Publicado 02 de Junho de 2021 - 18h53

Por Cibele Vieira/Correio Popular

Turino: livro que mostra iniciativas e vivências culturais de 11 países resultou de convite do papa Francisco e de convênio com a Academia de Ciências do Vaticano

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Turino: livro que mostra iniciativas e vivências culturais de 11 países resultou de convite do papa Francisco e de convênio com a Academia de Ciências do Vaticano

A cultura latina é uma grande fonte de renovação e esperança para a humanidade. É isso que se observa com a leitura das histórias garimpadas pelo historiador Célio Turino junto a povos de 11 países latinos, que usam a rede de cultura e fraternidade como alavanca para mudar suas realidades. Seu novo livro, "Por Todos os Caminhos: Pontos de Cultura na América Latina", produzido pela Edições Sesc, vem sendo divulgado sem um lançamento oficial por conta da pandemia. Tão logo seja seguro, ele pretende promover encontros para leitura presencial em Campinas, cidade onde nasceram as primeiras experiências de pontos de cultura.

Para o livro, Turino viajou ao lado do irmão e fotógrafo Mário Miranda. Eles documentaram as experiências mais diversas, sempre tendo a cultura comunitária como ponto de encontro. O autor comenta que os formuladores de políticas públicas sempre trabalham a ideia de carência, daquilo que a população não tem. “O ponto de cultura é o inverso disso. Ele busca encontrar as capacidades de transformação da realidade dentro das próprias comunidades e articula isso em uma rede de cultura viva.” Célio Turino é historiador, escritor e gestor de políticas públicas, e atualmente mora em São Paulo.

Gestão compartilhada

Embora nascido em Indaiatuba, Célio Roberto Turino de Miranda viveu desde a infância em Campinas, onde cresceu, estudou e trabalhou. No período em que foi Secretário de Cultura na cidade (1990/92) fomentou a criação de 13 Casas de Cultura com gestão compartilhada pelas comunidades. Entre elas, a Casa de Cultura Tainã, que existe até hoje. Cerca de uma década depois, com a alavanca do Ministério da Cultura (MinC), o projeto foi reaplicado em nível nacional.

Entre 2004 e 2010 Turino foi Secretário de Cidadania Cultural no MinC, quando coordenou o Programa Cultura Viva, de descentralização cultural. Nesse período foram instalados 3.500 pontos de cultura no Brasil, em 1.100 municípios, que geraram 30 mil postos de trabalho. A iniciativa alcançou cerca de oito milhões de brasileiros, sendo aproximadamente 800 mil em atividades regulares, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério da Economia. A partir de 2011, esse modelo de descentralização cultural se espalhou e foi adotado em 17 países.

Um pedido especial

Em uma das viagens de apresentação do modelo de pontos de cultura brasileiro, na vizinha Argentina, Turino conta que o arcebispo de Buenos Aires se interessou pelo trabalho. Posteriormente, já empossado como Papa Francisco, convidou o autor para visitar o Vaticano, e sugeriu que Turino escrevesse um livro e fizesse um filme relatando o que viu. Em 2016 foi assinado um convênio com a Academia de Ciências do Vaticano, que originou o livro "Por Todos os Caminhos". Esse apoio permitiu ao autor viajar aos 11 países latinos para ouvir, observar e buscar as histórias escondidas por trás de cada experiência da rede de resistência cultural comunitária.

Usando o raciocínio geométrico: dá-me um ponto de cultura e moverei o mundo, o livro é dividido em duas partes. A primeira, aborda os conceitos e a teoria desta cultura do encontro e registra as diferentes formas de pensamento. Na segunda parte são narradas as histórias garimpadas em cada país visitado. Seu texto entrelaça pequenas histórias de pessoas e comunidades, com relatos sobre características do país, sua ancestralidade, seus valores. O autor observa que muitos pontos de cultura latino-americanos são espaços de cura social em regiões afetadas pela violência. Escrever sobre o Brasil foi a parte mais difícil: “é que nesses dez anos que fui me deslocando para outras regiões, pude ver que aqui os processos estão se perdendo, enquanto nos demais países estão evoluindo”.

Garimpo de boas histórias

As experiências compartilhadas no livro são concretas e reais “para as pessoas verem que não é algo utópico, é algo que acontece”. Ele relata como exemplo a educação do povo Totonaca, do México, onde conheceu o sistema de educação para a autonomia e desenvolvimento de dons individuais. A escola autogerida ajuda o jovem a descobrir seu dom entre os saberes do povo, pois acredita que a felicidade só acontece quando cada um encontra seu dom e o usa para servir a comunidade. O historiador comenta que esse sistema é o oposto da nossa forma de educação mercadológica, que adestra as pessoas dentro de uma lógica produtivista.

Outro exemplo relatado no livro é o capítulo "Medellín: Fragmentos Biográficos de uma Cidade", onde conta sobre a cidade mais violenta do mundo até o início dos anos 1990, dominada pelo tráfico de drogas, com uma média de 380 pessoas assassinadas por 100 mil habitantes. A partir de gestões políticas e culturais, foram construídos jardins, espaços de convivência e transporte por teleférico, com uma intervenção comunitária muito potente. Em 2014, a cidade colombiana foi considerada a mais inovadora do mundo e o índice de violência reduzido a 19 homicídios por 100 mil habitantes.

Do Brasil, Turino relata experiências de formação de pessoas com deficiências intelectuais e histórias do fundo da alma brasileira, garimpadas na periferia das grandes cidades, entre os povos indígenas e sobre nossa ligação com a África, apresentando como os brasileiros transitam entre tradição e invenção, num mundo de contrastes e contradições. Em breve Célio Turino deverá se dedicar a produção de uma série para contar essas histórias.

Anote

"Por Todos os Caminhos: Pontos de Cultura na América Latina", de Célio Roberto Turino de Miranda, 380 páginas, Edições Sesc SP. Versão impressa: R$ 90, e-book: R$ 45 em livrarias e sites

Escrito por:

Cibele Vieira/Correio Popular