Publicado 19 de Junho de 2021 - 17h08

Por Antônio Contente

Dizem que as pessoas que ficam bem velhas têm grande probabilidade de, em algum instante do longo percurso, ser atacadas pelo câncer. Na minha família, com membros longevos em Portugal e na Amazônia profunda, onde nasci, não lembro de ninguém que tenha morrido com a doença. Eu, porém, que estou a viver bastante, faz pouco fui atropelado por ela. Fazendo com que entrasse num universo de andanças entre sombras e luzes.

Patologias que embutem no seu histórico fortes possibilidades de levar quem é atingido a óbito, não se resumem, porém, à simples dicotomia do viver ou morrer. Ao chegar a essa conclusão posso, agora, sentar aqui e contar que, como em inúmeras histórias, as das doenças também carregam enredos com princípio, meio e fim. Para mim tudo começou quando, nas costumeiras idas ao banheiro, passei a sentir coisas estranhas. E é claro que quem, de repente, saca eventos heterodoxos a cutucar o seu organismo, procure um médico. Como possuo vários amigos que exercem essa nobre profissão, liguei a um com quem tenho proximidade maior, uma vez que ele é, também, escritor. Trata-se do estreladíssimo gastroenterologista Cirilo Muraro. Que me ouviu e disse:

– Pra quem sente o que você está sentindo, o homem é o doutor Gustavo Sevá; ele, hoje, é um dos maiores colonproctologistas deste país.

Agora ali estou, numa tarde fria do Outono do ano passado, no Hospital Mario Gatti diante de Sevá e de suas duas assistentes, doutoras Vitória Souza Oliveira e Thalita Zanes Bandeira. Feita a pergunta, narro a elas o que estava sentindo; e até arrisquei emitir diagnóstico, com a inocência da ânsia dos leigos. Todavia, bastaram alguns instantes do exame detalhado para que uma das doutoras jogasse pelo ralo meu indigente conhecimento médico:

– Não, não é nada do que o senhor estava pensando. O que o amigo carrega é um tumor no reto.

– Um tumor?– Estremeço – Câncer, doutora?

– Sim. Mas haverá biópsia – ela respondeu.

Com sua pratica, tanto Vitória como Thalita perceberam meu pavor. Então uma delas murmurou, com certa doçura:

– Não se preocupe. Vamos curá-lo.

Ora, amigos, falemos a verdade, você tomar conhecimento que há um câncer a transitar por suas entranhas é barra. O próprio nome da moléstia já carrega macabro significado, como as histórias de Edgard Allan Poe, Sheridan Le Fanu ou H. P. Lovecraft. Lembro, inclusive, que nos meus tempos de repórter a palavra "câncer" não saia nos jornais. Quando alguma celebridade morria levada por ele, dizia-se que falecera atingida por "insidiosa moléstia”.

Assim foi que, nos meses seguintes, passei a caminhar pelos desvãos das sombras. Enquanto ocorria o preparo para a doença ser debelada, seus efeitos horripilantes colocavam sobre mim pingos do inferno. As dores eram lancinantes, para conseguir dormir precisava ingerir analgésicos potentes. As hemorragias, enormes marés vermelhas que inundavam o chão, faziam com que eu temesse a secagem do sangue em minhas veias.

Ao começar o tratamento para valer, alguns dos sofrimentos que cito acima foram acompanhados por outros. A quimioterapia (nesta parte fui atendido pelo oncologista dr. Adolfo J. O. Scherr) tem, de fato, forte poder de cura; mas, para os benefícios emergirem, o mal-estar que o enfermo sente, antes, é devastador. Meu corpo era queimado por febres capazes de derreter o asfalto das ruas; os desarranjos intestinais chegavam com a terrível carga antirromântica que tal situação privilegia; as cefaleias acutilavam o cérebro; e o engolir três vezes ao dia o monte de pílulas do tamanho de uma jaca exigia preparo de atleta.

Já a radioterapia não levava a que eu sentisse na própria carne cutucadas tão devastadoras. E até abro parentesis para dizer que o Radium Instituto de Oncologia, do doutor Carlos Monti, médico tão gentil quanto famoso que me assistiu nessa área, é um estabelecimento de primeiro mundo. E corria o tempo.

Assim que as dores e as hemorragias diminuíram, passei a perceber que a doença perdia terreno. E, naqueles dias todos de batalha contra ela, além da dedicação do dr. Sevá e equipe, também os amigos fizeram mutirão de ajuda. Recebia de tudo, frutas, CDs de músicas, CDs de filmes, livros, bolos... E também orações.

Bom, chegou um novo Outono e, faz alguns dias, após tantas tomografias, colonoscopias, radioterapias, biópsias, ressonâncias, injeções intravenosas que demoravam horas etc., me vejo novamente diante do dr. Gustavo e das lindas doutoras Vitória e Thalita. Que me deram alta. Estava curado. Era a luz.

Saí do hospital numa tarde fria, gelada, céu baixo como a estação exige. Por já sabê-lo sem câncer, sentia o corpo leve, queria trafegar por algum lugar onde houvesse sinais de vida. Pego um táxi, desço no largo do Rosário. Vendo movimento nenhum por causa da peste que assola o mundo, ando em direção ao Mercadão. A sensação de conforto físico era imensa. Por ali havia gente. Entro num dos botecos charmosamente sórdidos da área e encosto no balcão. Ouço a voz longínqua do garçon a perguntar o que eu queria.

– Um Buchanan's 18 anos on the rocks. Copo curto, igual aos que ganhei de presente da escritora Ana Maria Negrão; quatro cubos de gelo – respondi.

– Do que o senhor está falando? – Ele indagou, pálido de espanto.

– Ah, desculpe – gemi, ajeitando a máscara – quero apenas uma loura. Estupidamente gelada.

Escrito por:

Antônio Contente