesperadas, as bocas e os becos.

A viúva do compositor, Jane Reis, que foi casada com Melodia por 40 anos, lembra que foram Waly, Hélio Oiticica e Torquato Neto que o levaram do morro - ele nasceu no São Carlos, no bairro do Estácio - para a cidade. Em Jane, está outro caminho percorrido pelo documentário: o do afeto.

"A Jane é uma protagonista também. Foi algo muito natural. Ela fala sobre o relacionamento afetivo deles e eu percebo que essa afetividade está presente nas canções de Melodia", diz Abujamra. Em uma das cenas, Jane diz que o amor não acabou com a morte do compositor. Em outra, ela mostra que a calça que está vestindo tem outra casa para abrigar o botão quando o marido queria usá-la.

Jane também revela a terceira narrativa do filme: a do racismo. Ela lembra que, certa vez, ela e Melodia foram rejeitados em uma pousada na Bahia, já tarde da noite. Os dois tiveram de dormir em um banco de praça. A família do compositor conta que o preconceito também impediu que Melodia convivesse com seu primeiro filho.

"Não tinha como não tocar nessa questão. Estamos em um momento delicado da discussão sobre o lugar de fala. Eu questionei se era o meu papel, como branco, falar sobre o racismo. Mas eu não podia omiti-lo. Essa foi uma batalha muito grande ao longo da carreira do Melodia, mesmo ele sendo uma figura muito respeitada no universo artístico brasileiro e mundial. O racismo no Brasil é tão violento que nem o artista, que cria uma persona para além desse julgamento, consegue quebrar essa atitude imbecil", diz Abujamra.

O próprio Melodia aparece em imagens de arquivo falando sobre o preconceito do qual ele e seus músicos eram vítimas. "A Globo disse que o Oberdan (Magalhães, arranjador) não podia usar tamancos", conta, sobre a participação deles no Festival Abertura, de 1979, com a canção Ébano.

Abujamra não fez nenhuma entrevista com Melodia para o documentário - filmado em 2019, depois da morte do artista -, mas conta que chegou a conversar com ele sobre o projeto. "Ele ficou muito feliz, mas, logo depois, adoeceu", conta o diretor. O compositor morreu, em 2017, aos 66 anos, vítima de um câncer na medula.

Por opção de Abujamra, o documentário traz poucas entrevistas. De depoimentos colhidos para o filme, juntam-se a Jane, Macalé e Zezé, as irmãs de Melodia e seu primeiro filho. Arnaldo Antunes, Céu e Liniker declaram sua admiração pelo compositor, além de apresentarem canções do homenageado. "Prefiro buscar outras formas de contar a história. Não gosto de fazer muitas entrevistas. Não há teóricos musicais no filme. Só pessoas que tiveram uma relação afetiva muito forte com o Melodia", afirma o diretor.

Gal Costa, nome essencial na vida do compositor - foi ela quem o lançou com a canção Pérola Negra no histórico show Fatal, de 1971 -, aparece em número musical extraído de seu DVD Estratosférica, de 2017. A Waly cabe contar, em cena de arquivo, como a música chegou até a cantora.

O próprio Melodia aparece em números musicais gravados em shows no Brasil e no exterior. Com imagens restauradas de uma visita do compositor ao Morro de São Carlos nos anos 1980, o documentário Todas as Melodias mostra que, além de afeto, sua música fala muito sobre o Brasil de ontem e de hoje.

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especial para o Estadão Danilo Casaletti