Publicado 12 de Setembro de 2021 - 10h31

Por Antônio Contente

Até é bom que não seja todos os dias. Pois o fato de ser apenas de vez em quando valoriza ainda mais um maravilhoso espetáculo, encenado só para mim. Falo do bailado das gaivotas quase sobre o jirau, espécie de trapiche do meu tugúrio, diante das águas do Delta do Rio Amazonas. Dizem que as lindas aves se concentram mais, para os seus mergulhos, quando avistam, do alto, cardumes dos peixinhos que costumam capturar. E ontem, certamente, um bando submerso estava sob elas, que os viam; e frente a mim, que não via nada. Porém tinha, ante estes pobres olhos que e terra não há de comer, a cadência, os volteios, o flutuar, o pairar do solene espetáculo das gaivotas sob o azul do céu.

De todos os seres voadores que vivem na ilha ou no entorno dela, as gaivotas representam, para mim, um dos mais fascinantes mistérios. Para começar as vejo sempre, frequentemente; todavia, nunca surpreendi nenhuma pousada. Muitas vezes já passou pela minha cabeça que tais seres fazem parte do próprio espaço no qual flutuam, e nele permanecem praticamente o tempo inteiro de suas vidas, só roçando as superfícies palpáveis ao bater n'água para pegar suas presas ou se estão em ninhos nas épocas de reprodução. E aí está outro mistério, os ninhos. Por aqui os vejo sempre, inúmeros, às vezes montados até entre as telhas do casebre em que habito, como os das rolinhas, por exemplo. Mas, ninho de gaivota nunca vi. De garças sim, como de guarás; em várzeas inundadas ou mais secas, de acordo com as marés.

Seu Pluéricles, o eficiente caseiro que cuida de tudo por aqui nas minhas ausências, às vezes longas, como a recente, me contou que já teve uma gaivota de estimação. Tudo começou com o aparecimento de um bando para a pesca diante da prainha que ladeia o tugúrio. O bom homem percebeu que enquanto o bando inteiro estava a se fartar de peixinhos, uma delas mergulhava, batia n'água, mas nada. Daí ele foi em casa e trouxe, num prato, um bom número de camarões. Quando a gaivota roçou na superfície sem conseguir presa, ele jogou uma das prendas que trouxera. Subitamente ágil, Maria (deu esse nome à criatura) pegou no ar. E no ar capturou muitas outras que ele atirou. Isso se repetiu em várias oportunidades:

- Depois - ele acentuou - quando eu saia na canoinha para pescar a Maria voava na minha frente.

Chegando no lugar que tinha peixe, praticamente parava no ar. E bastava eu atirar a linha que vinha um.

Alguns, eu cortava para o tamanho ficar menor e jogava pra ela.

- E o amigo já viu ninho de gaivota? - Aproveitei pra perguntar.

- Não, nunca vi - ele respondeu - acho que elas chocam as crias nas nuvens...

De frustração relativamente às gaivotas só guardava uma maior do que a de não ver os ninhos: a de nunca ter conseguido fotografá-las com precisão e beleza. Mas como o imponderável às vezes me faz surpresas, numa ida à Belém um colega, jornalista assessor de Imprensa da Secretaria de Turismo, me perguntou se eu podia hospedar no meu tugúrio um repórter suíço que estava fazendo reportagem sobre o Delta do Rio Amazonas.

- Só ele? - Indaguei.

- Só ele, pois também fotografa. Redige e clica.

Assim foi que recebi a esplêndida figura de Volker Turnbull, um tremendo boa praça. E quando soube que ele além de escrever operava com a câmera, imediatamente me veio à cabeça que, finalmente, poderia ter algumas belas fotos das gaivotas que de vez em quando apareciam para pescar diante do jirau. "Tomara que com ele lá ela apareçam" - já estava em ritmo de torcida.

Durante vários dias Volker usou uma lancha cedida pelo Governo do Estado, e, efetivamente, fez um belo trabalho que depois vi na revista para a qual ele trabalhava e me remeteu pro endereço de Campinas.

Quanto às gaivotas, realmente elas apareceram e as tomadas foram feitas. Todavia, se agora a redigir esta crônica lembro de Turnbull, nem é por isso. Mas sim porque numa das tardes, após o trabalho, eu o levei para um banho nas águas claras, cristalinas, lindas do rio Anna Maria Badaró, por mim batizado em homenagem à grande artista campineira, que corre dentro de minha propriedade. Na verdade, um igarapé com a largura do Atibaia.

Chegando à margem, o fotógrafo subiu num velho tronco que caiu junto à ribanceira e ali ficou como, digamos assim, trampolim. Até com insuspeita agilidade para um suíço, ele se jogou n'água e afundou num mergulho que chegou a me parecer logo. Só que, de repente, volta à superfície com um pulo e, erguendo as mãos para o alto como se orasse, brada:

- Obrigado, obrigado! Que beleza, que coisa mais maravilhosa! Graças a todos os deuses que eu não estou na Suíça!

Escrito por:

Antônio Contente