Publicado 12 de Junho de 2021 - 12h31

Por Correio Popular

A informação publicada pelo Correio Popular de que o valor (R$ 70 milhões) arrecadado nos últimos 12 meses com multas de trânsito manteve paridade proporcional a anos anteriores à pandemia merece uma reflexão. Com a covid-19, vieram as restrições de circulação de veículos, toques de recolher, suspensão das aulas, fechamento do comércio, bares e restaurantes proibidos de funcionar, eventos cancelados, e por aí vai.

A pandemia deixou um rastro de terra arrasada. Não há um setor, salvo raras exceções, que não tenha sido duramente golpeado por esta tragédia sanitária e econômica. Por mais que tentem explicar o fenômeno, é preciso se debruçar sobre os números e procurar entender os mecanismos que produziram esse resultado. Não se trata de questionar a consistência das informações, mas de fazer uma reflexão sobre o que esses números representam.

Mesmo com uma retração econômica jamais vista na história recente do Brasil e de Campinas, é notável que a quantidade de veículos circulando pela cidade, em plena pandemia, tenha sido suficiente para gerar esse volume de multas. Estamos diante de uma evidência de que Campinas está na contramão da mobilidade urbana contemporânea que prega menos carros nas ruas e mais modais alternativos de transporte, como a bicicleta, por exemplo.

Em 2020, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha aproximadamente 58 milhões de automóveis. Nos últimos anos, a frota nacional cresceu 10 vezes mais do que a população. Com isso, a taxa de motorização no país (número de automóveis para cada 100 habitantes) passou de 19,6 em 2008 para 31,5 em 2018, segundo o Observatório das Metrópoles. Em Campinas, essa proporção é bem maior, são 77 carros para cada 100 pessoas.

Na propaganda, os carros são vendidos como a solução ideal para nossa mobilidade, com rapidez, conforto e segurança. No mundo perfeito da publicidade não existem congestionamentos, buracos nas ruas e sempre há vaga para estacionar. Sem contrariar o legítimo interesse pelo carro próprio, é preciso buscar alternativas.

Assim, o estímulo ao uso de modais de transporte não motorizados, como a bicicleta, é uma ótima escolha. Mas, para isso, são necessárias mais ciclovias e interligar as já existentes. O dinheiro arrecadado com multas de trânsito poderia ser usado para ampliar o sistema cicloviário da cidade. Urge avançar na construção de um novo paradigma de mobilidade urbana que seja socialmente justo e ambientalmente sustentável.

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