Publicado 14 de Setembro de 2021 - 8h50

Por Sérgio Castanho

Numa das pílulas que passei a meus pacientes - opa! O cronista virou médico? Não. Pacientes aqui são os leitores, que com paciência leem a bula de minhas pílulas - pois bem: numa das pílulas de maldizer do meu último espasmo crônico prometi retornar a um dos maiores mestres na arte de dizer bem, ou bem dizer, o maldizer das personagens de sua história cultural: Robert Darnton. Como promessa é dívida, e não dúvida, aqui estou para pagá-la.

Pílula um - Quem é Darnton. Robert Darnton nasceu em Nova Iorque em 1939. Filho de jornalistas, graduou-se em história pela Universidade de Oxford. Aprofundou-se na história do velho mundo e passou a ensiná-la em Princeton, no seu país natal, e depois em Harvard, cuja biblioteca dirigiu. Dominando como poucos o idioma de Flaubert, dialogou com as fontes gaulesas e produziu vasta obra sobre a história cultural da França. De passagem, deve ser dito que, pelo menos no modesto sentir do cronista, Darnton é o mais talentoso autor da moderníssima história cultural. Na mesma área brilha também o francês Roger Chartier. Haveria um certo estranhamento entre ambos? Inclusive por ser o estadunidense especialista em França, berço de Chartier? Ou isso é mero fuxico de ociosa erudição?

Pílula dois - O maldizer como tema. A história política da França, do antigo regime da monarquia absoluta à revolução que mudou o mundo, do terror revolucionário ao império bonapartista, da restauração que Balzac olhava com desconfiança à multíplice república que hoje nos chega e que já flertou até com o nazismo no governo de Vichy do marechal Pétain - essa história está recheada de muito maldizer. A tal ponto que a oposição falar mal dos que governam e estes apontarem os desvios dos que se opõem tornou-se o tema predileto de Darnton.

Pílula três - Livros bem ditos. "Bendito aquele que semeia livros", poetava Castro Alves. Também acho. Só que faria uma exigência para bendizer os autores e editores: que os livros sejam bons e bem ditos, isto é, bem escritos. É o caso de Darnton. Ele tem plena consciência de que escrever ciência, seja história, seja física, exige de quem escreve um perfeito domínio da linguagem e um apuro do estilo que desde Petrônio se chama elegância. Todos os livros que conheço de Darnton são assim, são elegantes.

Pílula quatro - Malfeitos: de beijos a massacres. Desci das estantes de minha biblioteca, hoje reduzida em número mas mantida em qualidade, os únicos seis livros de Darnton que tenho. Em todos eles, a mesma atitude de examinar o fato histórico não só como "feito de tijolo e argamassa" (expressão dele em História e Literatura), mas como construção no mundo simbólico, geralmente a partir do que vulgarmente é considerado "malfeito". Massacrar inocentes gatos é um malfeito, sem dúvida. Mas quando o massacre é feito pelos trabalhadores de uma tipografia francesa na primeira metade do século dezoito; e quando as vítimas eram os gatos de estimação da mulher do dono da gráfica; e enfim quando os trabalhadores eram maltratados, humilhados, mal pagos e espezinhados pelo patrão e a matrona; então se entende como a revolta dos operários, não podendo ser uma agressão física aos que os exploravam, acabou sendo um malfeito contra os bichanos matronais, numa sedição simbólica. É isso que faz o historiador cultural: pesquisar, no mundo dos símbolos, que é o mundo cultural, movimentos sociais que não deixam de ser reais por se tecerem na teia simbólica. É isso o que faz Darnton em O grande massacre de gatos, livro em que narra, além desse, "outros episódios da história cultural francesa". É também isso o que faz ele em O beijo de Lamourette. Em 1792, três anos depois de deflagrada sua revolução, os deputados se engalfinham na assembleia legislativa "numa luta de vida ou morte pelos destinos da França". Um deles, o bispo Lamourette, propõe um gesto de pacificação: que os deputados se beijem e jurem amor e fraternidade. Beijaram-se de fato e de fato juraram amor fraterno. Um mês depois deu-se a grande insurreição de 10 de agosto e dois meses após as juras de amor ocorreram os Massacres de Setembro. No meu Petit Larousse o verbete amourette consta como "amor passageiro".

Pílula cinco - Descrença no bem? Se alguém interpretar a discrepância entre o que se diz e o que se faz como uma descrença radical no bem e uma aposta na vitória do mal, pode desde já desembaçar o binóculo para poder ver melhor. Darnton não é profeta do apocalipse nem da parúsia. Não é profeta. É historiador. Como Cecília Meireles, que, não sendo alegre nem triste, é poeta. Vou apenas arrolar, nesta pílula derradeira, os títulos dos outros quatro livros de Darnton que estão aqui sobre a mesa: O diabo na água benta: ou a arte da calúnia e da difamação de Luís XIV a Napoleão; Edição e sedição: o universo da literatura clandestina no século XVIII; Boemia literária e revolução: o submundo das letras no Antigo Regime; e Os dentes falsos de George Washington: um guia não convencional para o século XVIII. Este último, apesar de ter no título o nome do "pai da pátria" estadunidense, trata da história europeia no século XVIII e em especial, nas palavras introdutórias de Darnton, de "seu tema mais importante, o processo do Iluminismo".

Para tratar das Luzes, e do clarão que até hoje nos afasta das trevas, prometo mais pílulas na próxima crônica

Escrito por:

Sérgio Castanho