Publicado 21 de Agosto de 2021 - 9h08

Por Jorge Alves de Lima

No mês de dezembro de 1890, Campinas já havia enfrentado e superado a segunda investida da febre amarela, a serpente assassina. A população já andava sequiosa de bons espetáculos musicais e teatrais no palco do Theatro São Carlos.

Daí, a alegria e o contentamento dos moradores da cidade, quando leram o anúncio publicitário da estreia de Giulietta Dionese, violonista italiana com apenas 14 anos de idade. Ela tinha feito grande sucesso na Europa e nos Estados Unidos, onde havia merecido rasgados elogios dos críticos musicais e do “The New York Times”.

Giulietta Dionese havia ganhado o primeiro prêmio do Real Conservatório de Nápoles. Era também sócia honorária dos conservatórios de Madrid e Valência na Espanha, e sócia de mérito na Academia Musical de Lisboa e do Clube Arthur Napoleão da cidade do Porto em Portugal.

No Brasil, a menina prodígio também estava obtendo consagrado sucesso.

Sua apresentação no Rio de Janeiro, em 15 de julho de 1889, foi empolgante e contou com a presença do venerável Imperador Dom Pedro II. Poucas pessoas sabem, contudo, que o brilho dessa noite foi empanado por um atentado à bala sofrido por nosso imperador, quando se retirava do Theatro Santana. Felizmente, os disparos apenas danificaram a estrutura da carruagem do imperador, deixando-o incólume.

Na noite de estreia da violonista, na então capital do império, encontrava-se, também, o consagrado poeta simbolista Cruz e Souza (João da Cruz e Souza), sentado na plateia. Emocionado e comovido pela beleza da música da jovem italiana, no ato, sentiu brotar a inspiração que extravasou neste belo poema dedicado à artista:

Ah! Giulietta! Os sons do teu violino? Choram, suspiram, rugem como o leão? Lembram sonoro rio cristalino? E tem soluços como um coração?? Ó da harmonia divinal sereia!? Rosas e estrelas e canções de ninhos? Nas cordas do violino que gorjeia? Passam cantando como os passarinhos.?? Não sei que estranho espírito sereno? Para a harmonia essa alma te inspirou? Que dentro dum violino tão pequeno? A música do espaço concentrou!

Em Campinas, a estreia da jovem violonista aconteceu no dia 7 de dezembro de 1890 – domingo – no Theatro São Carlos.

O Theatro abriu as suas portas para receber a sociedade campineira primorosamente trajada. As mulheres chegaram elegantemente vestidas, adornadas de ricas joias incrustadas de diamantes. Os Homens, também elegantes nas suas indumentárias adentravam o salão do espetáculo enfeitado de flores e iluminado com luzes cintilantes. Havia tempo que isso não acontecia, talvez desde a lendária atuação de Sarah Bernhardt no drama “A Dama das Camélias”, em 1886.

O atento repórter do Diário de Campinas, com muita sensibilidade, comentou:

“Tivemos, na noite de anteontem, o agradável ensejo de apreciar esta talentosa menina, uma artista, que ainda na infância, tão prematuramente, se tornou uma exímia executora do maravilhoso e ingrato instrumento, o violino. 

A menina tão formosa faz vibrar os acordes daquele instrumento sublime, arrancando sons encantadores que arrebatam, ora plangentes, ora vertiginosos, em torrentes de harmonia e sonoridade".

Giulietta Dionese começou com a esplêndida fantasia Souvenir de Faust, tirada da ópera, com acompanhamento de piano. A interpretação daqueles magníficos trechos de Gounod teve em Giulietta Dionese uma executora fiel, elegante, e os seus pequeninos dedos, a pousarem sobre as cordas arrebataram o auditório.

Então, novas palmas romperam, sendo a artista chamada à cena e, novamente ovacionada!

Com franqueza confessamos: foi com Um Baile de Máscara, a chave de ouro com que Giulietta fechou a sua maravilhosa soirée musical.

E conosco concordou o maestro Santana Gomes, um violonista de pulso que já havia estado na Itália, aquela nação que encerra o de mais belo existente na música. Ao ouvir ele os últimos acordes que ela tirou do violino, exclamou – Simplesmente genial!

Como no final da primeira execução, foi Giulietta Dionese muito aplaudida e chamada à cena.

Há muito tempo que não vemos uma enchente assim no Theatro São Carlos”.

A população de Campinas encantou-se com a artista Giulietta Dionese, não só pelo seu notável talento artístico, como também por ser apenas ela apenas uma jovem de 14 anos, que se revelava precocemente uma exímia violinista.

Bem por isso, no último concerto programado para o domingo – 21 de dezembro de 1890 – o Diário de Campina noticiou: “Uma comissão integrada por cidadãos ilustres da cidade como o maestro Santana Gomes, Adolfo Lapa, Emílio Grossoni, ao lado da própria artista, percorreram a cidade vendendo ingressos.

Em pouco tempo, eles venderam as 321 poltronas e todos os camarotes.

Dado o limitado espaço jornalístico, distintos leitores e leitoras do Correio Popular, deixamos para o nosso próximo artigo os comentários sobre esse concerto de 21 de dezembro de 1890 e, também, de seu concerto de despedida, em março de 1891, no lendário Theatro São Carlos.

Mais detalhes no nosso livro O Retorno da Serpente. A ilustração é de autoria do meu filho Jorge Alves de Lima Júnior.

Escrito por:

Jorge Alves de Lima