Formado no Bugre, o ex-zagueiro Carlinhos quer abastecer o time profissional com jogadores de qualidade
"Por baixo, nossa meta é tentar, por ano, colocar quatro jogadores no time de cima. Se isso acontecer, em três anos, vamos ter pelo menos 12 no elenco. É um sonho, uma vontade, mas não acho impossível que isso aconteça." O audacioso desejo é de Carlinhos. Zagueiro formado no Guarani, ele atualmente exerce a função de coordenador técnico das categorias de base do clube e tem como pretensão ajudar a repetir o que foi feito em sua época, quando as divisões inferiores do Bugre abasteciam o time profissional com jogadores de qualidade.
Carlinhos começou no Guarani ainda criança e, na primeira passagem, ficou até 1996, quando chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira. Retornou em 2004, sem o mesmo brilho do passado. Após pendurar as chuteiras em 2010 no Red Bull, se preparou para ser técnico, mas acabou topando o convite de assumir a base do Bugre no início deste ano.
Em pouco mais de um mês de trabalho, Carlinhos se deparou com uma situação complicada no departamento amador do clube, mas garante que, com muito trabalho, é possível reverter o quadro. "Estamos iniciando um trabalho de reestruturação das categorias de base em virtude de tudo o que aconteceu no passado. A gente lamenta, mas não podemos usar isso como desculpa. Há grandes valores na base do Guarani e o que queremos é que o jogador que esteja aqui goste da camisa, se identifique com o clube e, depois que chegar no profissional, traga retorno financeiro. O Guarani sempre foi assim e perdeu esse foco. A ideia é fazer com que seja assim novamente", explica o ex-jogador.
Um dos principais objetivos do ex-zagueiro é implantar uma mentalidade integrada em todas as categorias. "Não queremos um sistema tático padrão, mas uma filosofia de trabalho na qual os meias cheguem na área, os laterais apoiem, tudo dentro de uma coerência tática e técnica."
Segundo Carlinhos, interessados em defender o Guarani não faltam. O que falta é uma mentalidade correta para evitar que empresários sucateiem a base do clube. "Em menos de um mês, avaliamos duzentos meninos só aqui, fora alguns outros parceiros que pedem para fazer avaliações em outros lugares usando o nome do Guarani. A marca é forte, bem-vista, mas temos que trabalhar direito, tomarmos cuidado porque existem muitos aproveitadores nesse meio. É triste a gente saber que o Guarani forma e quando o jogador se profissionaliza é todo fatiado. A gente precisa de parceiros, mas a maior parte tem que ser do Guarani", esclarece.
ESTILO PAIZÃO
Além de acompanhar a rotina das categorias de base dentro de campo, Carlinhos também atua como uma espécie de "paizão" dos cerca de 90 jogadores que integram as equipes sub-15, sub-17 e sub-20 do Bugre. Mais do que os ensinamentos do futebol, ele busca transformar os garotos em cidadãos. "Claro que o objetivo é formar um jogador, mas queremos que saiam daqui cidadãos corretos que busquem ser alguém na vida", afirma.
De acordo com o ex-zagueiro, é um desafio trabalhar com personalidades e estilos tão diferentes. "Vira um negócio de pai para filho. A gente quer que os meninos cresçam, mas cada um tem sua cabeça. Um é mais explosivo, outro mais introvertido e você tem que falar a coisa certa para cada um. Com alguns é preciso xingar para que ele reaja, outros você pode perder com uma palavra mais dura. São essas as adversidades, mas a resposta é muito positiva. Eu dou liberdade para eles falarem o que quiserem e eles percebem isso", conta.
Para Carlinhos, esse relacionamento próximo chega a ser tão ou mais importante do que o dia a dia de treinamentos. "Hoje todo mundo sabe o que precisa fazer no treino, entende o sistema tático. De repente, esse algo a mais, essa proximidade humana se torna o diferencial de muitos times que se tornam vencedores", completa o coordenador técnico, que estipula um prazo para que os resultados comecem a surgir. "O resultado não será imediato, tende a demorar um ano ou até dois para que as coisas aconteçam do jeito que a gente planeja.