Publicado 21 de Dezembro de 2021 - 9h07

Por Luiz Carlos R. Borges

Ilustração

Divulgação

Ilustração

Leio Crônicas do Atibaia, de autoria do amigo Sérgio Castanho, Editora Pontes, 2021, capa primorosa assinada por Egas Francisco, outra figura canônica de nossa cultura.

Antes, durante e depois da leitura, fico a refletir sobre a natureza peculiar desse gênero literário: algo como um relato, ou depoimento, acerca de acontecimentos cotidianos, escrito através de uma linguagem notadamente coloquial.

Mais do que a minha, modestíssima, é essa a opinião dos doutos; são inúmeras, mas me atenho a uma: a do preclaro e erudito professor Massaud Moisés, que, numa de suas obras fundamentais, Dicionário de Termos Literários (Cultrix, 1978), estende-se por duas páginas sobre o assunto.

Ao tratar especificamente sobre o que seria a crônica moderna, ensina que essa prática literária remonta ao século 19, divulgada por meio de folhetins e, mais tarde, de jornais, já como “expressão literária híbrida, ou múltipla, uma vez que pode assumir a forma de alegoria, necrológio, entrevista, invectiva, apelo, resenha, confissão, monólogo, diálogo, em torno de acontecimentos reais e/ou imaginários”.

Porém, pensando bem, para se entender o que vem a ser o gênero, basta ler o Castanho.

Seu livro abarca três períodos distintos, em que as crônicas foram originariamente publicadas em órgãos da imprensa local, as mais recentes no Correio Popular: 2019-2020, 1984-1989 e 1997-1998. Ao longo de todos esses anos, os textos abordam temáticas múltiplas, fiéis ao rol de conteúdos próprios do gênero.

É ele mesmo, aliás, que procura imprimir sua definição do ofício de cronista: “Cronista tem que falar do que vê, do que ouve, do que toca, daquilo que o impressiona, daquilo que fere seus tímpanos, daquilo que enche sua vista, dos sons, das cores, dos cheiros e dos sabores que experimenta” (No país da macaxeira).

Daí seus textos se desdobrarem em assuntos familiares, literários, filosóficos, políticos, citadinos (e Campinas ocupa notório destaque em seus escritos), bucólicos (não por acaso, são as ninfas ou sereias do rio Atibaia que primordialmente o inspiraram…), as diversas modalidades do prazer, como as viagens (Natal, Belém do Pará, o Oeste profundo, o mundo, sonhos, reminiscências). Ou seja: seu trabalho abrange todas as nuances do mundo observável, desde a minúscula cena do cotidiano até as reflexões mais eruditas. E, invariavelmente, escrevendo como quem dialoga numa roda de amigos.

Pois é isso: mesmo quando incursiona pelo universo da denominada “alta cultura”, Sérgio Castanho não abandona jamais a fluência e a coloquialidade. Escreve sobre esses temas mais elevados com a naturalidade própria de quem o faz com conhecimento de causa, com pleno domínio das matérias, as mais complexas: o tom é o mesmo, quer quando discorre sobre Aristóteles, quer quando descreve as festas de Natal em família.

A esse propósito, em duas de suas crônicas se debruça sobre a questão da cultura popular, uma delas, sob esse exato título, e a seguinte, intitulada “O toucinho na panela: para apimentar o desenvolvimento do tema”, convoca para o centro do debate os testemunhos do pensador italiano Antonio Gramsci, do educador Paulo Freire e de sua cozinheira Cida; outra crônica, escrita ainda na década de 1980, revela que já àquele tempo Castanho procurava esclarecer e enaltecer a obra de Gramsci, lembrando que sua aura “ganha contornos quase religiosos devido ao padecimento pessoal na prisão de Mussolini”: na cela, sem livros que pudesse consultar, “Gramsci pensou em quase tudo e escreveu sobre quase tudo, nos manuscritos mais tarde reunidos sob o título de Cadernos do Cárcere (Gramsci explica).

É com essa mesma dicção de “conversa ao pé do fogo” que analisa um soneto de Shakespeare, recenseia escritores e filósofos alemães como Goethe, Fichte e Schlegel; tece recorrentes alusões às mais diversas obras do onipresente Eça de Queiroz; destaca ainda uma vez o cotidiano, mas já como tema de estudos eruditos; e demora-se a resgatar o fenômeno das beguinas, religiosas que em plena Idade Média se propuseram a vivenciar uma existência autônoma, distantes não apenas desse insensato mundo, mas também da interferência da hierarquia eclesiástica (As Beguinas).

Torna-se dificultoso destacar este ou aquele texto. Mas - e aqui intervém a inescapável subjetividade do leitor - são especialmente primorosas, além de muitíssimas outras crônicas, como a concisa e comovente Tempo de Nascer, as exemplares Contando Histórias, Duas Mesas e Sinfonia do Atibaia, as crônicas “de formação” como Escrever, que coisa antiga!, As palavras, Bons Tempos, Foi uma revolução, O Pátio dos Leões, o par de A Duras Penas que encerram o volume e que terminam com um “finale” pleno de serena sabedoria: o cronista se recolhe à beira do Atibaia, mascando a ponta de um capim à sombra das faias, sentindo-se “compelido a povoar com vida as formas que anseiam por ganhar alma” – como que doando ao livro uma certa circularidade, de incessante trânsito cidade-campo, de contínuo retorno às origens, às margens do rio primordial, férteis e fundadoras.

Ainda quanto a esse ponto me parece relevante registrar o caráter “campiniano” que permeia toda a obra: a cidade se faz presente, indireta ou diretamente, mediante da reminiscência de fatos, pessoas e locais. Não por acaso, o autor é nativo da Rua Costa Aguiar (e quais habitantes da cidade desfrutariam desse mesmo privilégio?). Resgata, assim, a memória de numerosas figuras humanas com quem convive ou conviveu, confrades de viver, e de lugares que frequentou e que constituem algo como uma galeria de instituições míticas da cidade: o Colégio Culto à Ciência, o Centro de Ciências, Letras e Artes, a Universidade Católica e seu Pátio dos Leões, o Bosque dos Jequitibás, a Gráfica Palmeiras (ali se imprimiu, em 1965, meu primeiro livrim, Poema de Lyrico das Dores), o Restaurante Marreco (onde se servia um aperitivo célebre, o marrequinho). Por essas características, o livro de Castanho se reveste de uma particular relevância em relação à cidade natal, por sua dimensão documental, memorialística e mesmo histórica.

Justifica-se, assim, o apelo do Roberto Goto (outro notável escritor de Campinas, cuja obra clama por mais amplo reconhecimento): por que o Sérgio Castanho não se volta a um novo empreendimento, registrando num livro de memórias todas as estórias amealhadas em seus amorosos percursos pela cidade? Será, com certeza, uma obra memorável.

Escrito por:

Luiz Carlos R. Borges