Publicado 20 de Junho de 2021 - 11h15

Por Do Correio

Não é só a Amazônia que está sendo destruída: é também a mata Atlântica, um bioma bastante próximo de nós. Na verdade, nós estamos incluídos em sua área. Era uma cobertura verde luxuriante, colorida, exótica para os invasores que aqui chegaram no limiar do século 16.

Os primeiros moradores da terra conseguiram preservar o verde e conviver pacificamente com a natureza. Bastou a chegada da civilização para começar a derrubada.

Primeiro foi o Pau Brasil, utilizado para pintura e praticamente extinto em toda a orla. Em seguida, o cultivo da cana-de-açúcar, prosseguindo com o algodão. O resultado é uma devastação nefasta e pela qual as futuras gerações terão enorme razão em nos considerar ecocidas.

Somos, sim, exterminadores do futuro. Ainda que não sejamos os manejadores das motosserras, nem das correntes que dois tratores arrastam tragando frondosos troncos, a mostra arrogante de um poder mortífero, somos coniventes com tudo. Não só com a destruição daquilo que a natureza levou séculos ou milênios para criar, mas ajudamos a sepultar a estrutura normativa edificada durante décadas, neste Brasil que já foi promissora esperança ecológica para um planeta em transe. Concordamos, com o nosso silêncio, com a entrega da última grande floresta tropical, para a cupidez criminosa que extrai madeira de lei, explora garimpo e continua a praticar o genocídio dos povos indígenas.

0 levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica detectou que entre 2019 e 2020 foram destruídos 13053ha da mata Atlântica, um valor 14% maior do que o observado entre 2017 e 2018.

Os Estados que mais destruíram a floresta, foram Minas Gerais, Bahia, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. A mata foi substituída pela pecuária. Uma tristeza constatar que Estados que se aproximavam do desmatamento zero como São Paulo, regrediram nestes últimos anos. Verdade que destruição “zero” nunca houve. Mas era assim classificada aquela inferior a 100 hectares. Nosso Estado de São Paulo deixou de destruir uma média de 43 e passou para 218 ha no período 2019 e 2020, exatamente o espantoso salto de 402% de maior destruição.

São Paulo tem uma característica singular, que é a pressão imobiliária. Cresce a devastação em torno aos mananciais das grandes cidades e no litoral, com os especuladores explorando justamente e como marketing, aquilo que ajudam a desaparecer . Fenômeno presente em, Jundiaí, por exemplo, cuja serra do Japi cede espaço para inúmeros empreendimentos, que já sufocaram o seu entorno. Pobre mata Atlântica, bioma que se espraia por 17 Estados brasileiros e que, por estar na orla litorânea, é a mais atacada dentre todos os demais. E sua morte não é acompanhada da repercussão que cerca a Amazônia, pois a grande floresta tropical é considerada reserva planetária e atrai mais holofotes.

Não falta legislação, mas falta juízo, tanto do governo como da sociedade. O constituinte contemplou, como um dos biomas protegidos na Constituição, a mata Atlântica. De que serve isso, ser bioma protegido pela própria Carta Cidadã, se ela tende a perecer por uma série de causas?

Nada impediu que em abril de 2020, o ministro que atua contra o meio ambiente tenha despachado concessão de anistia a proprietários rurais que destruíram áreas sensíveis da mata Atlântica. Houve necessidade de atuação do Ministério público federal e, só por causa disso, a medida prejudicial foi suspensa.

Ninguém parece notar que a mata Atlântica abriga mais de 20 mil espécies de plantas , incluindo a maior diversidade de árvores por hectare do mundo e tem mais de 1.300 espécies animais. Por isso mesmo, é um dos ecossistemas de maior prioridade global para a restauração ambiental.

Será preciso chamar novamente a comunidade Internacional para mostrar ao Brasil que ele está numa rota suicida? É urgente que infância e juventude conclamem autoridades, a mídia, a Universidade e o Terceiro Setor, principalmente as empresas, que hoje atendem ao conceito ESG, para reverter essa rota perigosa e verdadeiramente delitiva.

Cada município tem obrigação, não apenas de evitar a continuidade do extermínio, mas de fazer urgente replantio das espécies dizimadas. A restauração tem de ser o tema de maior urgência para o bioma.

O Ministério Público estadual tem expertise em salvar a natureza, quando ela sofre ataques provindos de setores poderosos, aqueles que conseguem contratar doutrinadores do direito ambiental para defendê-los, quando chamados a responder por insanidades junto ao sistema justiça.

A recuperação da mata Atlântica não é só uma questão ecológica. É uma questão econômica. É uma questão social: os milhões de informais e desempregados podem ser preparados e se tornarem agentes ambientais. Poderão dar lição ao mundo, quando mostrarem o que o País destruidor tem condições de se converter.

Tudo é viável se houver vontade política e consciência comunitária da sociedade civil. Ao Brasil resta esperar que seu povo se converta e deixe de teimar em matar sua galinha dos ovos de ouro.

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Do Correio