Publicado 09 de Novembro de 2021 - 8h52

Por Sérgio Castanho


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"Há muita gente de valor que nunca escreveu um livro nem mesmo leu um; gente valorosa que nunca plantou uma árvore nem jamais trepou numa; e muita, muita gente de extremo valor que nunca teve filho, como Machado de Assis"

Com todo o pé atrás que tenho pela chamada sabedoria popular, vez que outra chamo-a para dar o pontapé inicial às pílulas que, boticário amador, manipulo para curar os pacientes leitores do desfastio da vida nesses tempos de reclusão por pandemia. Hoje é a vez do repetido dito popular segundo o qual o ser humano só vale por escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho.

Não concordo com o extremismo axiológico contido nesse dito. Só tem valor quem cumpriu as três prescrições? E o meu amigo Tião que plantou milhares de eucaliptos, teve uma penca de filhos e no entanto, mourejando de sol a sol na fazenda, não pôde frequentar a escola e jamais conseguiu escrever um bilhete, muito menos um livro? Claro que o Tião vale muito. Não terá seu nome vinculado a uma cadeira da academia. Mas as árvores que plantou fornecerão a massa do papel em que se imprimirão os livros, de sua coautoria, por que não?

Há muita gente de valor que nunca escreveu um livro nem mesmo leu um; gente valorosa que nunca plantou uma árvore nem jamais trepou numa; e muita, muita gente de extremo valor que nunca teve filho, como Machado de Assis.

Tive a dita de preencher os três quesitos. Posso então ir à praia de Barequeçaba e, Demóstenes redivivo, gritar a plenos pulmões para o mar que ruge à minha frente: sou um homem! Serei mesmo? E se eu tiver sido indiferente à miséria do corpo dos miseráveis ou à miséria do espírito dos pobres de espírito? Há que se rever o acerto desse provérbio.

Enquanto não for feita essa revisão, acho que não há mal em dizer que tive um filho, que plantei uma árvore e que escrevi um livro, na verdade mais de um livro, mais de uma árvore e mais de um filho. Mas não vou falar de minha literatura, de meu bosque e de minha progênie. Digam sobre isso os críticos do que escrevo, os agrônomos do que planto e os pacientes, clientes e jurisdicionados de meus filhos, a médica, o engenheiro e a magistrada.

Hoje falarei em geral de livros, de árvores e de filhos.

Pílula um - De livros. "Bendito aquele que semeia livros e faz o povo pensar", dizia o poeta, que a seguir exaltava o poder do livro de multiplicar ideias e sentimentos. Tão grande foi sempre considerado seu poder que ainda na antiguidade se criou um espaço para guardar livros, organizá-los e gerar mais ciência e arte a partir deles: a Biblioteca de Alexandria, que perdurou sete séculos, desde sua criação em 280 a.C. Localizava-se na cidade de Alexandria, norte do Egito, oeste do Nilo, margem do Mediterrâneo. Era enorme. Segundo alguns pesquisadores, seu acervo chegou a ter setecentos mil volumes, em geral rolos de papiro.

No meio de sua existência septissecular, quase foi consumida por um incêndio atribuído a soldados de Júlio César. Mas resistiu ainda algum tempo depois das chamas quase a devorarem. Sobre ela e sobre muito mais a respeito de livros é obrigatória a leitura da obra de Roger Chartier, da qual destaco: A ordem dos livros e A aventura do livro: do leitor ao navegador, este último rico nos textos, riquíssimo nas ilustrações.

Pílula dois - De árvores. Além de ter plantado uma araucária e um pau-brasil na terrinha que tive às margens do Atibaia, pouco lidei com árvores e delas pouco sei. Quem sabe é meu primo José Roberto Parra, o Parrinha, que dirigiu a ESALQ da USP em Piracicaba, e o meu amigo Luís Carlos Guedes Pinto, o Guedes, que foi ministro da Agricultura e estudou nessa escola uspiana. Mas sei que a árvore é reverenciada e ganhou até uma data em sua homenagem, o dia da árvore. É cantada em prosa e verso por dar sombra e frutos. Em crônica recente aludi à Árvore de Cracóvia, a cuja sombra os parisienses do século dezoito trocavam mexericos sobre o rei, seus ministros, suas amantes. Uma das mais famosas árvores é a genealógica, mas aqui já saímos da botânica e entramos na história da família. Os poetas veneram a árvore. Virgílio cantava o prazer de viver à sombra de uma árvore, a faia. E Goethe, quando ministro da cultura em Weimar, além de versos criou um belíssimo parque, cheio de árvores.

Pílula três - De filhos. Quando frequentei a faculdade de Direito aprendi que os filhos, de acordo com o Código Civil de 1916, poderiam ser ou naturais ou legítimos. Coisa curiosa: os filhos legítimos não seriam naturais? Acaso seriam artificiais? Feitos de plástico ou de borracha? Por outro lado, os filhos naturais não seriam legítimos? Seriam ilegítimos? Tão ilegítimos quanto os do senhor K que um dia, ao acordar, viu que era uma barata? Justiça agradável, ou curiosa, dizia Pascal, para quem a mesma coisa era verdade de um lado da fronteira e mentira de outro lado. Deixemos para lá o velho código civil de mais de cem anos e sua esdrúxula classificação dos filhos. O importante a dizer é que ninguém se obriga a ter filhos, mas, tendo-os, é obrigado a lhes dar carinho, proteção e educação, jamais os abandonando como fez Rousseau com os seus. Pior: depois de os abandonar, escreveu um livro de sucesso, o Emílio, em que ensina como deve ser a boa educação. Melhor fez Machado de Assis que, não os tendo tido, escreveu nas Memórias Póstumas de Brás Cubas: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria". Júlio César também não teve e o que adotou participou de seu assassinato. E o imperador Adriano, que igualmente não os teve, queria, de acordo com suas Memórias escritas por Marguerite Yourcenar, adotar seu escravo favorito Antínoo e dele fazer seu sucessor. Mas a morte do amado escravo alterou os planos de Adriano, que acabou adotando Antonino, a quem coube o cetro romano ao expirar o imperador.

Escrito por:

Sérgio Castanho