Publicado 30 de Junho de 2021 - 16h26

Por Delfin / Caderno C

Fa é mais do que grafemas e fonemas

Delfin

Fa é mais do que grafemas e fonemas

Nos anos 1970, as comédias de situação clássicas de televisão envolvendo famílias, aos moldes de clássicos como Papai Sabe Tudo (Father Knows Best), estavam morrendo para dar lugar a dramas mais modernos e coloridos. O mundo ideal no interior de uma casa estadunidense estava se modernizando, em intenções e espírito. Duas séries, no início daquela década, buscavam resgatar ainda a alegria daqueles tempos teoricamente mais simples e felizes: A Família Dó-Ré-Mi (The Partridge Family) e A Família Sol-Lá-Si-Dó (The Brady Bunch). Ambas foram grandes sucessos junto ao público, geraram sequências e derivações e, embora elas possam soar bastante cafonas ao público atual, sua influência foi tremenda. Mas este texto não é para falar delas e, sim, dessa sílaba órfã, quase renegada, que foi esquecida ou ignorada pelos responsáveis brasileiros por títulos de filmes e séries televisivas. E justo ela, que é a sílaba protagonista da palavra "família"!

Quarta nota musical da escala diatônica, aquela a que estamos acostumados no Ocidente, Fa é uma das poucas a possuir sua própria clave, que é utilizada para representar as notas mais graves. Tal clave foi criada apenas porque, nas oitavas mais baixas de um piano, não há correspondência na clave de Sol, muito mais popular. Tanto é que não é qualquer instrumento que a usa: ela está restrita a instrumentos com vozes graves, como o contrabaixo, o fagote e o trombone. Alguns a conhecem como androclave, ou a clave masculina das notas musicais, mas isso pode ser debatido.

Segundo estudo psicológico publicado em 2014 por pesquisadores brasileiros, homens são sonoramente mais estimulados que as mulheres quando expostos a Fa, em comparação com as notas Ré e Lá. Se esse estímulo é negativo ou positivo, isso ainda está para ser determinado em estudos posteriores.

Fa, no entanto, se propunha a estimular positivamente as pessoas em geral. Mas não no Ocidente e, sim, no Oriente. Especificamente na China. Lá, Fa é conceito filosófico, um que versa sobre a lei, a lógica e a ética. Na filosofia de Han Fei Zi, da escola legalista, a única fonte de Fa era o Rei, e apenas ele poderia determinar os parâmetros da lei e pretendia um desapego ao privilégio e uma sociedade em harmonia, não mantendo nem mesmo altos funcionários do Estado acima desta lei. Fa preconizava, na escola Moísta, testes que buscavam atestar o pensamento, a validade e a aplicabilidade do conceito, bem como foi um modelo para o desenvolvimento do uso do raciocínio dedutivo em lógica, por meio da analogia - base da lógica filosófica chinesa. Após a unificação da China, por volta dos anos 200 antes de Cristo, o moísmo entrou em declínio, mas conceitos como Fa foram incorporados e adaptados ao Confucionismo, que resiste até hoje.

]Entre o céu e a terra, entre a música e a vã filosofia, a viagem de Fa ultrapassa milênios de história e passa por momentos constrangedores, como quando foi utilizada como sigla pela Forschungsamt, a agência de inteligência e criptoanálise do Partido Nazista. Segundo David Kahn, autor do livro Os Espiões de Hitler, Fa era melhor descrita como sendo "a mais rica, a mais secreta, a mais nazista e a mais influente" de todas as agências de criptoanálise alemãs. Apenas a inteligência francesa tinha algum conhecimento sobre o que acontecia naquele ambiente, deixando o resto dos aliados em quase total obscuridade. A agência foi criada, segundo relatos, para dar ao governo e ao partido no poder os mais profundos conhecimentos sobre os pensamentos, sentimentos e aspirações do povo alemão, algo que auxiliou imensamente na instalação e suporte popular ao 3º Reich. Atualmente, Fa também é a sigla de um partido fascista espanhol.

Mas essas pequenas manchas na trajetória de Fa como sigla na história humana não devem invalidar todo o percurso. Fa significa muito mais. Na União Soviética, país que derrotou o nazismo na Segunda Guerra Mundial, era a força aérea de defesa da nação. Na Argentina, Fa representa as ferrovias do país. Na África do Sul, uma companhia de aviação. Na Inglaterra, a associação de futebol nacional. Para os iranianos, Fa é utilizada como sigla na nomenclatura internacional padrão da língua persa (ou farsi). Fa também é uma câmera da Nikon, o ácido fólico e uma agência governamental em Taiwan.

Fa foi uma unidade de medida utilizada pelos escoceses, até que o sistema inglês lhes fosse imposto por decreto. Antes do século 18, uma milha escocesa equivalia a 320 Fa, e uma unidade Fa equivalia a 5,6479 metros. No mundo árabe, até hoje, Fa é uma letra do alfabeto que, na maioria das vezes, é utilizada como prefixo e quer dizer, grosso modo, "então" ou "daí". Na China imperial, foi o nome de um importante imperador, o penúltimo de sua dinastia, que governou há quase quatro mil anos. Fa também é uma cidade francesa e uma marca alemã de produtos de higiene pessoal.

Para os escaladores, Fa é uma sigla particularmente importante. Ela representa a primeira ascensão (em inglês, First Ascent, ou apenas A Primeira) no mundo do montanhismo e designa tanto a escalada original registrada ao topo de uma montanha como a primeira vez em que se abre um caminho para alcançar o cimo ou um trecho particularmente desafiador de uma escalada. Quem opta pelo caminho de Fa ao subir uma montanha são apenas os verdadeiros exploradores, e é ainda mais difícil se a construção desta via de acesso for em pleno inverno, devido ao elevado risco. A escalada ao Mont Blanc, montanha mais alta da Europa, foi a primeira Fa da história, há exatos 335 anos.

A viagem de Fa, como se vê, atravessa a história da nossa existência, em todos os cantos do planeta. Onde houver uma boca para falar, uma sílaba para ser pronunciada, com certeza Fa estará por lá, presente, influenciando a vida das pessoas de um modo que ela, mesmo que tivesse consciência, jamais perceberia. Ao ouvirmos seu som - e seu tom, graças ao solfejo -, seremos impactados de algum jeito. Alguns de modo corriqueiro, outros de modo decisivo. Estes últimos continuarão a levar Fa a outros recantos do mundo, a novas famílias, a novas histórias, dignas desta sílaba irrequieta.

Boa viagem, Fa.

Escrito por:

Delfin / Caderno C