Publicado 18 de Julho de 2021 - 12h38

Por Antônio Contente

É verdade que a peste que assola o mundo está conseguindo acabar com muitas coisas; mas, posso garantir, ainda não impede que, em certos instantes, sejamos tomados por gloriosas manhãs. E o que é isso?, algum apressado poderá indagar. Ao que eu, entre tantas coisas, poderei dizer que uma gloriosa manhã é, simplesmente, aquela em que a claridade se espalha sobre todas as janelas; muitas das quais estão a implorar para ser abertas.

Saio deste tugúrio na Chácara da Barra e, mal coloco os pés na calçada, me sinto tomado por gloriosa manhã. Meio surpreso com tanta dispersão de luz, logo percebo que a que estava a bater nos galhos da sibipiruna fronteira ao meu ínfimo domínio, tinha alguma coisa de restos de infinito; com lento significado de expressão musical. Digo a mim mesmo que ali estava um momento para, simplesmente, ir. E fui.

Moro na parte alta do bairro, portanto desço. Sob céu de indesmentível azul, ao qual muitos apelidam como sendo “de brigadeiro”, penso, ante a secura do ar, que na época das boas chuvas é por ali que desliza uma linda e copiosa cascata. Certa vez, já faz algum tempo, um amigo perguntou que destino quero que seja dado às minhas cinzas, após a cremação.

– Nunca pensei nisso – respondi.

– Mas é lícito pensar – veio a resposta – pois alguém, seu filho ou algum amigo, quem sabe um antigo amor poderá sugerir bom pouso para elas.

– Legal – fechei o assunto diante de tanto pragmatismo – pode ter certeza que resolverei o problema. Resolvido, te avisarei.

Então ali, por ter pensado na cascata da rua, talvez até colocando pátina de beleza sobre um tema que poderia ser macabro, pego o celular e ligo para o amigo:

– Por efeito desta gloriosa manhã que está fazendo – disse a ele – venho te comunicar, solenemente, que acabo de resolver o que será feito com minhas cinzas.

– Quero saber.

– Pedirei, a quem as receber, que guarde bem, até que o céu mande um grande temporal. É na enorme cascata que se forma diante do meu tugúrio que desejo sejam elas lançadas.

Resolvido o fabuloso e sólido problema, atravesso a Norte-Sul no rumo do Cambuí. Ah, amigos, poucas coisas são tão boas para quem mora nesta amada cidade da qual sou cidadão por papel passado, como transitar, numa gloriosa manhã, pela frente de certas casas que a precisão das artes divinas faz com que permaneçam inteiras. Refiro-me às construções aparentemente pequenas que ostentam singelos jardins à frente, sobre os quais se debruçam apenas uma porta e uma janela. O que é absolutamente suficiente para alimentar todo um sentido de encantamento que as paredes seguram para a proteção dos céus.

De repente, nas gloriosas manhãs, cresce um dos grandes sentidos que o Cambuí me inspira. É que as ruas ali postas para que sejam percorridas douram-se por ser ruas que são como deveriam ser todas as ruas, com casas que são como deveriam ser todas as casas, habitadas por pessoas que são como deveriam ser todas as pessoas. O que acaba por nos alimentar com essa coisa boa de dizer; uma vez que tem algo da fórmula para se pensar num mundo que é como deveriam ser todos os mundos.

Sigo no rumo da cidade e, avistando o Jardim Carlos Gomes, sou por ele atraído. E o chamamento, afinal, tinha razão, pois por ali, faz tempo, um bom tempo, eu ia sempre, em certos dias, levar meu único filho, então guri, para brincar num parquinho que lá havia. Uma das coisas que também eu e ele gostávamos de fazer era levar, num saquinho, folhas de alface que picávamos para jogar aos patos que nadavam no laguinho. Recordo que, num certo tempo, as aves sumiram. Perguntei a um guarda quem seria o responsável.

– Ah – veio a resposta – moradores de uma favela vieram buscar para servir em almoços...

Agora subo a General Osório e, ao passar pela porta do antigo Armorial, suspiro saudades. Nessa altura, tinha um destino certo: ver como estava a andar o Café Regina onde, praticamente todas as manhãs, antes da chegada do coronavírus, se reunia a turma da Confraria. Chego diante da porta e dou de cara com um grupo, devidamente mascarado, sentado em duas mesas, lado a lado. Rapidamente pego minha própria máscara, que o tempo todo esteve apenas pendurada na orelha pois eu não falara com ninguém, no percurso, e cubro boca e nariz. Então se materializa, diante dos meus olhos, estes pobres olhos que a terra não há de comer, as figuras dos empresários Jayme Delgadinho e Pedro Porto, que fundaram a Confraria, acompanhados do escritor e pianista Antonio de Pádua Báfero; o globe-trotter Paulo Ziggiatti; o rabino Norberto Velasco; o atleta internacional Carlos Mossa; o advogado e pensador Marcos Piconi; o ex-prefeito de Joaquim Egidio, Jacy Rios; o repórter-fotográfico Neldo Cantanti, e, “last but not least”, o professor Odair Borges, a lenda que anda. Servindo a todos, a maravilhosa atendente Cizinha.

– Saiu hoje da toca por que? – Jayme Delgadinho me pergunta.

– Bom – respondi – não posso deixar que a peste que assola o mundo me impeça de ver e de curtir uma total e gloriosa manhã.

Daí, ajeitei a máscara, sentei e pedi café. Temperado com o mesmo encanto de um chá e simpatia.

Escrito por:

Antônio Contente