Publicado 10 de Outubro de 2021 - 9h51

Por Antônio Contente

Cinco horas da manhã, olho no relógio, e o sabiá da aurora já estava cantando. Sento na cama e especulo que o sonoro instante ocorria por ser o meu último dia da atual temporada nesta ilhota no Delta do Rio Amazonas. Fiz rápida conta e concluí que ainda faltavam quatro horas para a chegada do barco que vinha me buscar. Como as velozes lanchas dos amigos não estavam disponíveis chamei, pelo radinho amador movido a pilhas do caseiro, os rapazes do entreposto de Belém. Nas embarcações mais vagarosas a travessia até aqui demora seis horas. Assim, saíram às três da madrugada. Sempre foi desse jeito. Em mais de 30 anos nunca me falharam. E se pintaram alguns breves atrasos isso ocorreu pelo mau tempo sobre a baía. Com ondas de oceano.

Agora, diante do café fumegante, pego um naco do maravilhoso pão artesanal (melhor que os da Toscana) feito pela mulher do caseiro e revejo, mais uma vez, a realidade de que nunca pensei em ficar aqui para sempre. Em tempos passados meu recorde de permanência foi de sete meses. E jamais chegou a ser particularmente amargurante ter que voltar à chamada civilização. A ilha, até por ser um acidente geográfico flutuante, sempre foi uma espécie de boia de salvação em instantes, ou não, de temporais d’alma. Todas as veze em que me banhei nessas águas ou me sequei sob as folhas, me vi a recuperar limpezas interiores; só possível na posse de manhãs com o mesmo tamanho das outras, porém benzidas por insondáveis razões de apaziguamento. Nunca tive, nesta ilha, um instante que não fosse de amor. Com a luz dos guardados nas lembranças; capazes de burilar esperanças, otimista incurável que sou, quanto os ainda a viver...

Esta Ilha é uma maravilha, mas quem disse que a Chácara da Barra, aí em Campinas, também não é? Nas suas ruas, que nos outubros ficam atapetadas pelas pepitas d’ouro das sibipirunas, costumo ter manhãs esplendorosas, tardes formatadas para o amor, o enlevo, e noites de fácil captação dos sentimentos nas dobras das sombras. Claro está que não tenho paisagem exterior como a daqui; contudo, com o que daqui em mim está entranhado sobra à pavimentação de caminhadas nas quais são sempre quase iguais as buscas pelo suspirar do azul das possibilidades.

Terminado o café olho para a baía que se alonga e se desdobra em maré enchente. Diante do jirau lá estão a voar e a se atirar n’água as gaivotas de sempre, aureoladas por este vento d’outubro. Que corre sobre relvas, folhas secas e gravetos, subindo depois para esculpir, nos troncos e nos galhos, o que seja a decoração ideal para a criação de um ambiente que tudo acalma; na síntese das resoluções simples.

No céu muito azul a alvura das nuvens diz que elas estão ali para alvejar rotas construídas com o que ficou dos restos de voos de tantos pássaros que nem precisam ter nomes. E o sol, com o compacto da claridade pela qual passam chispas de luz, certamente espera que algum grande peixe salte sobre as pequenas ondas; para ser prata no dorso de escamas brandas, moedas que poderiam estar em broches sobre os colos de mulheres lindas.

Olho para o telhado da choupana e revejo que os limos se acumularam não como manchas da idade, sim com a certeza de que o tempo tem sido de carícias que as chuvas regam. Não há uma só telha que não receba, ao longo do dia, o bater dos passos de suís, pipiras, sabiás, periquitos, bem-te-vis, rolinhas, tem-tem, cristas-de-galo etc.; e de tudo que significam para a consecução da paz que indicará o lugar dos ninhos.

Há, aqui na Amazônia Profunda, entre tantos pássaros interessantes, um a que chamam de japiim. Não cantam, porém emitem um som bem específico que, com o evoluir da espécie, talvez canto se torne. Pois bem, os japiins fazem ninhos curiosíssimos. São sempre tecidos nas pontas de galhos que se debruçam sobre as superfícies das águas, tanto das baías com dos grandes rios. Os trançados das fibras ficam, assim, pendurados, com formato de peras. Os voadores entram pelo alto e, uma vez no fundo, estão protegidos não só das chuvas e dos predadores. Também dos temporais com ventos fortes que só levarão o ninho se, junto, levarem a árvore.

Olho primeiro para a altura do sol, depois para o relógio. Ainda faltavam uns bons minutos para as nove horas quando avisto, na linha do horizonte, um pequeno, digamos assim, pingo. Pego o binóculo e não tenho nenhuma dúvida: era o barquinho que vinha me buscar. De repente surge a meu lado sobre o jirau a doce, linda e amada figura da gatinha siamesa “Olga Vasone”. Está na Ilha há bastante tempo (eu a trouxe de São Paulo) e nunca, jamais, em tempo algum das até agora duas das suas sete vidas, atacou passarinhos. Esfrega a cabeça em minha perna, como a saber que estou indo. Eu a ergo, beijo, e até adivinho o que poderia ser um sorriso.

Agora estou a bordo e abano as mãos para seu Pluéricles e esposa. Quando o pequeno motor (tem também velas) do flutuante começa a funcionar, já a balançar na superfície da baía, olho para a choupana, tão bem posta entre galhos, troncos e palmas de açaizeiros, pupunheiras e bacabeiras. Sou um homem antigo, muito antigo, anterior ao big-bang criador dos céus e das terras. Pergunto a ninguém, nem a mim mesmo:

- Voltarei?

O barquinho se afasta ainda mais. O vento d’outubro bate no meu rosto. De repente, sinto que algo escorre sob meus olhos. Nunca imaginei que pudesse estar a chover, com tanto sol...

Escrito por:

Antônio Contente