entrevista

Cultura de paz

Monja Coen, que já foi jornalista e viveu dias de estresse, hoje passa tranquilidade em sua rotina e com Leandro Karnal lança livro em Campinas

Kátia Camargo
16/04/2018 às 13:55.
Atualizado em 23/04/2022 às 15:56
Monja Coen, que já foi jornalista e viveu dias de estresse, hoje passa tranquilidade em sua rotina e com Leandro Karnal lança livro em Campinas (Divulgação)

Monja Coen, que já foi jornalista e viveu dias de estresse, hoje passa tranquilidade em sua rotina e com Leandro Karnal lança livro em Campinas (Divulgação)

De fala calma, olhar profundo e sempre sorridente Claudia Dias Batista de Souza, 70 anos, conhecida como Monja Coen, chama a atenção pela serenidade e alegria que transmite enquanto fala, seja pessoalmente ou em centenas de vídeos no Youtube. Antes de ser Monja Coen ("Co" significa "um só, única" (como monos em latim) e "en" significa "círculo perfeito" ou "compleição, perfeição"), Claudia trabalhou como jornalista no jornal A Tarde. Na década de 1970 foi morar em Los Angeles, na California, trabalhando como funcionária local do Banco do Brasil. Nessa época iniciou práticas regulares de zazen no Zen Center of Los Angeles.Na próxima quarta-feira Monja Coen estará em Campinas, junto com Leandro Carnal para lançar o livro O Inferno Somos Nós: Do Ódio à Cultura de Paz, no teatro Iguatemi , no shopping Iguatemi Campinas. Ela conversou com a Metrópole por email. Revista Metrópole - Como foi debater com Leandro Carnal sobre a cultura da paz para o livro O Inferno Somos Nós: Do Ódio à Cultura de Paz e como surgiu o tema? Monja Coen - Foi um privilégio e uma honra poder conversar e ouvir o professor Leandro Carnal. Ele é uma das minhas referências de inteligência e sabedoria no Brasil atual. O tema surgiu a partir de uma reflexão sugerida pela editora Papirus, frente ao cenário atual da humanidade. Não é apenas no Brasil que grupos de pensamentos opostos estão se enfrentando. Está acontecendo no mundo todo. Exemplos mais extremos são os jovens do chamado Estado islâmico. Também acontece nos Estados Unidos da América do Norte e em vários países da Europa. Pessoas que eram amigas, aparentadas, se tornam inimigas. Afastam-se, fecham o coração, a mente, e muitas vezes passam a odiar quem pensa diferente delas. O que a senhora acredita ser necessário para alcançar uma sociedade menos agressiva e mais acolhedora? Primeiro precisamos nos dar conta de como estamos? sentindo, pensando, falando e nos manifestando. É preciso encontrar um centro de equilíbrio - tanto físico como emocional. Educação, instrução, sabedoria - que é o mesmo que compreensão correta, compaixão - capacidade de compreender o outro e reconhecer esse ser humano como alguém sagrado e merecedor de respeito e cuidado. Meu caminho é o Zen. Zen significa meditar, conhecer a si mesmo. Conhecer a si mesmo é conhecer a mente humana, o corpo humano e suas inúmeras possibilidades. É conhecer a vida e o mundo que nos cerca. Desde a menor partícula até o maior espaço. Perceber-se interligada a tudo e a todos. Desse local, se a pessoa for devidamente esclarecida, poderá tomar decisões menos emocionais e violentas. Podem ser decisões emocionais, mas baseadas na ternura, no cuidado, no respeito e na amorosidade. Isso é treino. Esse treinamento deve estar presente desde a pré-escola - conhecer a si mesmo para poder utilizar e desenvolver aspectos menos agressivos de comportamento. Aprender a dialogar, a ouvir para entender, a encontrar elementos inteligentes e hábeis para defender seus pontos de vista. Não se trancar em seus pareceres. Não se congelar. Manter a mente capaz de observar em profundidade e até mesmo mudar de ponto de vista. Essa flexibilidade está ameaçada. E sabemos que a inflexibilidade causa rupturas, desafetos, que podem levar a ações mais violentas, chegando a crimes e até mesmo guerras. Por isso é importante esse alerta que Professor Karnal faz ao conversar comigo sobre o assunto. A senhora acredita que hoje somos mais intolerantes do que éramos com as outras pessoas? Não somos mais intolerantes do que éramos antes. Houve grandes, massacres, genocídios. Houve a Inquisição, houve a Escravidão, houve a Primeira e a Segunda Guerra. Na Antiguidade também se cometeram horrores. Mas também houve pessoas que procuraram conciliar e cultivar uma Cultura de Paz. Acredito que a intolerância, através dos meios de comunicação atuais e da invisibilidade que alguns meios permitem, faz com que muitos se manifestem anonimamente, revelando o lado sombrio do ser humano. Precisamos ativar o lado bom, a luz, o discernimento correto, a capacidade de incluir e respeitar quem não pensa como pensamos. Temos agora uma oportunidade que não tínhamos antes, como humanidade. Sabemos, vimos, constatamos que somos apenas um planeta menor, numa constelação pequena, girando em torno de uma estrela de quinta grandeza e que estamos todos na mesma condição. Não seria lindo se passássemos a nos auxiliar mutuamente para que todos pudessem viver com suficiência e plenitude? O despertar da consciência superior dos seres humanos pode nos levar a esse estado. Desde criança somos induzidos a ter medo para obedecer. O medo é mesmo algo necessário? O medo existe. É essencial para a sobrevivência. Se não tivermos medo do abismo, vamos pular sem paraquedas. Se não tivermos medo da cobra peçonhenta seremos envenenados. Agora, educar através do medo é errado. Assustar as crianças é errado. Mostrar a elas como sobreviver, é certo. Precisamos proteger nosso corpo e nossa mente. Ter medo de deixar de sentir compaixão é bom. Ter medo de sair à ruas não é bom. Manifestar-se sem medo é bom,desde que não haja violência. Não falar, não se manifestar por medo, não é bom. Precisamos avaliar a função do medo na vida humana. E dizemos que o maior presente que podemos dar a alguém é o não medo. Das pessoas não terem medo de você. Como era sua vida antes do zen budismo? Fui jornalista profissional, trabalhei em back stage com rock'n roll nos USA. Também fui professora de inglês para iniciantes e iniciei práticas meditativas na Califórnia, de uma forma sistemática. Tornei-me monja. Passei a ser um pouco mais paciente. Observar a minha história pregressa sem rancores, traumas, tristezas ou temores. Passei a assumir minha responsabilidade por minha vida e pela vida de tudo e todos que me cercam. Passei a meditar e me alegrar com a existência. Qual o significado de raspar os cabelos? Raspar a cabeça é fazer como fizeram e fazem todos os Budas. É sair de um locus social estabelecido. É renunciar ao superficial. E se comprometer a seguir o Caminho de Buda. Nossa ordem Soto Shu assim sugere. Há outras ordens budistas onde não raspam os cabelos. O importante é viver sem apegos e sem aversões - tarefa cotidiana de observação. Qual a sua opinião sobre a internet, as mídias sociais? Acho maravilhosa a tecnologia que nos permite estar em contato à distância, como agora. Precisa ser entendida e bem utilizada.  A senhora sempre ressalta em suas falas a importância do olhar para o lado bom e para o belo da vida. Como é possível desenvolver este olhar? Onde há sombra, há luz. ’Quão mais clara e brilhante for a lua, mais densa e profunda é a sombra do pinheiro’. Essa é uma expressão Zen. Tudo está interligado. Tudo é treino. Habilidades a serem desenvolvidas. Amaciar-se com o amanhecer, enternecer-se com o anoitecer. Contar estrelas no céu, não pisar nas formigas trabalhando na Terra... É tão lindo viver. É tão bom ser humana e ter a capacidade de apreciar a vida em suas múltiplas etapas e momentos. Por que reclamar tanto e resmungar tanto? Abram o olho de sabedoria e apreciem suas vidas.

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