Publicado 14 de Novembro de 2021 - 10h06

Por Antônio Contente


Delfin

"Bom, quando cheguei vi no solo que as pétalas ainda não haviam começado a cair. Mas bastaram alguns dias para, ao fresco da manhã de Primavera, constatar que finalmente procuraram o chão"

Mesmo quem gosta muito de goiabas pode não saber que tais frutos nascem no meio de uma flor. Pequena e muito linda, tem as pétalas brancas, alvas, muito mais alvas do que as “hemingwêianas” neves do Kilimanjaro. Num determinado momento tais pétalas caem, e só então os frutinhos aparecem; para o crescimento que, adiante, tantos fascínios vão produzir. Em humanos, passarinhos, maritacas e amantes das maravilhas do efêmero; como o redator destas nem sempre bem traçadas linhas.

Faz pouco, quando cheguei de viagem de alguma demora pelo Delta do Rio Amazonas, mal desci do táxi que me trouxe do aeroporto meus olhos foram logo para o chão da garagem deste tugúrio que me abriga das intempéries. É que, como já contei aqui, no pequeno jardim que corre ao lado, nasceram duas esplêndidas goiabeiras, plantadas por passarinhos. Que todos os anos, a partir de outubro até começos do ano que vai entrar, dão a este velho escrevinhador tantos momentos de prazer, de festa, de doce vagar nas tardes à sombra dos proustianos galhos em flor.

Bom, quando cheguei vi no solo que as pétalas ainda não haviam começado a cair. Mas bastaram alguns dias para, ao fresco da manhã de Primavera, constatar que finalmente procuraram o chão. Tornando-o quase tão branco quanto as encostas do Monte Matterhorn, na Suíça, que todos os anos deslumbra o olhar da minha amiga Cecy Pinto de Oliveira. Sempre a planejar escalada, ainda não feita.

Agora quando escrevo esta crônica as pétalas já foram levadas pelo tempo e pelos ventos. E, no lugar delas, brotaram as frutinhas que em mais um mês e pouco estarão a me fornecer instantes de profundo prazer e deslumbramento. Um deles, ao amarelecer do primeiro fruto, é a chegada das maritacas, verdes aves maiores do que periquitos e menores do que papagaios; conhecidas, na Amazônia Profunda, onde eu nasci, como curicas. Ora, amigos, com que emoção, durante semanas e semanas passo a ter, no grasnar dos referidos emplumados, o meu despertador. Como nestes tempos em que quanto mais o Verão se aproxima mais cedo pinta a luz do sol, pelas cinco horas a rouca cantilena começa. Depois, ao sair para visualizar as espalhadoras do canto, observo que outros passarinhos também passam a percorrer o entorno. O mais comum é um sanhaço, azul como céu lavado após chuvarada, que também saltita pelo beiral do tugúrio ou pelos galhos das árvores. Isso quando nem sei se tal tipo de ave curte goiabas como seu prato predileto.

Uma das coisas em que sempre penso ao experimentar a sagrada dádiva da presença das maritacas quase e entrar por minhas janelas, é para onde elas vão assim que termina a safra. Em principio descobri que parte das aves, no cair da última goiaba, se refugiam para os lados da Lagoa do Taquaral e Bosque dos Jequitibás onde, pela presença de vegetação generosa, encontram alimento. Outra parte vai para a Serra do Moquém, um enclave da Mantiqueira, acolhidas no haras do escritor e pianista Antonio de Pádua Báfero. É que ele e sua mulher, a esplêndida artista plástica artesã Maria Inês, preparam, diariamente, nos jardins do pequeno paraíso, fartas mesas de frutas para os pássaros. Que, comumente, até pousam nos ombros do casal.

Mas agora, para fechar esta narrativa, quero contar que na última safra das goiabas acabei por viver um singelo acontecimento de muita emoção. É que quase ao término da queda dos frutos o esplêndido colega Neldo Cantanti, iluminado repórter-fotográfico que foi um dos melhores que São Paulo já teve, veio, em companhia do professor Odair Borges, a lenda que anda, catar um punhado de goiabas para fazer nobre geleia, receita de sua bisavó. Ele, exímio cozinheiro e doceiro, me disse que já comprara recipientes de vidro para que eu oferecesse porções do divino manjar às nossas colegas campineiras Vivi Pavarini e Marilena Furlaneto, além de outras de São Paulo, as talentosíssimas também jornalistas Olga Vasone, Marlene Jaggi, Manuela Klintowitz, Regina Helena de Paiva Ramos, Helô Machado e Marcia Sauchela. Pois bem, Neldo colheu uma bela quantidade de goiabas, empacotou tudo num enorme saco, e se foi. Todavia, antes de subir à sua casa, parou para café num “butequinho” ao lado do mercado da Barão da Jaguara. Ao ir rapidamente ao toalete deixou a carga sobre o balcão e, ao voltar, alguém tinha levado. De resto nem deu para regresso ao meu tugúrio para repor, pois eu viajei na mesma manhã, com regresso demorado. Bem depois, chateado com o acontecido, Neldo me ligou, dizendo: “É, amigo, furou, pois um lunfa não me deixou fazer o doce. Mas fica para a próxima safra”.

E ela, finalmente, com a queda das pétalas brancas, está chegando. Só que Neldo Cantanti, infelizmente, traído pelo coração, faz alguns meses se foi. E agora, quando a primeira maritaca mandar o seu grasnar, é no antigo colega que pensarei. Oferecendo a ele, que tanto amava a vida, os frutos que logo estarão dourados como o céu de Verão de onde ele nos olha na hora do sol se por. Certamente a bater uma taça de vinho com os deuses que habitam o imponderável.

Escrito por:

Antônio Contente