Publicado 19 de Junho de 2021 - 12h40

Por Cibele Vieira/ Do Caderno C

Cena do filme Central do Brasil, de Walter Salles

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Cena do filme Central do Brasil, de Walter Salles

Embora atravessando um período de dificuldade econômica e de vazio na política cultural, o cinema brasileiro é o segmento das artes que mais tem se posicionado sobre o que acontece na vida do País. Essa é a análise do crítico e pesquisador Alfredo Suppia, professor de Cinema Brasileiro e Roteiro na Unicamp, para quem a vivacidade desse segmento pode ser comprovada pelos novos talentos revelados e as produções de curta-metragem premiadas nos festivais do mundo inteiro.

Um dos fatores que favoreceram a produção – melhorando custos e agilidade – foi o acesso à tecnologia digital a partir dos anos 2.000. O mercado mudou, pondera, pois fazer filmes para salas de exibição ficou mais difícil, pela falta de recursos ou política cultural. Entretanto, houve uma ampliação nos modos de exibição com canais como o YouTube (a partir de 2005) e as plataformas de streamings (a partir de 2010), impulsionando produções mais especificas, séries e outras iniciativas.

Os primeiros passos

Imagens da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, feitas no dia 19 de junho de 1898, são apontadas por historiadores como o primeiro registro oficial feito com tecnologia do cinematógrafo no Brasil. Por isso, a data foi escolhida para marcar o surgimento do cinema brasileiro.

O italiano Afonso Segreto tinha feito um curso sobre a operação do cinematógrafo em Boudeaux, França, e, de lá, trouxe um equipamento para o Brasil. Na chegada, ainda a bordo do navio Brésil, ele gravou as imagens em movimento da Baía. Os irmãos Afonso e Paschoal Segreto se estabeleceram no ramo do entretenimento e, nos primeiros anos do século 20, fizeram dezenas de filmes.

Luz, Câmera, Ação

Os avanços do cinema brasileiro só ocorreram no início do século 20, com a expansão da energia elétrica, possibilitando a implantação de salas de exibição. Pequenos proprietários de salas faziam suas produções com equipes locais, criando obras de ficção que dramatizavam casos de grande repercussão, como O Crime da Mala (1908), de Francisco Serrador.

A partir de 1916, os cinejornais se popularizaram com documentários produzidos sob encomenda por empresas ou governo. A partir dos anos 1920, surgiram os polos de produção regionais em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul, mas também uma intensa atividade em cidades do interior como Campinas, Ouro Fino, Guaranésia e Cataguases, entre outras.

A criação dos estúdios

Com um interesse crescente do público pela sétima arte é criado em 1930 por Adhemar Gonzaga, o Cinédia (primeiro estúdio brasileiro), profissionalizando a produção dos filmes nacionais. Na mesma época, a inovação tecnológica permitiu a inserção de som nas películas e começa a produção de comédias musicais, as populares chanchadas. Um dos cineastas mais ativos da época foi Humberto Mauro. Nos anos 1940/50 sugiram os estúdios Atlântida (RJ) e Vera Cruz (SP).

Na segunda metade do Século 20 foram surgindo estúdios menores, com cineastas independentes como Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Ruy Guerra entre outros. Os movimentos mais expressivos da época (1960/70) foram o cinema novo e o cinema marginal, com grande guinada criativa. Um exemplo desse ciclo é O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, o primeiro filme brasileiro a concorrer ao Oscar.

A Era da Retomada

A crise econômica e a alta do dólar nos anos 80 afetaram a produção nacional, que permaneceu estagnada no início dos anos 90. Mas mudou quando a Lei do Audiovisual entrou em vigor, na chamada Era da Retomada. Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati, é a primeira empreitada nessa reestruturação da criatividade. Também vieram Walter Salles (Central do Brasil-1998), Fernando Meirelles (Cidade de Deus-2002), Hector Babenco (Carandiru-2003) e José Padilha (Tropa de Elite-2007), que deram projeção internacional ao cinema brasileiro.

Nesse período, as escolas de cinema e os cursos universitários também se multiplicaram, surgindo uma nova geração de cineastas jovens que impulsionaram a produção de curtas-metragens e participação em festivais, relata o professor Alfredo Suppia, da Unicamp. Uma mudança observada é a preocupação de comunicação com o público, influenciando a produção de filmes de gênero, de ação e aventura, além das comédias. Entre os sucessos dessa era estão os populares Se Eu Fosse Você (2006), de Daniel Filho, e Minha Mãe É Uma Peça (2013), de André Pellenz, com Paulo Gustavo.

Curta brasileiro em Cannes

O curta-metragem brasileiro Cantareira foi selecionado para a mostra Cinéfondation, do Festival de Cannes (França), que acontece de 6 e 17 de julho. Do cineasta Rodrigo Ribeyro, o filme estará na seleção destinada a inspirar e apoiar a nova geração de diretores. O enredo acompanha a trajetória de Bento e Sylvio, respectivamente neto e avô. Eles têm raízes na Serra da Cantareira, em São Paulo, mas vivem um paradoxo entre a metrópole e a natureza. O curta propõe reflexões sobre as rápidas transformações causadas pela ideia do desenvolvimento econômico, mostrando de a mudança em curso hoje naquela região.

Nos cinemas de Campinas

Dois filmes nacionais estão em cartaz esta semana nas salas de cinema de Campinas: o drama Veneza e a comédia Quem Vai Ficar com Mário?.

Veneza tem direção de Miguel Falabela e cria ilhas de sensibilidade no meio da barbárie. Teve sua estreia no Festival de Cinema de Gramado (2019), onde foi premiado pela melhor direção de arte (Tulé Peake) e melhor atriz coadjuvante (Carol Castro).

Quem vai ficar com Mário? é um filme nacional dirigido por Hsu Chien e baseado na obra italiana Mine Vaganti (traduzido como O Primeiro Que Disse). Apresenta temas como homofobia, machismo e representatividade de forma didática e divertida.

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Cibele Vieira/ Do Caderno C