Publicado 20 de Junho de 2021 - 12h20

Por Adriana Giachini / Caderno C

Padilha compôs a peça Invocatio nº 01 em 2005.

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Padilha compôs a peça Invocatio nº 01 em 2005.

Uma das mais famosas frases do filósofo francês Jean Paul Sartre (1905-1980), um grande divulgador do existencialismo, é: “O importante não é o que fazemos de nós, mas o que nós fazemos daquilo que fazem de nós.” Seu contexto fundamenta-se, evidentemente, nos princípios de uma corrente filosófica que debate e estuda, desde a metade do século passado, questões relacionadas ao significado e propósito da existência humana, a partir da brevidade da vida.

Ou seja: é refletir sobre a trajetória humana, considerando a iminência da morte. “Sartre escreveu no fim de sua vida que a existência humana é um fracasso. Não tenho essa visão derrotista, mas trago comigo muitos dos questionamentos dos existencialistas sobre as razões pelas quais nós nascemos, e então passamos a existir, já sabendo que iremos morrer”, diz o compositor campineiro Marco Padilha, entre entrevista ao Caderno C.

A conversa, com esta repórter, tem como ponto de partida a apresentação, na última terça-feira (dia 15), de um concerto do violoncelista brasileiro Antonio Meneses, em Trieste, na Itália. No programa, obras de Johann Sebastian Bach, no qual foi interpretada a peça Invocatio nº 01, composta por Padilha em 2005.

Invocatio

“É uma composição minha que fiz como encomenda de um projeto do Antono Meneses que selecionou seis brasileiros, convidados para criarem um preambulo para cada uma das seis suítes para violoncelo de Bach. Eu fiz para a número 6”, recorda o compositor. “O Meneses escolheu este Invocatio para o retorno dele as apresentações presenciais. Esta mesma obra, ele já tocou em muitos países.”

Invocatio dá a largada para um bate-papo recheado de referências que, de forma natural, chega até Sartre e outros nomes do existencialismo que, há anos, é inspiração do processo criativo de Padilha. O diálogo, então, é não só sobre música clássica, mas também sobre “vai e vem da vida” neste momento de pandemia, em uma espécie de ciclo que resgata o passado na construção do presente deixando ainda a dúvida: o futuro será diferente?

“Em março do ano passado, nós, brasileiros, nos vimos em casa e eu, como muitos artistas, entrei em um momento de reflexão interna. De repente, não se tratava só da pandemia, mas de um país desestabilizado politicamente, e de tantas mudanças na vida de todos. E nesse cenário eu percebi que muitas obras minhas do passado seguiam atuais”, conta Padilha.

Il Lamento

Como exemplo, ele cita um vídeo feito pelo violista Jessé Máximo Pereira, em 2020, com imagens que remetem a uma pandemia, pelo mundo, tendo como fundo, a interpretação a peça para viola clássica, Il Lamento (O Lamento, em português).

“Eu escrevi, em 2001, uma sinfonia concertante, chamada Das Vozes Esquecidas, com três movimentos, um deles, também chamado Il Lamento, e Ab Irato (Em estado de Ira) e Libera Me (em latim, significa em português liberta-me). São também composições reflexivas e extremamente atuais, mesmo 20 anos depois.”

Atualmente, Padilha está compondo a peça Portrait 3 - Cerimônia do Adeus, que deve terminar ar até o final do ano. Trata-se de uma continuidade de duas obras anteriores, feitas em 2018/2019 – antes da covid-19.

A primeira delas, chamada Portrait 1 - Physis (Retrato da Natureza, em português) foi composta para Antonio Meneses. A segunda Portrait 2 -Palavras de Aflição foi escrita para o violoncelista norte-americano Lars Hoefs, um dos grandes divulgadores da música clássica brasileira na atualidade.

O Grito

Ambas, que são para violoncelo e piano, falam da relação do homem com a natureza, o constante movimento da vida e as transformações do Planeta. A segunda é também baseada no quadro O Grito, de Edvald Munch, que remente ao desespero humano.

Já na vida pós-pandemia, Padilha se debruça a processo de compor aquela que encerrará a trilogia, Portrait 3, inspirado em pensamentos da francesa Simone de Beauvoir. “Quando Sartre morreu, Simone escreveu: já é belo que nossas vidas tenham podido harmonizar-se por tanto tempo, um pensamento famoso dela registrado no livro A Cerimônia do Adeus”, explica Padinha.

“Tem a ver muito com o momento atual, com tantas mortes. O desespero da perda da vida. Quando vemos tantas pessoas que estão bem, adoecem e morrem tão rapidamente, por conta do vírus, sem terem a chance de refletirem sobre sua existência. É um momento de aquietação para reflexão”, diz ele que completa: “Importante dizer que ao citar Simone não estou sendo comunista. Não tem a ver com ideologia política, embora essa histeria política atual me incomode bastante”, desabafa.

Trajetória

Nascido em Campinas, Marco César Padilha conheceu o piano apenas aos 15 anos. Na época, comprou uma revista sobre a vida de Beethoven, que vinha acompanhada de um LP com a primeira sinfônica do compositor. “O impacto daquela obra na minha vida foi tão grande que eu comecei a estudar piano com a irmã de um amigo”, recorda-se.

Posteriormente, foi aluno de Orlando Fagnani, que o ajudou a descobrir sua veia para composições. A estreia, em 1976, foi com uma suíte floral para o universo infantil, com obras que traziam títulos inspirados em nomes de flores.

Aperfeiçoou-se em piano com Isabel Mourão e foi também aluno de Almeida Prado. Formou-se na primeira turma de composição de música erudita na Unicamp. A carreira sempre ocorreu em paralelo ao trabalho como radialista – sendo bastante conhecido como âncora do programa Intermezzo – e relações públicas.

Concursado da Unicamp, onde atua como coordenador do Centro de Convenções, foi Padilha quem montou o cerimonial da Câmara de Vereadores de Campinas, Foi ainda relações públicas da Secretaria de Estado da Saúde, quando criou um projeto de arte cultura e lazer em hospitais rede pública que proporcionou a montagem de bibliotecas infantis. Já suas composições são reconhecidas e executadas em diversos países.

Escrito por:

Adriana Giachini / Caderno C