Publicado 09 de Junho de 2021 - 15h41

Por Correio

Obra do artista Edward Hopper

Reprodução

Obra do artista Edward Hopper

A escritora Katia Marchese acredita que a poesia seja possível e acessível a todos. Sua crença, agora, torna-se verdade agora com a realização de oficinas gratuitas de criação literária voltada às mulheres em situação de vulnerabilidade social de Campinas. Os encontros começam hoje com transmissão on-line e Katia é quem banca a tecnologia necessária: “O acesso à internet é através de chips de pré-pagos comprados por mim.”

“A poesia não é um privilégio de poetas ou escritores. Ela nasce de pensamentos, ideias que vão se formando. A poesia está na cidade, em uma cena, em uma imagem. E é exatamente esse exercício poético que vamos explorar nos quatro encontros que teremos este mês", diz a escritora, que lançou, recentemente, o livro de poemas Mulheres de Hopper.

A obra poética foi premiada pelo Programa de Ação Cultural 2019 (Proac) do governo do Estado de São Paulo. Katia Marchese foi a única vencedora da Região Metropolitana de Campinas (RMC). As oficinas têm subsídio financeiro proveniente desta premiação e é um compromisso assumido pela autora ao receber ao prêmio.

O desejo de transformar a realidade social por meio da poesia vem dos mais de 30 anos que Katia trabalhou como assistente social junto a mulheres em situação de vulnerabilidade na periferia de Campinas. “A poesia é meu processo de ler e agir no mundo”, afirma. “Dentro de seus espaços, as mulheres sobrevivem, resistem e enfrentam a cultura machista e misógina disfarçada de mito do amor romântico”, completa.

Oficinas

São quatro encontros semanais, de 90 minutos cada. Através de rodas de leitura das poesias que compõem o livro de Katia e conversas sobre a intimidade feminina, a atividade visa proporcionar maneiras e formas de expressar sentimentos e desejos, “muitas vezes reprimidos pelo realismo social em que essas mulheres estão inseridas”, afirma a escritora.

A primeira oficina acontece hoje com as moradoras do Distrito de Nova Aparecida, região Norte de Campinas, assistidas pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Organização Social Promocional Tia Ileide (CPTI), instituição que atua no atendimento e na promoção da garantia dos direitos de crianças, adolescentes e de grupos familiares.

Além da leitura, análise e reflexão das ilustrações e referências literárias que inspiraram o livro Mulheres de Hopper, as oficinas contam com produção de poemas e fotografias, entre outras atividades. Ao final de cada encontro, será produzido um pequeno livro (plaquete) – em formato impresso e digital - que será apresentado durante um sarau literário, ainda sem data definida.

Estas rodas de conversa, de acordo com Katia, irão estimular as participantes a refletirem sobre a solidão urbana em que as mulheres, em geral, estão inseridas, dilemas cotidianos, crenças e valores, para que elas possam se reconhecer e refletir sobre seus espaços íntimos de força e criação.

"A descoberta da própria voz e a afirmação da independência no eterno exercício de dentro para fora podem ajudar no rompimento com as rígidas estruturas patriarcais em que todas nós estamos imersas. Acreditamos que os recolhimentos desses novos aprendizados possam colaborar na construção de novas sociabilidades e sororidade entre as mulheres. O desdobrar de janelas e quadros abrirá novas imagens e tenho a certeza de que todas nós iremos compor a poesia coletiva e socialmente necessária", garante a escritora.

Feminismo na veia

A inspiração de Katia Marchese nas obras do pintor norte-americano Edward Hopper para escrever seu livro veio de uma intensa identificação com este artista que retratava as mulheres em situações de solidão, “voltando seu olhar sobre os processos íntimos e alquímicos de desconstrução do imaginário feminino, entre as décadas de 30 e 60”, ela afirma.

“Mulheres de Hopper é uma reflexão poética da vida cotidiana de mulheres comuns, como nós, trabalhadoras, mães, filhas, mergulhadas em sentimentos muitas vezes sufocados, que buscam contar sua história”, explica a escritora, que observa: “O livro foi lançado em um momento no qual a mulher mostra sua força diante da pandemia e do isolamento, quando todos somos obrigados a ficar no nosso próprio mundo, espaço que o sexo feminino conhece bem.”

Graduada em Serviço Social, Katia tem trabalhos publicados em várias antologias, como Senhoras Obscenas I e III (Benfazeja, 2017, e Patuá, 2019), Poesia em Tempos de Barbárie (organizado por Claudio Daniel, Lumme, 2019), entre outros, além de poemas em periódicos inclusive no exterior (Jornal Tornado, Portugal) e revistas literárias como Literatura e Arte.

Agende-se

Oficinas literárias Mulheres de Hopper, online e gratuita

Dias 9 (hoje), 16, 23 e 30 de junho,

das 14h às 15h30

www.katiamarchese.com.br

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