Publicado 19 de Dezembro de 2021 - 10h50

Por Do Correio Popular

O filósofo, escritor e orador português da Companhia de Jesus, Antônio Vieira

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O filósofo, escritor e orador português da Companhia de Jesus, Antônio Vieira

Ao deixar as marcas de suas sandálias franciscanas nas areias escaldantes da praia do Olho d'Água em São Luis do Maranhão, em 13 de junho de 1654, o filósofo, escritor e orador português da Companhia de Jesus, Antônio Vieira, olhou para o mar e se viu pregando aos peixes, tal qual fizera séculos atrás outro grande intelectual, Santo Antônio de Lisboa. Assim nascia o famoso Sermão de Santo Antônio aos Peixes, cujo conteúdo é mais atual do que nunca, uma metáfora perfeita à sórdida desumanidade reinante naqueles tempos, assim como hodiernamente.

"Vós sois o sal da terra", assim começa o sermão do Padre Vieira, numa alusão ao que dissera Jesus, ao comparar os pregadores ao "sal da terra", porque, tal como o sal impede que os alimentos se corrompam, também os pregadores tinham a missão de impedir a corrupção da Terra. Contudo, diante do infortúnio da empreitada, ou seja, diante de tanta corrupção e havendo tantos pregadores, o defeito só poderia ser desses últimos. Ou eles não pregavam a verdadeira doutrina, ou, pregando-a, praticavam ações em desacordo com essa mesma doutrina. Não obstante, o defeito poderia ser dos ouvintes, que não queriam receber a doutrina dos pregadores e preferiram antes seguir as suas ações do que suas palavras. Ora, dizia Padre Vieira, se o defeito fosse dos pregadores, a solução seria seguir o conselho de Jesus, expulsando-os. Mas, sendo os ouvintes os culpados, a única solução seria pregar aos peixes.

Os peixes, como todos devem saber, possuem uma característica muito peculiar. Eles são capazes de ouvir e de não falar. No entanto, a fragilidade da espécie aquática reside na impossibilidade da conversão, mas o que importa, dizia o Padre Vieira, todo pregador já está habituado a essa dor. Depois de reprimir os peixes, o Padre Vieira passa a criticá-los por se comerem uns aos outros e por serem os grandes que comem os pequenos. Não haveria problema algum se a ordem fosse a inversa, ou seja, se os pequenos comessem os grandes. Nesse caso, bastaria um grande para alimentar muitos peixes pequenos. Mas as coisas não são assim. Para saciar um peixe grande, será necessário devorar não cem, mas talvez mil peixes pequenos.

Ao encerrar o sermão, Vieira reconhece que os peixes são superiores aos homens. Os peixes não falam, mas não ofendem a Deus com as palavras. Não entendem, mas não ofendem a Deus com o entendimento. Os homens, sendo seres dotados de razão, respondem mal pelas suas obrigações e, por isso, é melhor ser peixe.

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